A Arte e o Tempo de Ângelo Monteiro

No Jornal Universitário, da Universidade Federal de Pernambuco, vem Ângelo Monteiro - esse escritor da raríssima estirpe dos poetas-filósofos - publicando mensalmente, em sua coluna Arte e Tempo, reflexões sobre os mais graves problemas do espírito. A quem já conhecia o poeta de Marilenda, da Didática da Esfinge e, principalmente, a quem já privava do conhecimento pessoal desse Caçador de Nuvens, não admira a altura e a profundeza metafísicas do pensamento de Ângelo Monteiro. Não se trata, como à primeira vista se pode imaginar, de uma coluna, dessas tantas e crescentes que grassam nos jornais, de "reflexões" sobre arte que mais se destinam a dar gasto à tinta, ao chumbo e ao papel do que à investigação espiritual das grandes questões da arte. A arte, nas reflexões de Ângelo Monteiro tem antes o amplíssimo sentido atemporal que São Tomás de Aquino dava a palavra, como "a reta noção de fazer as coisas", do que o estreito e circunstancial sentido ocidental pós-renascentista e, sobretudo, pós-romântico, de atividade e realização de poucos e excêntricos indivíduos de sensibilidade e vaidade exacerbadas. E aí o poeta extrapola mesmo a noção tomista - ao menos como enunciada -, como metafísico possuidor de agudíssima e mortal intuição para fazer da arte, não apenas a "reta noção do fazer", mas, a reta noção mesma do ser; não sendo a arte um processo, uma ação sobre o universo, mas antes uma condição do ser no mundo. Assim, o tempo, esse enigma, quem sabe pura ilusão, já não condição física, mas, talvez a "matéria" mesma do ser, talvez a substância do espírito, o passado-presente-futuro do Ser, do Criador mesmo do Tempo.

Mas a mim, o que me impressiona mesmo nesse artista-filósofo é a sua coragem no investir, com a afiadíssima arma da intuição, contra os grandes e intransferíveis problemas metafísicos do espírito humano. O problema de Deus e de sua comunicação com os homens, o problema do pecado, da luz e da treva, do amor total, problemas que tantos, em ingênua, perniciosa e arrogante atitude de adesão tardia a um positivismo estreito e oitocentista, julgam tratar-se de "moinhos de vento". E, para a imensa raça dos homens normais, é claro que o que preocupa esse poeta-metafísico (com o perdão pelo pleonasmo) não passa e não poderia passar de "moinhos de vento". Porém, "moinhos de vento" distantes, num horizonte somente acessível à estirpe rara e corajosa, nos tempos de hoje, de um Blake, um Merton, um Maritain; a mesma estirpe a qual pertencem todos os grandes poetas: os nossos Murillo Mendes, Jorge de Lima, Drummond de Andrade e Fernando Pessoa, este último, nosso pelo idioma. Somente a esses é dado alcançar os soberbos "moinhos de vento" do espírito humano, os "moinhos de vento" que só os Caçadores de Nuvens, como Ângelo Monteiro, ousam enfrentar.

Jornal do Commercio, junho/1973. 

Autor: 
Sebastião Vila Nova

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