Meditações de quem ouve sonhos

Poucos pequenos livros são tão grandes como este O Ignorado do poeta Ângelo Monteiro. Numa irônica fidelidade ao seu título, a obra, de certa forma, permanece ignorada, longe de uma recepção mais ampla e de um testemunho mais claro de sua importância. E isto em parte se justifica pela limitadíssima tiragem das edições Pirata.

Na sua brevidade de páginas, na sua linguagem ágil, este livro jorrado numa espécie de fogo profético - fogo, aliás, angelianamente característico - ofusca pela pertinência de seus temas e suas reflexões. A arte, o amor e o próprio destino humano são como que passados a limpo pelo escritor. Está em jogo a dignidade humana. Estão em cena, no outro lado do que está escrito, os demônios de nossa civilização.

Escrito em prosa, como um sermão poético, O Ignorado tem o sabor nietzschiano de conspirar contra uma realidade falida. Doce e terrível conspiração. Lucidez de um artista que, entre a ontologia e a estética, oscila a sua palavra redentora. Oscilação esta já implícita nas epígrafes de Holderlin - "O que fica, os poetas o fundam" - e de Jung - "A mentalidade primitiva não inventa mitos, mas os experimenta".

N'O Ignorado, além da grandeza poética do autor, descobrimos o Ângelo dos aforismos, quer aqueles de agudeza psicológica, quer aqueles que performam uma severa e humorada crítica aos valores que têm levado o homem à destruição e à morte, constatando que "a enorme façanha de nosso tempo é a de manter vivas cidades de homens mortos" ou que "Um punhal de papel e uma rosa inútil; eis o brasão do nosso tempo".

É, contudo, ao falar do amor e da arte que o poeta-filósofo chega a alguns dos seus maiores momentos, tornando seu livro uma pequena obra-prima em que a linguagem do mito e os sortilégios das imagens e das metáforas são, além de um deleite estético, iluminações sobre a própria condição humana. Condição sobre a qual - intui o poeta - prepondera o poder do inconsciente: "Nossos sonhos e nossos pesadelos, talvez mais que as realidades do cotidiano, nos pertencem". O mesmo inconsciente que está implícito nos enigmas da arte, pois esta "fará o homem enfrentar-se com o escuro, perder-se nele antes de vir à tona para a vida. E transmitir aos outros uma lição de mistério". Arte que, por sua vez, segundo o poeta, "é uma astúcia contra a opacidade do mundo".

Insólito, crítico, repassado de um misticismo que não se embebe apenas na tradição judaico-cristã mas, sobretudo, na vivência da expressão criadora, O Ignorado está destinado a permanecer na memória de todos os que acreditam que, a despeito das aparências, - para concluir com Guimarães Rosa - "está irremediavelmente destruída a concepção de vivermos em agradável acaso, sem razão nenhuma, num vale de bobagens".

Diário de Pernambuco, junho/1984 

Autor: 
Paulo Gustavo

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