Ângelo Monteiro: O Expectante

Proclamação do Verde, livro de estréia de Ângelo Monteiro, traz como prefácio um interessante "antimanifesto" do autor, onde lemos entre várias advertências coisas como estas: "Não decifreis, portanto, a nossa arte. Não gostaríamos de ser chamados por esta denominação, tão viciada, de poetas. Preferimos estar sempre expectantes. Pois somos as testemunhas da espera..."Ora, estando Ângelo Monteiro muito sabiamente convicto de que a grandeza de toda obra de arte se mede pela capacidade que tem de resistir às tentativas, sempre superficiais, de análise e aferição, nada mais justo que procure defender seu livro contra certas heresias, contra aqueles que, ocupados em decifrar a esfinge, não se apercebem nunca de sua beleza, não têm tempo de descobrir que a única maneira de se escapar ao poder destruidor de um grande mistério é saber contemplá-lo, simplesmente. Ângelo Monteiro é um poeta místico e a palavra contemplação tem para ele a força de um destino. Não gosta de ser chamado de poeta. "Testemunha da espera", "expectante", é assim que devemos chamá-lo, obedecendo à terminologia pessoal do artista, pois só por esse caminho poderemos alcançá-lo.

Seu livro Proclamação do Verde, editado com muita justiça e oportunidade pela "Imprensa Universitária" da UFPE, é um livro-definição, refletindo toda a filosofia de vida do seu autor, muito jovem ainda e fazendo parte da que o historiador Tadeu Rocha achou de denominar "Geração 65", de Pernambuco. E, por refletir autenticamente a visão cósmica do seu autor, Proclamação do Verde é um livro que pede par ser simplesmente contemplado, que se furta à decifração e à análise, por definição, por atitude. No entanto, poucos livros de poemas publicados em Pernambuco nos últimos anos possuem tantos e tão bons elementos que fazem as delícias de qualquer analista do estilo. Entre aqueles elementos o que primeiro salta à atenção para uma análise estilística é a incidência em todo o livro de certos vocábulos e, entre eles, a palavra - verde. Se aqui em Pernambuco Carlos Pena filho foi o poeta do azul, Ângelo Monteiro acaba de assumir, merecidamente, o seu trono verde. Em Carlos Pena , no entanto, e sem desmerecer nem um pouco a sua importância e grandeza, o azul era o azul mesmo, aceito integralmente em sua pureza, sem receber uma crítica irônica ou desfavorável em toda a obra do autor de "Livro Geral", e com essa cor ele pintava os sapatos, os cabelos, o tempo, "por não poder pintar as avenidas". Em Ângelo Monteiro, o verde é furta-cor, é matiz da cilada, é a cor do cavalo de Tróia - o enganoso verde-troiano:

"Como se fosse a deslembrada bênção
de um ritual já morto, canto o verde
que só existe porque eu falo dele,
e não mais, como outrora, verde crença".

Na literatura brasileira, um outro poeta, Olavo Bilac, no seu excelente "O Caçador de Esmeraldas", também viu no verde a cor do delírio, do desengano. Lembram-se deste estrofe?

"Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem;
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem..."

De símbolos da esperança o verde passou a servir de camuflagem ("as camufladas vestes que te deram") aos inimigos da esperança, que dela se aproximam, todos verdes, para destrui-la. O livro de Ângelo Monteiro ainda não recebeu a merecida consagração, a despeito de sua importância e contribuição para a nossa poesia. Não sei que forças misteriosas atuam para mantê-lo na semi-claridade, mas há, como disseram os antigos, um tempo para tudo, inclusive a poesia. Para mostrar até que ponto é íntegra a mensagem do poeta, tomaremos uma amostra do primeiro e do último poema de seu livro:

No primeiro, "O Verde Troiano", temos:

"Por desnudas manhã protestaremos
(eu e tu) contra o verde sabotado".

No último, "Barcarola":

"Senhores, não vos convido
Porque iríeis manchar o verde".

Desse verde agora "manchado", "sabotado", sobe ainda uma rama tênue capaz de ser amada pelo poeta, e a ela talvez simples espectro do delírio poético, ou sombra retardatária do cavalo de Tróia, entrando no pátio - Ângelo se prende com as garras da palavra e o desespero dos apaixonados:

"Daí eu estar sempre expectante
e amar as coisas, mesmo sem crer nelas".

* JORNAL DO COMMERCIO, Recife, 31 de dezembro de 1970.

Autor: 
Alberto da Cunha Melo

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