De Passagem

Um nome na Literatura, nas Artes Plásticas, nas artes de um modo do geral, não se faz rapidamente. Quando isso acontece, já vem selada a sua sentença de morte. O abismo se abre e o artista despenca para nunca mais ser ouvido, lido nem citado.

Há, também, alguns nomes que foram se firmando com o tempo e que todos respeitam e admiram, mas o silêncio em torno deles é público e notório.

Há outros, ainda, que mesmo sendo alvos do silêncio da mídia e dos grupos dominantes, de repente aproveitam as frestas das janelas e buscam o sol que nasce nas manhãs. Eles se sabem possuidores da chama: "Toquem-me fogo/E incendiarei toda floresta".

Essas reflexões são a propósito do livro, ainda inédito, "De Passagem", do poeta Ângelo Monteiro. Admirável livro de um poeta que cresce em cada obra que escreve. E como faz bem ler um poeta assim, de alma brasileira, que cavalgou como um Dom Quixote; bailou nos campos da Espanha; sonhou com a loucura do super-homem de Nietzsche e louvou o Profeta Maomé "que recebeu pelo Alcorão/A dádiva do Crescente sobre os céus".

De passagem está o poeta, mas leva uma imensa bagagem de emoção, de criatividade, de força poética indiscutível. Pena que a grande quantidade de livros de poesia que se publica hoje desgaste, cada vez mais, esse gênero literário de tanta grandeza. E são tantos os fazedores de versos, que os poetas de verdade vão sendo jogados num mesmo balaio.

Até certos nomes de expressão são induzidos a analisar obras poéticas sem o menor valor. Escritores assinam artigos em revista de circulação nacional e acabam, por interesses pessoais, louvando as mediocridades emergentes. E a bagaceira se instala. O joio e o trigo repousam no mesmo prato.

Quem vende é quem acontece. Os que acontecem nem sempre são os melhores. Vivemos num mundo sem critérios ou julgados pelo critério do poder e do dinheiro. Se tiver poder - nem precisa ser um grande poder - é publicado e comentado. Se tiver dinheiro, melhor ainda, pois o dinheiro publica e compra louvações.

Por isso, quando chegam às nossas mãos livro como este de Ângelo Monteiro, em que a gente sente a água clara e transparente da grande poesia, a vontade que temos é de mergulhar por inteiro, nessas águas. Dentro delas, podem as bolsas cair, desabar todo o fogo dos infernos, que não vão bagunçar o nosso espírito. É o próprio Ângelo quem diz: "Somos peixes que mergulhamos/Nos cruzamos e nos perdemos/No ar como no mar".

* JORNAL DO COMMERCIO, Recife, 7 de outubro de 1998. 

Autor: 
José Mário Rodrigues

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