Idéias, Livros e Fatos

UM CAÇADOR DE NUVENS - Acontece que eu sou lógico...Pelo menos, espero e procuro sê-lo, lamentando que isso esteja tão para além das minhas forças. A minha filosofia da arte e da vida (ou, talvez, apenas da arte) estará, portanto, em freqüente oposição à que o Sr. Ângelo Monteiro defende. Para mim, se o homem dispõe, no seu frágil instrumental, de uma riqueza chamada a razão, não tem o direito de jogá-la fora, sobretudo se está apaixonado e necessita de todos de todos os seus poderes para conseguir o objeto de sua paixão, a sua verdade ou a sua beleza. Talvez esteja na índole de todo grande amor inflamar não somente o calor dos êxtases mágicos senão também a luz das compreensões intelectuais. Quem sabe mesmo se esta luz e aquele calor não serão inseparáveis, como nos fogos de outra espécie que a cada passo acendemos?

Não estarão de acordo, de vez em quando, por conseqüência, o mesquinho lógico que desejo ser, e o admirável mágico que acaba de publicar um livro intitulado Armorial de um Caçador de Nuvens. Isso não me impede, porém, de prestar-lhe as melhores homenagens - inclusive esta, de confessar-lhe as minhas discrepâncias. E louvo-lhe, principalmente, o que me atrevo a designar como instantâneos líricos, quando o autor fixa em imagens integralmente poéticas a poderosa mas efêmera realidade de certos estados de espírito.

"Ouço cães ladrarem longe/das estrelas, com o focinho/mais sério que o ar do monge/na certeza do caminho:/pudesse eu ladrar tão longe/sem me sentir tão sozinho".

Aí tudo está bem nítido, tanto na comparação original, criando uma imagem de amplidão e de angústia, quanto na música límpida, exata, concisa. O talento do poeta está em haver metido a visibilidade da cena noturna no ritmo da pequena e clara estrofe, de modo a transmitir-nos tudo aquilo que lhe assaltou o coração no momento em que viu ou sonhou, no momento em que se sentiu perdido nos desertos da existência e dirigiu para os espaços impassíveis a sua voz fremente. Noutra página, antes, a dúvida fora ainda mais forte e ele se vira forçado a gemer que "todo idioma é mudo/apesar da nossa voz" - o que não o leva, no entanto, a desesperar ou desistir, mesmo porque resta sempre "um mar inventado/à espera de navegante".

O pobre lógico que sou, encontra nisso elementos de comunicação real, percebe o núcleo inteligível de uma emoção, digamos mesmo de um êxtase, e recebe em si um pouco do que nele se contêm. Participo da criação poética que se realizou em outrem e de que sou incapaz, na medida em que a minha inteligência trouxe-a para mim.

A constância do Sr. Ângelo Monteiro em reduzir os seus poemas a um modelo de sextilhas em que os dois últimos versos retomam e ressoam o tema central que antes se configurou, suponho que seja também um sinal do seu espontâneo, conatural empenho de construir uma forma própria para exprimir cabalmente o que se passa no seu ser profundo. É um processo que se coroa de modo suficiente para assentar o renome do poeta, no poemeto XX da série que estou citando, pequena jóia de intensidade espiritual, justificativa de uma arte que não é malabarismo nem exibição mas reflexo da sinceridade daqueles que, como Pascoal, cherchent engemissant. E que, por cima de todos os obstáculos, e apesar do que dizem, não estão convencidos de que só lhes cabe o "ter ouvidos/para o negro galope das ondas sem mar", ardem por mais plenas revelações, revelações verdadeiras do significado das coisas, além de rumores e de brumas.

"Armei um salto/para ter a consciência de ter feito algo/Embora em nada cresce:/nem no salto nem no alvo". Assim em todos os homens, ainda quando julguem não crer em nada, nem no esforço nem no êxito, permanece uma crença mais funda do que as outras, mais radicada, de obter uma "consciência", de realizar-se numa compreensão melhor deles mesmos, envolvendo o seu destino e completando a sua vocação.

* JORNAL DO COMMERCIO, Recife,1 de janeiro de 1972.

Autor: 
Luiz Delgado

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