Ângelo Monteiro

Ângelo Monteiro tem uma característica dos verdadeiros criadores: a capacidade de admirar, o desprezo pelos mesquinhos ressentimentos. A sua poesia tem um sopro mítico, nela o sofrimento ganha a dimensão do martírio. Não é apenas um poeta cortejador de palavras, um mero equilibrista da métrica e da rima. Na sua poesia, os sentimentos e os sonhos não fazem das palavras mesquinhas cortinas para acobertá-los, mas larga estrada para fazê-los libertos. Com as palavras arma o seu circo, coloca em ação o espetáculo. Arrasta os deuses para o palco e os mistura com as feras e os mágicos. Sabe que é ao mesmo tempo testemunha e participante da grande tragédia, da terrível farsa da vida. Lendo o seu último livro, Armorial de um Caçador de Nuvens, chegam-me à memória as palavras de Jorge de Lima: "O artista é apenas um colaborador na magia de que é o oficiante, na tragédia sagrada de que é cúmplice". Ângelo Monteiro pergunta no prólogo do seu livro: "Quem maior responsável pela vida sem imaginação que se conhece e que nos exila no mundo, senão o forçado degrêdo dos mágicos?" O autor da Proclamação do Verde sabe que todo artista é cúmplice na tragédia sagrada. Nesta tragédia onde a inevitabilidade da morte transforma a vida em destino e onde é concedido ao Homem: não o tempo ou um tempo, mas um prazo. A criação em arte é também, contraditoriamente, uma tentativa de dilatar esse prazo, fazendo com que os criadores edifiquem realidades em espaços e tempos imaginados, na tentativa de fugir da cumplicidade com o inevitável diabólico ou sagrado. A poesia de Ângelo Monteiro é uma tentativa que ele próprio faz para melhor compreender um mundo onde a realidade e o sonho não têm fronteiras. No último poema do seu livro ele faz a exaltação do Maravilhoso:

"Mas ninguém chega à realidade
e às sua grutas
com os olhos desertos do Maravilhoso".

Alejo Carpentier no prefácio que fez para sua novela, "O Reino deste Mundo", assim nos fala do Real Maravilhoso: "Acontece que muitos esquecem - disfarçados de mágicos baratos - que o Maravilhoso começa a sê-lo de maneira inequívoca, quando surge de uma inesperada alteração da realidade (o milagre), de uma revelação privilegiada da realidade, de um destaque incomum ou singularmente favorecedor das investidas da realidade, ou de uma ampliação das escalas e categorias da realidade, percebidas com particular intensidade, em virtude da exaltação do espírito, que conduz até um tipo de "estado limite". Antes de tudo, para sentir o Maravilhoso é necessário ter fé". Na poesia de Ângelo Monteiro a fé transparece. Acontece, apenas, que não é uma fé que se confunda com a mera aceitação do desconhecido. É uma fé advinda de muitos dilaceramentos, uma fé que se faz uma constante busca do Absoluto e esforço de compreender o que nem sempre é explicável. Dizia Yeats que toda grande literatura era criada com símbolos e que observações e estatísticas não significam nada. Ângelo Monteiro começa assim um dos seus poemas: "Navego um mar de símbolos sem conta". No Armorial de um Caçador de Nuvens existem vinte cantigas de fingimento. O poeta para essas cantigas usou como epígrafe os célebres versos de Fernando Pessoa:

"O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente".

O fingimento do poeta não é uma camuflagem da realidade, trata-se evidentemente do fingimento criador, tentativa de arrastar para si mesmo o imaginado. D. H. Lawrence afirmava: "A arte de falar é a única verdade. O artista, por exemplo, é um mentiroso empedernido mas sua arte, se realmente é a arte, dirá a verdade do seu tempo".

Talvez Ângelo Monteiro desejasse apagar as faces negras da miséria do seu tempo e da sua região, mas não conseguiu impedir que a verdade transparecesse nos seus versos. Na sua poesia os estandartes apenas vivem o seu sonho, e a nobreza que resta é do dilaceramento que o artista sente ao confessar:

"Para que os cantos da terra,
Se não há quem mais os cante?
Descobriu-se o último brilho
Da estrela mais instante:
Mas resta um mar inventado
À espera de navegante".

Por isso, Ângelo Monteiro navega num mar de símbolos, tentando transfigurar a realidade mesquinha nos seus versos heráldicos, feito um porta-estandarte enlouquecido, confessando que:

"Mais sofrem meus estandartes
sem culpa te incomodando".

* JORNAL DO COMMERCIO, Recife, 28 de janeiro de 1972. 

Autor: 
Maximiano Campos

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