Ângelo: de Súbito Fulgor

Quarenta e cinco sonetos constituem O Exílio de Babel, de Ângelo Monteiro, fluido caudal de signos, imagens e sons percorrendo a dimensão de entressonho do Artista. Naquele Universo só uns poucos iniciados teriam ingresso. E o poeta se sente só:

Ah! o exílio da alma em qualquer língua
E a palavra atingida sempre aquém.
As bocas de água viva estão à míngua
E a poesia não morre por ninguém.

E nesses quarenta e cinco sonetos, decassílabos em sua maioria, o Poeta amarga o exílio dos que atingiram a iluminação e são, por isso, incompreendidos:

A neve que nos fixa e ora nos cobre
É o estigma pelo verso que nos fez.
Por isso eles terão hoje seu cobre
E nada cobrirá nossa nudez.

É o estigma daqueles que olham e vêem numa terra em que todos olham sem contudo ver. O sonho, só o sonho é real, ele jaz além da horizontalidade da multidão robotizada e massificada por manipuladores desumanos que negam e espezinham a Beleza em nome de uma praticidade destituída do Verdadeiro e do Eterno:

Entre a vigília e o sono te persigo
Como entre a vida e a morte me arrebatas.
E os nossos corações varando as datas
Ansiando tremem no seu próprio abrigo.

Na planície imensurável em que se constitui a nossa Poesia, considero Ângelo Monteiro um dos poucos pontos elevados. Sua Poesia constitui-se ponte estendida sobre o abismo entre o mundo grotesco, onde se travam batalhas pela conquista do ilusório, e a terra da verdadeira Beleza; ali, um dos grandes murais foi composto por ele, o Poeta.

Esses sonetos em ebulição, atormentados, cheios de mágoa para com a vida, constituem-se em elementos de ressonância de uma época. O Artista, desapercebido, esquecido por governantes incompetentes que dirigem e manipulam desastrosamente a nação, levando o povo ao desespero, à ruína, constitui-se a voz do povo desarvorado. Os Poetas têm constituído, através das idades, a estrutura emocional das sociedades onde vivem. Daí Goethe sentir-se incomodado com a serenidade de Shakespeare. Literatura serena, patrioteira, estilo cromo, só terá, no máximo, receptividade em antologias elaboradas para fins didáticos. O Artista é um desafiante, traz em si a vocação para a vitória. Os cavaleiros andantes empreendiam justas, demandavam ao Graal, lutavam contra dragões e ogros. O Poeta, insatisfeito consigo próprio e com o mundo que o circunda, fincado em seu Rocinante, arremete contra os moinhos de vento, indiferente os discursos glacialmente racionais de Sancho Pança.

E o nosso D. Quixote, que bem poderia ser confundido com um bíblico profeta de arengas escatológicas, não só pela silhueta ascética como pela expressão angustiada do seu rosto, arremete contra o mundo portando reluzentes sonetos.

Em O Exílio de Babel, os elementos que compõem as quarenta e cinco peças poéticas tornam cada uma delas autêntico fragmento de painel bizantino. A mística que nos evoca claustros peninsulares, a adjetivação, os símbolos e a névoa que sobre eles paira, lembrando-nos simbolistas como Cruz e Souza, a brevidade da vida sempre evocada, recendendo aos românticos do mundo inteiro, a religiosidade infantil e lírica do menino, a saudade...

Gostaria, contudo, de escrever sobre O Exílio de Babel apenas como um leitor ingênuo, incapaz de dar à sua experiência estética expressão articulada, possuído apenas pelo gozo estético que nos propicia a obra quando entendida tão-somente no sentido formal. Creio mesmo que a crítica acadêmica que esmiúça e analisa a obra laboratorialmente, tende a falsificá-la em sua condição de entidade essencialmente formal.

Mas a poesia de Ângelo Monteiro exacerba o didata em mim jacente. A arquitetura multifária dos seus versos inclina ao estudo. E o que mais ressalta em tais construções é a quebra de normas que ao meu ver vêm aprisionando nessas últimas décadas a Poesia. Normas que decorrem de fatores diversos de ordem histórico-social que em nossos dias vêm obrigando o homem a pensar e a agir em função do prático e estritamente funcional no mais breve espaço de tempo possível. Essa tendência puramente pragmática, onde o esforço mental da criatura humana centra-se na obtenção de lucros monetários e prazeres sensoriais periféricos, tem propiciado uma poesia glacial, despida de emoções que marcha estranhamente na contramão do fato poético.

O autor de O Exílio de Babel insurge-se contra a Poesia contida, milimetrada. Colocando-se na vanguarda, emprestando novas tintas e vigor emocional ao soneto, vejo-o altear-se na paisagem artística da província. E por mérito legítimo que lhe toca, os pósteros que virão, agraciados pela distância, poderão melhor distinguir a grandeza e a profundidade de Ângelo Monteiro inserindo-o na história da nossa literatura como um dos maiores Poetas do seu tempo.

* REVISTA DA ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS, Ano XCI, dezembro de 1992, nº 32

Autor: 
Geraldo Falcão

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