Oposições : Williamns Carlos Williams & Ângelo Monteiro

O estudo comparativo entre formas poéticas é sempre uma empresa difícil, sobretudo quando se trata de poetas de nacionalidades diferentes e posições filosóficas diversas. A associação entre a poesia de William Carlos Williams - poeta americano falecido em 1963 - e Ângelo Monteiro, nascido em 1942 e sobejamente conhecido nos arraiais literários desta província de Pernambuco - parece à primeira vista, inconciliável. A menos que, e foi o que fizemos, apreciemos as posições antagônicas onde se colocam, quer seja no que diz respeito ao fazer poético como tal, quer no que se refere ao conteúdo, embora saibamos que, no fim, os opostos se atraem e se confundem.

A primeira discordância é óbvia. O poeta americano é o poeta do visual, do factual e o poeta brasileiro é o poeta da alma, o poeta metafísico, embora a sua poesia possa ser visualizada e mesmo dançada, depois de alcançados os seus posicionamentos e apreciados os seus valores.

Este estudo foi calcado em cima de dois textos: "I wanted to write a poem" do poeta americano e "O Inquisidor" deste pernambucano de Alagoas.

Na abertura do seu livro W.C.W. define sua posição como poeta, escrevendo: "I wanted to write a poem/that you wauld understand./For what good is it to me/if you can't understand it?"/But you got to try hard". Essa postura se distingue da de A.M. quando, na "Expectação nº 7", se identifica como poeta dizendo: "Não me torture mais, Senhor da Espera./Sabes que sou poeta e auxiliar do Anjo."

Enquanto o primeiro expressa o desejo de como gostaria de escrever, o segundo "sabe" que é poeta e como tal, se coloca numa posição acima do homem comum, inclusive porque se considera "cúmplice de Deus".

A poesia de W.C.W. é uma busca permanente da forma e como ele próprio o admite o seu "fôlego" é curto e, assim, o seu verso é breve, às vezes de uma só palavra e ele como que desenha quadros tão transparentes como "O carrinho de mão vermelho". Vale a pena ver o texto em inglês para uma melhor valorização: "So much depends/upon/a red wheel/barrow/glazed with rain/water/beside the white/chickens", o qual numa tradução livre, daria: Quanto depende/de/um carrinho de mão/vermelho/brilhando sob a água/da chuva/ao lado de galinhas/brancas".

O leitor vê o poema. E aos poucos, vai adentrando o segredo da beleza e o "quanto" se oculta sob a simplicidade dos dizeres e se questiona sobre esse "quanto" que é, afinal, a chave do poema.

A.M., sempre inquisidor, usa figuras onde os elementos constituintes têm muito de metafísico, de esotérico e como não admiti-lo? de cristão. Na primeira estrofe do "Décimo Tema sem Júbilo" o poeta pergunta: "Como encontrar o vértice perdido/da pirâmide etérea que a Palavra/sobre as dunas da Terra ergueu ao Dia?".

Usando, ao contrário de W.C.W. um verso decassílabo e capitalizando os termos "palavra...terra...dia..." o poeta faz o leitor mergulhar numa atmosfera rarefeita e, certamente, cada pessoa verá uma imagem diferente, dependendo do seu grau de cultura geral, de sua sensibilidade para as coisas do espírito e do seu hábito de ler poesias.

De que pirâmide fala A.M.? De que mundos longínquos vem essa imagem? Qual sua simbologia?

O iniciado nos princípios esotéricos, sabe, vê, entende. E embora as interpretações individuais nem sempre correspondam às do poeta no momento da criação, é possível pensar que a "Palavra" - no princípio era o Verbo - tenha erguido essa pirâmide cujo vértice se perde numa dimensão onde os simples mortais não ousam penetrar mas é parte desse "Dia" que de ontem se fez hoje porque é eterno.

Pura interioridade, a poesia de A.M. se opõe ao descritivo de W.C.W. E embora o poeta americano jamais se tenha definido em termos filosófico-religiosos, ele escreve um poema cujo título - "Adão" - registra uma influência bíblica.

"Adão" (dedicado ao pai) é o homem primitivo, "nascido à beira mar/numa ilha tropical/habitada por negros - principalmente". E dessa vida, em contacto com as coisas simples, ele é, de súbito... "expulso...para provar/a morte/a que o dever obriga.../de uma maneira tão nobre/que o escravizou para sempre/desde então". E o poeta continua: "E para trás ficaram/misturados às conchas e furacões/todas as doces recordações/os perfumes e os sons e os olhares/que os latinos sabem/são parte do tédio das horas longas e tórridas/...e que os ingleses jamais entenderão".

É a luta pela afirmação que se reflete na busca da forma desse que foi inglês na origem, mas que se sabe e se quer tipicamente americano.

Em A.M. a afirmação tem orientação definida quando o inquisidor pergunta: "Onde encravar a pérola do júbilo/com seu clamor aceso de esmeralda/nos anéis poluídos do destino?". A beleza se comunica de imediato pelo ritmo melódico, pelo jogo de palavras, e é possível gostar do poema sem alcançar o sentido profundo que lhe empresta o autor. Todos os "Temas sem Júbilo" têm um núcleo comum e indo e vindo na tessitura da sua mensagem, o poeta desenha um círculo onde, quem sabe, se insere a pirâmide e os seus questionamentos são aquelas sondagens que o homem vem fazendo ao longo das idades quanto às origens e fins do universo cósmico e, por extensão, do universo interior.

W.C.W. não interroga. Informa e descreve.

Partindo de pontos fundamentalmente diferentes, W.C.W. e A.M. se encontram no ponto onde os contrastes se atraem e na mensagem que se oculta no dizer simples e no verso breve, W.C.W. alcança a verdade de A.M. lá onde a "pirâmide etérea" se perde na dimensão maior que é o infinito e que conduz ao "Senhor dos Mundos".

Diário de Pernambuco, Recife, 4 de novembro de 1988

* Estephania Nogueira é poeta e crítica literária.

Autor: 
Estephania Nogueira

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