Carta para Ângelo Monteiro sobre "O Inquisidor"

Só agora, Ângelo amigo, terminei de ler seu "O Inquisidor" (São Paulo - Recife, 1975).

Não foi dos últimos livros recebidos, mas de propósito, coloquei-o de lado para nas férias, com calma, ler um por um todos seus poemas. Ler e - digo-o depois da leitura - saborear, pois seus poemas não são unicamente para ler e entender, como para penetrar no sentido das interrogações que uns explicitamente apresentam, e outros implicitamente contém ... Meu depoimento será pois de amigo para amigo, isto é, de um homem sincero para um homem puro que você é - como poeta.

Sou dos que ainda crêem que a poesia como "filha do céu" só os poetas a podem receber e comunicar a nós outros, como se comunica um mistério, sem querer penetrá-lo, pois, neste caso, desaparece como mistério - um mistério compreendido é um mistério destruído - isto é, deixa de ser mistério, porque perde seu segredo, e, com o segredo, seu encanto.

Depoimento que, logicamente, terá de ser íntegro, no sentido de completo, sobre todo livro, e não sobre este ou aquele verso, sobre este ou aquele poema de seu livro, como está de moda da parte de muitos, da maioria - alegando como motivo que é puro e ridículo pretexto a chamada interpretação de textos, quer em prosa, quer em verso.

Primeiro separou-se a vida da literatura, como se a vida não fosse o lugar onde se tempera a inteligência e se forma a alma do artista. E como se a literatura não fosse, por outro lado, essa mesma vida, quando tem a felicidade de encontrar, num homem de gênio, a plenitude da sua própria e exata expressão.

E, agora, separa-se o livro do autor, sacrificando estupidamente a história, a filologia, a geografia em fim, em que o autor viveu, se fez e elaborou seu livro...

Compreendo a atualização de métodos, e o esforço pela sua crescente perfeição - métodos científicos, ou literários, didáticos ou pedagógicos, pouco importa, sempre que meios necessários para o esforço humano, e para os frutos de seu diurno e noturno suor, quer nas ciências, quer nas letras. O que não compreendo, nem justifico, é a simples violação das leis da natureza e, logicamente, os princípios da lógica, isto é, as normas em que deve apoiar-se e fundamentar-se a própria razão das coisas. O que aqui eu estou querendo insinuar - insinuar e denunciar - é que "a crítica estruturalista, em particular, (pois a outra com a denominação de semiologia ainda está na fase de elaboração teórica) pese ao adjetivo que a define, mui raras vezes sabe sobrepor e relacionar os diferentes níveis - história e filologia - que compõem a estrutura ideal do texto em sentido vertical.

Nos melhores representantes deste método crítico aprecia-se a indubitável finura e sensibilidade literária que possuem. E aprecia-se, também, o domínio quase algébrico de seu ofício que consiste em secionar a obra literária - que de si é um organismo vivo - até reduzi-la a um esquema puramente anatômico de elementos e sub-elementos linguísticos em esquemas de laboratório.

Em tanto que conceitos, história, filologia e arte são termos distintos entre si, e, por isso, em teoria, é perfeitamente válido que a crítica literária possa prescindir do todo da análise e interpretação da história contemporânea, num determinado texto, e que o texto como tal interesse; não, em câmbio, seu autor.

Este prévio suposto, como vê, conduz a conseqüências deletérias para a vida cultural, no sentido de que prescindir da história impossibilita todo conhecimento integral da obra submetida à exame, e transforma ademais a literatura numa série de mónadas linguísticas faltas de relação entre si". (Michel Pallottini, Eugenio Montale, poeta de los anõs dificiles, in Ver. Nuestro Tiempo, Número 257, página 34 ss.)

Como ficaria, neste caso, seu O Inquisidor, se julgado com esse novo critério que, agora, está de moda, e que uma meia dúzia quer impingir a todos os outros?

Até o título de seu livro tem sabor histórico - e não só sabor, como carga que, em muitos, ainda, causa a sensação de uma explosão atômica quando ouvem falar em inquisidor, em inquisição e seus derivados.

E, você mesmo não teria escrito esse livro se não tivesse sentido a necessidade de interrogar a todos nós; se, na realidade, nos apercebemos, se estamos cientes da angústia metafísica, do drama de solidão que se apoderou do homem moderno - do homem que confiou única e exclusivamente na sua técnica...

O que Nabucodonosor fez com os adivinhos de seu reino, você fez com os homens do nosso século, até com uma singular coincidência, a de que Nabucodonosor esqueceu-se de seu sonho, e o homem do nosso século, esqueceu-se de si mesmo - o que é pior - perdeu seu endereço, e o resultado é esse que está aí - andar às tontas como um gigante cego que a si próprio se cercou de trevas.

A solução está, pois em, esperar por um novo Daniel - esse homem maravilhoso de seu poema que, em nome de Deus, responda a todas as nossas interrogações sobre o sentido final dos seres, neste mundo: e sobre a nossa co-existência, nesta vida, até chegarmos a Deus, fonte de toda beleza, e resposta a toda interrogação.

A salvação da sociedade, ou vem pelos poetas, como pelos profetas, outrora, ou não vem.

Assim creio, assim assino.

Diário de Pernambuco, 29 de agosto de 1976

Autor: 
Pe. Romeu Peréa

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