O Ignorado

Escrever sobre a poesia de ÂNGELO MONTEIRO não é tarefa fácil. Anteriormente tentei uma interpretação do seu livro O INQUISIDOR e, segundo o próprio poeta, nem mesmo cheguei a vislumbrar, já não digo a essência, mas nem mesmo os contornos externos, a epidermicidade da composição. É, pois, com grandes cautelas e imenso temor que me arrisco novamente; já não mais a interpretar ou explicar (tarefa insensata), mas a tecer alguns comentários tímidos sobre o livro mais recente de AM. Trata-se de O IGNORADO, publicado pelas Edições Pirata. A poesia de AM é, indiscutivelmente, uma poesia difícil! Misteriosa, sibilina, ela nos lembra algo semelhante ao que os metafísicos ingleses produziram. Quem já leu Donne e Blake entenderá o que estou pretendendo dizer. Mística, impregnada de religiosidade, tocando muitas vezes as fímbrias do sobrenatural, mergulhando outras tantas vezes numa atmosfera que, por estar carregada de extrema luminosidade, nos cega e nos aterroriza. Associemos, portanto, o mistério dos poetas metafísicos ingleses ao misticismo poético de São João da Cruz (Noite Escura e Subida do Monte Carmelo) e de Santa Teresa, a Reformadora (Os sete Castelos da Alma) e teremos, guardadas as devidas proporções, a poesia de AM. O que eqüivale a dizer que a poesia de AM agradará apenas (ou me engano?) a um pequeno grupo de iniciados, a uma reduzida minoria ou, falando sem eufemismo, a uma elite. Exatamente isso: AM é um poeta para as elites. Elite religiosa e elite intelectual.

Não sei se isto é um elogio ou uma crítica, mas não estou absolutamente preocupado em agradar ou desagradar ninguém. Quero apenas utilizar a pouca liberdade de que disponho par dizer o que penso, o que sinto, o que a leitura das obras de AM me sugeriu. Faço minhas, então, as palavras de João Paulo II: "Se eu estiver errado, corrijam-me". Mas é exatamente isso que encontro nas obras de AM e, particularmente, no seu último livro O IGNORADO: mistério e misticismo. Um mistério que às vezes oferece sua própria explicação e um misticismo que muitas vezes se sensualiza. E temos, então, a sensualização do místico. Ou a espiritualização da sensualidade. Outra característica fundamental que encontro no livro O IGNORADO é a intenção inconsciente do poeta (ou consciente?) de fazer teologia moral, isto é, de condenar o erro e o pecado e proclamar a superioridade e a excelência do bem e da virtude. Trata-se, ainda aqui, de um moralismo místico, de um misticismo moralizante. Tudo impregnado, evidentemente, da mais bela e autêntica poesia. AM é um sacerdote desvairado de vários religiões. Seu moralismo místico é pagão, budista, muçulmano, cristão, pitagórico, aristotélico, platônico e judaico. Trata-se de uma verdadeira interpenetração de princípios morais revelados (cristão e judaicos), descobertos pela razão (aristotélicos, pitagóricos e platônicos) ou imaginados pela fantasia do poeta. E nos movemos, hipnotizados, nessa atmosfera de sonho e de fantasmagoria, de imprecações e de apelos, de revoltas e de resignações, tudo apresentado dentro de uma forma plástica de inegável beleza e de refinado bom gosto.

Sim, porque AM, não deixemos dúvidas sobre isso, é um dos melhores poetas de sua geração. Começa ele O IGNORADO afirmando um princípio totalmente anti-tomista: "Se o homem ama o que conhece/Amará muito mais aquilo que ignora". Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, afirma categoricamente que só podemos amar e adorar aquilo que conhecemos. O padre Antônio Vieira, tomista ortodoxo, não desconhece esse princípio e o introduz em seus sermões: "Quem ama, porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa, diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando, ofendeu, em rigor não é delinqüente; quem, ignorando, ama, em rigor não é amante". Mas AM coloca-se numa perspectiva poética, válida, e continua: "Ignorantes e perplexos estamos no rumo de suas moradas". Tal verso lembra-nos de imediato a famosa afirmação de Julien Green: "Chaque homme dans as mult s'en va vers sa lumière". Depois dessa introdução misteriosa começa o primeiro capítulo do livro, que trata de um enigmático duende de face incapturável que todos, inutilmente, desejam contemplar. Mas o duende não se deixa solucionar. Tem mil faces e sua mesma mutabilidade é a fonte do seu profundo enigma. O segundo capítulo fala sobre parentes, amigos, a encarnação, a graça. Encontramos aí versos belíssimos. Não resisto ao desejo de citar alguns referentes ao Amigo: "O Amigo será aquele que conseguir manter a chama de sua promessa sem se quebrantar e sem mostra-se fraco./O amigo sustentará minha mão para impedir minha fraqueza: porque para o amigo a pior coisa será explorar o que houver de fraco em minha natureza ou me conservar fraco para, dessa forma, me destruir". Perceba-se a utilização, pelo poeta, da maiúscula alegorizante, muito usada pelos simbolistas com a finalidade de hermetizar suas composições. O capítulo terceiro trata da mulher. Nele descobrimos tendências panteísticas no poeta: "O homem é Deus e Deus é o homem". Estaria, por acaso, AM referindo-se ao mistério da Encarnação? Em caso afirmativo a hipótese levantada sobre suas tendências panteísticas cairia por terra. Notamos, com a continuação da leitura, que a visão do poeta sobre a mulher é muçulmana, isto é, estreita, limitada, anti-cristã. Exemplo: "A mulher é aquela que não foge. O homem é aquele que não pára de afirmar". ...No outro polo do jogo, o Homem é o Senhor, a Mulher é Serva". Essa idéia de atribuir à mulher características passivas, imobilistas (a que não foge) e características servis é da mais pobre e lamentável tradição oriental, que tem em Khomeini seu mais vibrante defensor. A tradição cristã ocidental e o bom senso humano, no entanto, repudiam e repelem tal posicionamento, fruto do obscurantismo e da incultura. É no capítulo quarto que se revela o moralismo místico e teológico do poeta. Místico porque poético, isto é, a-lógico. Teológico porque racional, isto é, especulativo. Trata-se de uma discussão sobre o amor e o ódio.

AM é um sacerdote frustrado. Um padre de uma religião primitiva e bárbara, um monge tibetano do século XV. Seu discurso poético sobre o amor e o ódio lança fagulhas proféticas e nos queima como absinto. Mas de repente esse teólogo pagão muda de registro e nos oferece versos de autêntico sabor medieval, que parecem ter saído das páginas da Imitação de Cristo: "É santa a mão que crê e sustenta a outra que sucumbe na dúvida. Mas também é santa a mão que duvida, pois esta, talvez mais do que a outra, deseja crer. É santa a mão que aceita, mas também é santa aquela que rejeita. Porque quem rejeita quer receber de novo. E, sendo acima de tudo vidente, para além dos muros da vigília, a mão do amor não dorme". No capítulo quinto o moralismo místico de AM assume características preconceituosas, ligeiramente maniqueístas. Encontramos neste capítulo até mesmo um embrião de um conto policial que poderia muito bem ser explorado por AM. Trata-se do amigo que envenena o outro numa festa, depois das maiores demonstrações de amizade. O capítulo sexto continua o discurso poético moralista sobre o amor. Podemos, inclusive, relacionar os preceitos morais do poeta em ordem numérica sem sermos culpados de exagero. Exemplo: 1.) Quem não guarda a chama da sua alma prepara-se para a Segunda morte. 2.) Quem não for transpassado pela Estrela dos Magos, será precipitado no vazio. 3.) Quem não preservar o anel da fidelidade perderá em seu desencontro o sentido total de sua vida". E daí por diante. O capítulo sétimo é uma aula de estética dada de modo poético. Percebe-se claramente que o poeta assume atitudes dogmáticas, docentes: "Tríplice é a leitura: linear, inter-linear e abissal. A última desce às águas. Submerge. Batiza-se. Perde-se na densidade uterina das profundidades, com a qual se identificam sangue e espírito, para de lá trazer o anel ou a lâmpada". Em seguida o poeta nos "ensina", literalmente nos ensina, o que a arte é. Consegue organizar uma lista de vinte conceitos sobre a arte, os artistas, a criação, etc. Professor de Estética do Departamento de Filosofia da UFPE, AM não resistiu à tentação de falar sobre o seu assunto preferido. Talvez tenha exagerado um pouco em detrimento da poeticidade do texto, pois é dificílimo ministrar lições de arte poeticamente. Porém, seja como for, o texto conseguiu, de certo modo, conservar o nível de poeticidade dos capítulos anteriores. Cito, como exemplo, uma belíssima definição de arte ensinada pelo poeta e que merece ser considerada: "A arte, mais do que uma técnica, é uma astúcia armada contra a opacidade do mundo". O capítulo oitavo é uma apóstrofe veemente de um profeta desesperado e pessimista, convencido da degradação irreversível de todos os valores humanos. Mais uma vez surpreendemos o moralismo místico do poeta: colérico, intransigente, inflexível. Mais adiante há uma brusca descida do alto nível em que pairava o livro, quando o poeta alude a uma pena de cisne que deveria roçar os traseiros dos ímpios até fazê-los morrerem de rir. Tal alusão, perfeitamente dispensável, causa um certo mal-estar, principalmente quando sabemos que a poesia de AM normalmente é sisuda, concentrada e enérgica. Mas logo o poeta readquire a altura perdida, a seriedade momentaneamente esquecida e sua poesia volta a nos convencer. O poeta, então, tem uma repentina crise de grandeza, muito semelhante à dos românticos, e se proclama um eleito: "Há homens que vivem no medíocre como na mais plena das beatitudes. Eu não sou um desse homens. Anuncio que vislumbro um outro mundo - um mundo de lutas gloriosas e, por isso, de poesia e de música - que seja o extremo oposto do uivar sem esperança daqueles que renunciaram à saída por qualquer porta". Tal afirmação - "eu não sou um desses homens"- tem um sinistro precedente evangélico: "ego non sum sicut ceteri homines" ... Mas é claro que o poeta usou-a num sentido diverso daquele que foi condenado por Cristo. Ainda neste capítulo AM assume, momentaneamente, outra atitude pouco modesta quando, resoluto e impávido, corrige Nietzsche: "Já não é tempo de reis: o que hoje se chama povo já não merece rei", proclamou Nietzsche. Eu, porém, proclamo: crie-se, contra a falsa história e, principalmente, contra o falso homem por ela gerado, um tempo digno sobretudo de reis". Dizíamos, no início, que o livro de AM tem quinze capítulos. O espaço de que dispomos não nos permite comentá-los integralmente. Creio, no entanto, que as observações que aqui fizemos de modo breve e superficial, serão suficientes para dar uma visão razoável da obra. Outras observações podem ser feitas, igualmente pertinentes. Conclusões diferentes das nossas poderão, inclusive, ser tiradas, já que toda obra de arte, como afirmou Umberto Eco, é uma "opera aperta". Porém, mesmo que não aceitemos a opinião de que a poesia de AM é sibilina e espiritual; mesmo que rejeitemos a idéia de que suas composições têm uma tendência moralista e moralizante; enfim se não aceitarmos nenhuma das posições assumidas neste artigo sobre o livro O IGNORADO, pelo menos esta afirmação final dificilmente poderá ser contestada: a e que estamos diante de um dos mais fecundos e inspirados poetas que as letras pernambucanas produziram nos últimos tempos.

* PIRES FILHO, Ormindo. Ensaios de Crítica Literária. Editora Universitária da UFPE, Recife, 1992.

Autor: 
Ormindo Pires Filho

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.