Um Poeta em seus Mistérios Maiores

Talvez as constantes interrogações sejam o prenúncio de algo mais essencialmente recôndito, quando o poeta, cantor maior de suas intuições, vai se adentrando num recesso de mistéricas harmonias. Ou será tudo o aventurar-se por um longínquo denso de símbolos insondáveis? Porém pressentimos, a cada instante, que o poeta busca definir-nos algo altamente substancial, qualquer coisa de ainda virgem esclarecimento a um pórtico de beleza e profundidade mais enriquecido de substanciais conceitos: "Que fazer das alturas que inventamos,/se cedo ou tarde o céu há de tombar,/ despovoado de estrelas, sobre nós?/. Ângelo Monteiro é um predestinado da poesia, um desses seres humanos que, quanto mais tocados pela indizível magia, tanto mais conseguem comunicar-nos o puro e belo de seu riquíssimo mundo interior. Assim, vai se nos revelando em nível de uma densidade ou de um mistério mais plenamente ungidos de um puríssimo mediunismo. Pois que o poeta, sempre pleno em seu estranho domínio, cada vez mais se nos comunica como um ser de verdadeira eleição. Um ser absoluto em sua penetrante unção maior, como se refazendo a cada instante, mas sempre em sentido dum percuciente e encantatório esoterismo: "Em que deserto a lágrima invisível,/ só para não chorar, desencantou-se/e se perdeu, no seu pudor de nada?/ A bênção se negando de ser bênção,/ou mãos que as suas linhas inverteram/para precipitar os seus abismos?/ - Não podemos deixar de reconhecê-lo, pois Ângelo Monteiro, dotado dum incomum talento, está, a essa altura de seu destino, firme e consciente de suas concepções poéticas mais ousadas. E vamos, queiramos ou não, sendo arrebatados estranhamente para o recôndito maior de suas imagens mais carregadas de esplendor e de eternidade. Quando, por acaso, acontece de esquecermos que o poeta existe em sua totalidade, como se tudo não passasse de mera ilusão de nosso atônico espírito, eis que o mágico cantor, ressurgindo mais plenificado de seus misteriosos símbolos, nos desperta para uma realidade mais aberta e sublimada: "Os lábios verticais subindo em chamas/pelos flancos da espera, nessa busca/que vai além do dorso da agonia./Como será o ouvir de Deus ao torto/gemer da sombra?/Ó constelada espera,/onde ancoraste a anêmona dos lábios?"/ - Deste modo, portanto, comunicando-nos vigorosa e fundamente os rebentos poéticos mais sugestivos que são a síntese transfigurada de seus raros e abençoados delírios conceptuais. Pois, enquanto se penetra de fluidos os mais repassados de rara visualização, vai conquistando um espaço maior para a completa revelação de suas mensagens: "Quem saberá da dor que lhes foi sumo,/que neles se escorreu, por entre as ânsias/da noite que de estrelas os sangrou?"/ - Mas mensagens que, quanto mais vivenciadas à luz de um destino poético realmente raro, tanto mais nos deixam impregnados de uma força harmônica intensamente repassada de estranhas e fecundantes motivações. Ângelo Monteiro, que é também um ensaísta dos mais bem dotados, sempre profundo e seguro em seus múltiplos conceitos, vai se plenificando, como poeta de intensa intuição, num âmbito mais lúcido e percuciente dum conceber mais alto que bem poucos poderão atingir: "Sob os voláteis vínculos da noite,/mais que os do dia em nós: em seus oásis,/que deus cruzou de amor os nossos cílios?" - Para tal, justamente quanto ao que mais pensamos e sentimos ardentemente sobre o seu caso, dos mais autênticos e essenciais que acabamos de conhecer e desejamos aprofundar, reconhecemos que outros necessitavam ter um mesmo talento, uma mesma inteligência, sobretudo um mesmo dom revelador de tão original, fecundo e vigoroso poeta como é, sem dúvida, esse mais que misterioso e sugestivo Ângelo Monteiro! Assim, sempre intuitivo, o poeta prossegue em suas substanciais interrogações, como querendo captar, um tanto insanamente, a essência mais válida dos segredos maiores: "E aqueles dançarinos que despertos/dançam como num sonho, sem que o sonho/os leve na vertigem, além da dança?/As mãos dos dançarinos se selaram/sobre o campo de guerra que é seu baile,/e, na mútua espiral, qual seu repouso?" - Pois há, pelo que apreendemos mais intrinsecamente, um crescente ascender a um mundo mais vasto de visões imorredouras, com as quais provavelmente irá envolver-se, para poder, assim, conseguir traduzir-nos a exata plenitude de seu universo pensamental e sensitivo. E somos impulsionados, também, devido ao estro incontestavelmente forte do poeta, a esse mesmo imenso mundo de idéias e sentimentos os mais originalmente vivenciados; intensos e transfiguradores em sua dimensão mais humanamente intuída: "Que o verdadeiro sonho se adivinha,/ não a partir do que se sabe dele,/ mas sim do que escurece ao seu lembrar?" - Ângelo Monteiro, em que reconhecemos um incomum poder premonitório, vai, aos poucos, atingindo um plano de transcendências as mais indizíveis, pelas que nos comunica o melhor e mais genuíno de seu notável talento, especialmente comprovante de um artista e um pensador ao mesmo tempo, dotados de uma lucidez e de um equilíbrio realmente admiráveis. Assim, quando interroga magistralmente: "Ó Porta incomparável pra quem sonha/além do paraíso: por que as relvas/são mais verdes em ti do que na Vida?" - Ou quando, talvez ainda mais alumbrado em suas estonteantes e esclarecedoras indagações, assim pergunta, anelante e profundo em seu auscultar de sempre: "Como fugir à dor da transcendência,/se ela aferra na carne as suas âncoras,/tal se apenas a amasse por ser frágil? - Ou ainda, mais e melhor transfigurado em seus intentos miraculosos, para igual admiração de nós outros, em sua fecunda essência de estranhas perquirições: "Se o transitório é o tempo das raízes/fincadas sobre a carne pelo eterno,/por que ao seu sol o Corpo não se acende?" - Em verdade, não devemos aprofundar-nos nos vários caminhos de Ângelo Monteiro de outra forma, pois que seu próprio intuir muito além do apenas efêmero e inconsistente é um grande transmudar-se em si mesmo, no sentido de mais lucidamente nos indicar e definir outros tantos conceitos poéticos, só mesmo veridicamente apreendidos e elucidados a luz de nossa percepção cada vez maiormente desperta para as coisas de um significado vivencial vigorosamente humanizado: "Quem poderá prender o fluido e infindo/campo de ausência além dos nossos olhos,/seus carrosséis de dor em nós girando?" - Ou então, de igual modo e intensidade, bela e mistericamente, como sempre: "Por que não crescem flores no seu sono:/ - perfumando os umbrais pobres da noite/em que seus mantém-se prisioneira?" - É justamente em tais momentos que o poeta mergulha, aos poucos, num puríssimo ascender ao divino, também num como incrível aventurar-se por sendas amplamente indevassáveis onde, com certeza, encontrará um pórtico mais sublimado para o urgente concretizar de seus cânticos mais visceralmente consubstancializados da mais séria e fecundante poesia: "O Deus está adormecido/em ti mesmo, sem que o descobrisses./E muitos chegam ao fim do próprio drama/sem perceber que em sua vida trouxeram/o Deus adormecido." - Tanto que, intensificado em suas buscas mais magicamente preconcebidas, Ângelo Monteiro consegue perpetuar os seus estados poéticos mais grandemente recriados à força de sua esotérica e nobilíssima missão. Cada vez mais marcante em suas renovadas tentativas a um âmbito maior de vivências e visões, o poeta consegue plasmar-se em mais vertiginoso horizonte de claridade e harmonia incomuns, tão mais profundamente primaciais quão sabe ele intuir idéias e sutilezas a um só tempo prenhes de crescente mistério e vibrantes de redentora humanidade, quando assim se expressa: "Como se o tempo começasse e terminasse conosco,/além de todo senso de duração,/e aprisionássemos a eternidade em nossa carne,/nos seus próprios limite/que são a nossa moldura para o Eterno." - Ou ainda, quando talvez mais intensamente penetrado de verdade mais alta, de todo um sentido mais elevado de ser e de agir em face ao insondável, busca transmitir-nos um desejo veemente e visceral de tudo o que pressente e, com o pressenti-lo, procura exercitá-lo em suas mágicas formas de poeta e pensador: "Partir para o sublime percebendo que ele/não foi mais do que o anseio em nós mesmos gerado/e em nós mesmos perdido." - Foi o pouco, portanto, que conseguimos apreender do muito em pensar e sentir um tanto geniais que há em "O INQUISIDOR", e talvez melhor assim houvesse acontecido, pois seu universo poético continua, quanto nós, como inesgotável manancial de segredos e virtualidades que dificilmente serão devassados em definitivo.

* CAVALCANTE, José Montenegro. Os Possíveis Horizontes (Ensaios). Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 1987. 

Autor: 
José Montenegro Cavalcante

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.