De volta às origens

O poema de ÂNGELO MONTEIRO (n.1942, Alagoas) "Soneto IV" não se expande na atmosfera de transcendência, mas a fantasia originária do desejo de regressar ao útero materno se esconde no núcleo temático que rege a relação amorosa, toda ela construída pelo movimento de volta do eu poético à amada.

SONETO IV

Eu volto a ti, Amiga, como as águas há muito represadas sob a terra, percorrendo um caminho de palavras até chegar despido ao teu mistério

E do seu veio límpido e desperto hoje, por fim, que as trago libertadas, delas te oferto o seu cristal mais frágil e o musgo ainda colado às minhas vestes.

E volto a ti como se volta às fontes intocadas no tempo. Ou aos sacrários mais íntimos do sexo. Ou às mucosas

secretas de corola refratária. Volto lambendo as hastes do silêncio: tuas flores unindo às minhas águas.

A idealização da mulher, também aqui, é um artifício para ultrapassar o crivo da censura. O endeusamento da "Amiga", santificando o ato sexual, venceria o superego que nem se daria conta do incesto disfarçado. Na fantasia da produção literária, o desejo se realiza, da mesma forma que no sonho, sempre capaz de calar os agentes censores.

Esta volta à Amiga (etimologicamente, aquele que ama), imago nebulosa da mãe interna, atualiza mais uma vez o onipresente mito do eterno retorno das tradições religiosas arcaicas e das ditas civilizadas. Sabe-se que este pensamento mítico obsessivo - crença na bem-aventurança das origens, antes da atual condição humana de sofrimento, com a certeza do resgate da perdida situação fabulosa - foi detectada pela Psicanálise como integrante do aparelho psíquico e se encontra na literatura de todos os tempos.

O soneto de Ângelo Monteiro, inspirado nesta questão vital do ser humano, introduz, já na abertura, o eixo de sustentação do todo poemático, "Eu volto a ti", palavras que serão repetidas nos tercetos.

Anuncia-se uma volta, isto é, ação de voltar, dirigir-se ao ponto de onde se partiu, o lugar da separação. O "caminho de palavras" pertence ao mundo do dizível simbólico da realidade que nos enquadra e nos dá os nomes delimitadores do permitido. A Lei do Pai nos ensina esses nomes para demarcar nossos possíveis. A fim de apagar a separação e voltar, o eu poético precisa refazer o "caminho de palavras", até chegar ao sem palavras, ao indizível do "mistério" da Amiga.

O predomínio do elemento líquido impregnando o campo semântico instiga o direcionamento da interpretação. O voltar à Amiga "como as águas/há muito represadas" (1. estr.) e "por fim ... libertadas" (2. estr.) sugere o dinamismo do desejo recalcado do objeto investido libidinalmente.

As águas presentes nos dois quartetos metaforizam o procedimento ativo do princípio masculino (YANG), em tensão com a atitude passiva (leia-se receptiva) do princípio feminino (YING). No primeiro terceto, o movimento de volta das águas se expressa através do acesso às "fontes/intocadas no tempo", extensão líquida do "mistério" da Amiga, desdobrado nas metáforas que se seguem, "sacrários/mais íntimos do sexo", "mucosas/secretas de corola refratária".

O desembocar das águas libertadas nas fontes intocadas do tempo representa a fusão amante-amada, intensificada pela imagística do elemento líquido, onde se dissolvem os contornos da individualidade dos egos, constituídos somente após o corte separador operado pela castração.

O desejo de retorno ao ventre materno, proveniente da pulsão de morte, se pudesse ser obtido, resultaria na supressão da subjetividade, pois a condição para a existência do sujeito consiste na presença de um intervalo entre ele e os outros. No soneto, o eu poético almeja suprimir este intervalo, dissolvendo os limites dos corpos, a fim de chegar à própria aniquilação no seio da Amiga. Essa dissolução que aponta para o mergulho no indiferenciado dos primórdios conduz à ausência das demandas e dos desejos, caracterizada no Princípio de Nirvana. Eros e Tâmatos em ação. As imagens do primeiro terceto me parecem mais expressivas do que a explicitação do processo, no último verso, "tuas flores às minhas águas".

A riquíssima simbologia da água, sempre ligada ao feminino, neste soneto nos remete para o seu duplo sentido. Numa das várias versões do momento da criação, as águas se dividiram em superiores e inferiores, designando o masculino e o feminino e ainda o que se une. Do ponto de vista cosmogônico, a água que desce, a chuva, é a semente fecundadora da terra, união, sem esquecer que terra e água se associam na representação do feminino.

Dando prosseguimento aos desdobramentos do núcleo temático da volta à amada, perpassado pelo elemento líquido, vale fixar o registro de que a água traz implícita a noção dos primórdios, da origem e veículo da vida. A volta ou o retorno simboliza uma busca do centro, da origem, do Éden, de uma reintegração da manifestação no seu Princípio. Volta ao indiferenciado, ao embrião, à mãe, à matriz. Volta da multiplicidade à Unidade.

A protofantasia ou arquétipo do desejo de regressar ao útero materno com sua mesma estrutura do mito do eterno retorno, se reforça neste soneto pela presença da água, também símbolo do inconsciente coletivo e personalizado. As águas são o espelho, onde Narciso vê a própria face e, alienado do Outro, se faz 1 + 1 = 1, voltando à unidade. Negação da falta, plenitude enganosa, mas objeto do desejo de cada filho da separação castradora, sem a qual não é possível existir.

No soneto, o útero aparece nas imagens do "mistério" (1.estr.) das "fontes", do "sacrário" (3. estr.), da "corola", das "flores" (4. estr.). O decantado enigma da mulher, que Freud fez questão de não querer decifrar, permanece intransponível, apesar da chegada do eu poético ao mistério da Amiga. O mistério, impenetrável à razão, não se explica, é. O útero, a casa primordial, a origem do embrião e da vida, pertence ao mistério de um tempo sem tempo, mas que ficou inscrito indelevelmente nas profundezas do inconsciente individual e coletivo, conservando o vigor inaugural dos começos míticos: o insondável que integra nosso ser e se engrandece na figuração da volta às "fontes/intocadas no tempo". Fonte, lugar de origem que o tempo não tocou. No inconsciente tudo é agora e sempre e o desejo conhece a prontidão para reacender as luzes obscuras dos começos.

Os "sacrários/mais íntimos do sexo" (1.terceto) reafirmam o útero como espaço do sagrado, em tentativa para santificar o sexo e assim liberar o amor proibido do incesto antigo, do prazer imperecível de Narciso, quando consegue ver, no rosto da mulher, sua própria face. O sagrado expulsaria o medo do prazer, prazer mortífero e irresistível de voltar ao útero nirvânico da tumulação. Eros e Tâmatos, ida e volta, partida e eterno retorno no eterno círculo cíclico. Repetição compulsiva.

O útero se esconde ainda na "corola refratária" do último terceto, corola significando o conjunto de pétalas de uma flor, em que ressoa o diminutivo de coroa, corolla em latim. A coroa simboliza realeza, acesso a um nível superior, tentativa inconsciente de transpor a relação amorosa para um plano elevado e puro, reiterando a idéia do sagrado da estrofe anterior. No entanto, a corola é "refratária", ou seja, desviada de sua primitiva direção. Que direção? O particípio latino refractus, quebrado, do verbo refringo, designa também reprimir, conter. A "corola refratária" reprimia/reprime o mesmo desejo das águas antes represadas, que finalmente correm libertadas. A corola refratária, no final do soneto, se transforma em flores unidas às águas pelo desejo mesmo.

A flor (útero), por sua forma, é imagem do centro, um dos já vistos quatro símbolos fundamentais, lugar de onde parte o movimento do UM para a multiplicidade e onde se reúnem, como no princípio, todos os processos de retorno e convergência da busca de unidade. A flor (YIN), no soneto, receptáculo das águas masculinas (YANG), confirma a união e fusão na volta simbólica à totalidade una. Celebração da volta do eu à casa materna, reconstruída no narcisismo primário e abandonada com as imposições do princípio da realidade.

O desejo pela mãe perdida nas origens da completude fálica alimenta as alucinações de Narciso. O eu poético, imerso nas águas que reatualizam o líquido amniótico do útero paradisíaco, se reflete na face da Amiga, costura o vazio da falta e se vê inteiro e completo, UNO.

As situações que a criança vive revivem de algum modo na relação erótica, quando se torna possível restaurar a antiga completude, como na relação com a Amiga, "fonte" e "sacrário" das fantasias arcaicas. Aqui, o reencontro, a volta da experiência de satisfação dos inícios proporciona ao eu narcisado do soneto a ilusão de completude, graças ao poder da libido, que está sempre em busca de uma satisfação pulsional e investe os objetos capazes de substituir o objeto originário e aliviar a ferida narcísica.

Eu gostaria de resumir algumas outras observações em torno de outras imagens significativas que atravessam o texto. O terceiro verso da primeira estrofe, "percorrendo um caminho de palavras", alude à entrada do bebê no plano do simbólico, após a separação que operou o corte da relação especular imaginária. O caminho de palavras deve ser percorrido em sentido inverso, até atingir a fase pré-verbal da intensa relação filho-mãe, carregada de todo o mistério impossível de se deixar penetrar pelo plano do simbólico. Ali a palavra não entra. Mistério, o indizível do Real, aonde o eu poético chega "despido".

O último verso do primeiro quarteto, "até chegar despido ao teu mistério", sugere a interpretação de "despido" no sentido de despojado, libertado da Lei do Pai, posto de volta ao estado originário. Despido, para chegar ao ponto zero do desejo.

No segundo quarteto, o verso (das águas) "delas te oferto o seu cristal mais frágil" introduz uma ambigüidade, um paradoxo. No trajeto de volta ao plano do imaginário especular pré-verbal, estamos saindo do domínio repressor do plano do simbólico. O cristal, substância mineral sólida e dura, se fragiliza e desmancha, numa transparência da matéria que existe como se não existisse. É oferta e entrega em pleno reino da quietude indiferenciada, em que tudo é um.

O penúltimo verso, "Volto lambendo as hastes do silêncio", sinaliza para a regressão à fase oral, silêncio narcisado no primordial abraço dos braços-hastes de flor, volta à fusão com a mãe interna, unidade refeita, desejo de completude realizado nas fluidas imagens do sonho e do poema.

A volta à Amiga obedece ao impulso congregador de Eros e ao apelo à dissolução no zero nirvânico de Tânatos.

* CUNHA, Helena Parente. Mulheres Inventadas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.

Autor: 
Helena Parente Cunha

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