A Liturgia Profética do "Inquisidor"

Conhecer pessoalmente um poeta deveria ser uma vantagem para quem deseja interpretar e compreender sua poesia. Em se tratando de Ângelo Monteiro, porém, o inverso é que é verdadeiro. Ao sentido profundamente alegórico e ocultista dos seus "Temas sem Júbilo", acrescenta-se a não menos complexa, rica e misteriosa personalidade do seu autor, adensando as sombras nas quais ele, voluntariamente ou não, permanentemente habita. "Chaque homme dans as nuit s'en va vers sa lumière" dizia o admirável Julien Green. Esta sugestiva frase do torturado romancista francês, em cuja obra a angústia metafísica é uma constante, aplica-se admiravelmente ao poeta Ângelo Monteiro. Do interior da sua noite, na companhia dos seus demônios, o poeta arremessa contra a humanidade as suas interrogações, as suas interpelações e os seus dilemas íntimos que são, em última análise, os impasses em que se debatem todos os homens. Porém em nenhum dos "Temas sem Júbilo" podemos vislumbrar a mínima possibilidade de solução, de resposta, de saída para o drama em que o poeta e o mundo se encontram. Talvez a resposta esteja na segunda parte do livro, nas 13 Expectações que, semelhantes a uma salmodia litúrgica, introduzem um tom de esperança em todo o corpo da obra. Nas Expectações, o sibilino, o cabalístico que tinham sido a tônica dos Temas sem Júbilo cedem lugar a uma relativa claridade e introduzem o leitor numa atmosfera mais familiar, mais ocidental, mais cristã. Nos Temas sem Júbilo respiramos com dificuldade, oprime-nos uma ansiedade insubornável, sentimo-nos encurralados. As Expectações apontam-nos um caminho, insinuam uma próxima aurora:

"O cansaço era a única atmosfera
em que o meu corpo e a minha alma jaziam.
E eu não sabia o que fazer desse cansaço
até que me sobreveio um abalo
e a Voz me falou, clamando no seu fogo enigmático,
debatendo-se em meus ossos e animando minha esperança
que eu não sabia se existisse mais." ("Expectação" n.1)

A Voz a que se refere o poeta não é outra senão a voz de Deus, daquele Deus que o poeta consegue, enfim, descobrir dentro de si mesmo:

"O Deus está adormecido
em ti mesmo, sem que o descobrisses.
E muitos chegam ao fim do próprio drama
sem perceber que em sua vida trouxeram
o Deus adormecido." ("Expectação" n.3)

Finalmente o poeta parece encontrar a solução verdadeira, a resposta definitiva para todas as suas angústias:

"Entrega-te, ó vida, a esse Deus que sangra:
é preciso sangrares para que vivas, e te abras, ampla
rosa fundida ao sol da criação,
e dilacerada sob o punhal da morte." ("Expectação" n.9)

Como vemos, essa resposta é, como não poderia deixar de ser, uma resposta essencialmente cristã. O livro de Ângelo Monteiro parece encerrar uma grande unidade. Na primeira parte, nos "Temas sem Júbilo", vemos o ser humano debatendo-se à procura de uma explicação, de uma resposta para o sentido da vida. Na segunda parte, que traz o sugestivo título de EXPECTAÇÕES, percebemos que há uma atenuação da tensão poética e que o caráter místico-religioso dos poemas cresce consideravelmente. Nas três últimas Expectações dedicadas a Maria, a Mãe da Espera, a poesia de Ângelo Monteiro torna-se, realmente, uma Liturgia Poética e suas imagens atingem uma rara beleza. Semelhante a um Sacerdote, Ângelo conclui o seu livro com um sermão: o Sermão da Espera. Ouçamos a sua mensagem:

"Sede, além de esperançosos - expectantes, em permanente tensão de espera, ainda quando nada haja que esperar, mesmo depois de esgotadas todas as tentativas de espera, sendo preciso unirdes ao mesmo tempo a esperança e o desespero, numa única síntese expectante."

Como sabemos, as virtudes Teologais ocupam dentro da teologia cristã uma posição fundamental. No entanto muita ênfase foi dada à Fé e à Caridade. Inumeráveis livros foram escritos a respeito da natureza destas virtudes. A controvérsia entre teólogos protestantes e católicos sobre a salvação tinha como ponto de partida a pergunta-base: fé ou caridade? O padre Leonel Franca, um dos maiores jesuítas que o Brasil produziu, escreveu páginas memoráveis a respeito do assunto nas suas memoráveis polêmicas com o não menos brilhante teólogo protestante Eduardo Carlos Pereira. A Esperança, no entanto, era uma virtude inteiramente esquecida. Coube aos poetas reabilitar a Esperança. Talvez a voz mais eminente da poesia ocidental que tentou e conseguiu poetizar a esperança tenha sido o famoso CHARLES PEGUY. O modernismo brasileiro produziu alguns poetas de peso que, de igual modo, cantaram a esperança em versos candentes. Com este livro, Ângelo Monteiro entra, sem favor nenhum, para a categoria dos poetas cristãos, de que o Modernismo Brasileiro foi tão prolífico, produzindo nomes como Murilo Araújo, Tasso da Silveira e Augusto Frederico Schmidt.

* PIRES FILHO, Ormindo. O Social e Outros Ensaios. São Paulo: Quíron; Recife, Sec, 1976.

Autor: 
Ormindo Pires Filho

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