Uma Poesia acima do Consumismo

Entre as tendências da nova poesia brasileira, hoje tão diversas, talvez seja a vérsica de Ângelo Monteiro, ainda pouco conhecida, a que menos se acha influenciada pelo consumismo então reinante na literatura e nas artes. E disso, aliás, tem ele plena convicção: além de responsável pelo ensino da estética numa das três universidades pernambucanas, a UFPE, é um dos leitores mais atentos ao trânsito do livro, sobre o que se diz e se pensa ou se anota em torno do autor, examinando-os, quando ligados à poesia ou às disciplinas filosóficas, com uma paciência e uma tenacidade pouco comuns.

É que o poeta, nele, não se identifica e pulsa a partir da visão transitória do contexto sobre que vive e, sim, muito mais, de uma ordem interior que o leva a depender apenas do instante ou do estímulo, à intensificação do pensamento, em busca de proposições, ou, ao contrário, a exercitar a gama sensível em paralelo com as linhas possíveis de sua investigação intelectiva, de modo a nos oferecer uma poesia provida de carga filosófico-sugestiva ou de carga meramente sugestiva, mas ao nível de proposição de caráter filosófico.

Com isso ou por isso, Ângelo Monteiro claramente aparece no cenário da poesia pernambucana atual e, de pronto, se separa dos demais companheiros de geração, cada vez mais consumistas ou de olhos voltados para as diatribes do cotidiano e que, com raras exceções, não se apercebem de que o calendário é feito de um tempo antes e de um tempo depois, enquanto o homem, por sua vez, não é simples consumidor do cotidiano mas, antes de mais nada, da própria eternidade: para ele, o fruto mais desejado é o que consegue através de antecipações, ainda com o sabor de mistério.

Neste livro, pois, a imagem rara é substituída, quase sempre, pelo estado de perplexidade do ser ou pela sugestão misteriosa. Por igual, a cata do instante novo, ao invés de ser feita na observação do contexto, se realiza através do enfoque do ser diante da resistência que lhe é oposta pelo tempo/espaço: em Ângelo Monteiro, a poesia é a constatação, ou como diria Dias Paz, a consagração do instante em que o homem, força versus infinito, choca-se com as formas do transitório.

Cabe-nos esclarecer, agora, aquilo que na poesia de Ângelo Monteiro nos parece o mais importante: a sua vocação para o canto místico, hoje tão raro em nossa juventude. No entanto, para isso, exatamente isso, é que teria convergido o melhor das reservas do seu espírito, ao entregar-se ele, nesta época de violência mais que pagã e extremo consumismo, ao estudo de sistemas filosóficos, especialmente de quantos, a exemplo do tomismo, possam interessar a uma sensibilidade freqüentemente voltada para as relações entre o Homem e o Criador.

E, na verdade, talvez nesse aspecto da vérsica do jovem poeta, pelas características que apresenta, possamos identificar um dos pontos mais diferençados da poesia brasileira, hoje, em relação aos modelos do passado. Porque, de fato, o místico da poesia de Ângelo Monteiro não dispõe de antecedentes entre nós. Para lembrá-lo, e apenas pela altura do vôo e inegável autenticidade, nenhum outro nome divisamos, além do nosso Ittérbio, seu companheiro de geração e tão cedo desaparecido.

Lendo a obra poética de Ângelo, não podemos esquecer esta afirmação de Dámaso Alonso, com alusão a Fray Luis de Léon: "Bebia na Bíblia, em Platão, em Aristóteles, na Escolástica ..., e de cada sistema assimilava os elementos que se coadunam com sua fé. E conhecidas são as suas numerosas simbioses de platonismo e cristianismo. Tudo o que nessa massa indeterminada lhe fervia dentro do cérebro e do coração estava já resselado de cristianismo. Tão profundo e tão autêntico, que nem necessitava expressar-se discriminadamente como tal".

Recife/1983 

Autor: 
Audálio Alves

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