As Armadilhas da Luz

Entre as formas de expressão literária, a poesia tem o perfil mais enganador. Centrada em dois princípios constitutivos, ritmo ou simetria melódica (a dissonância inclusive), e condensação - o mínimo de palavras deve formular imagens precisas -, não é mais possível ler/fazer poesia desprezando estas bases essenciais. Ou, pelo menos, é impossível evitar a linha que leva Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Eliot e, mais recentemente Octávio Paz, a narrarem, com evidências, os difíceis exercícios destinados aos poetas, eles próprios integrantes de uma casta hoje cada vez mais rara. Sabemos, entretanto, que o rigor esposado por aqueles poetas-críticos não escapou de vingança. E ela chegou em diferentes levas. A moda Dadá contaminou o anti intelectualismo beat, chegou ao Brasil dos anos 70 na mão dos poetas marginais e acabou, de mão em mão, se transformando em coisa que todos podem fazer. Democratizada ao máximo, ficou complicado estabelecer padrões de qualidade entre os livros que aparecem, perecem, retornam.

Escrever poesia demanda, porém, um savoir-faire - isto os odiados novos críticos americanos anteciparam ao apontar, nas falácias afetiva e intencional, que os psicologismos do autor ou do leitor são cartas de condenação à arte de escrever poemas. Não evocamos aqui o verse-maker poundiano e por isto clássico, mas lembramos o quantum de crítica que ronda a mente de todo o poeta que pretende continuar a escrever "após os 25 anos de idade".

Aos 50 anos de idade - completados recentemente - Ângelo Monteiro parece compreender que um livro é um compromisso com o leitor virtual, com a complexidade do ofício. Sob o título de As Armadilhas da Luz (Imprensa Universitária/UFPE), Ângelo Monteiro nos oferece uma poesia com novos e inusitados conteúdos, com uma compreensão da existência, dos seres e das coisas colocada em um nível que só nesse autor - entre os da sua geração, por ele um mestre de Filosofia,- se manifestou e daqui deriva, exatamente, uma grandeza que tanto enaltece a poesia pernambucana dos nossos dias. Ao se por em ação, Monteiro optou por transformar sua visão filosófica das coisas e dos indivíduos em linguagem poética, em lugar de organizá-las em uma possível teoria. E tão ofuscante e veemente é a lucidez de sua poesia, que desconcerta freqüentemente seus leitores, podendo ser assimilada, inclusive, em sentido contrário ao de suas intenções. Isto se dá inevitavelmente com a grande Poesia, principalmente (como no caso do nosso poeta) quando há a intenção de denunciar a gravidade da condição humana, única realidade que, em Literatura, nos parece convincente, que é a impossibilidade de um conhecimento pleno.

* Marcus Prado é crítico e jornalista. Dirigia, na época, o "Panorama Literário" no Diário de Pernambuco. 

Autor: 
Marcus Prado

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