Espírito e Matéria

Há já um bom tempo que se pode observar uma forte aproximação entre o pintor Plínio Palhano e o poeta Ângelo Monteiro. Plínio fez um magnífico retrato do poeta e é um quadro seu que ilustra a capa do último livro de Ângelo , As Armadilhas da Luz, no qual há um poema dedicado, ou melhor, inspirado no pintor.

Mas não fica só neste nível o que poderíamos chamar de colaboração ou cumplicidade entre dois artistas que têm muita coisa em comum. A materialidade carregada dos quadros de Palhano, a luminosidade intensa, misteriosa e quase fantasmagórica que percorre seu trabalho, a pincelada nervosa e ampla, espatulada, gestual, também têm suas correspondências na poesia de Ângelo: uma poesia onde a condição humana é dominante, com seus conflitos e emoções, mas sob a luz fantástica de uma visão mística, através da qual a carne pode virar chama e pura espiritualidade; tudo isso através de uma linguagem arrebatada, contorcida em paradoxos.

Tal como Palhano - cujo único compromisso como artista é com a pintura, para além dos modismos -, Ângelo Monteiro tem-se destacado por sua postura, para além das facilidades pedestres por que muitos têm-se aventurado. Inconformista e independente, Ângelo filia-se à tradição. Já em seu primeiro livro, no início dos anos 70, num antimanifesto, proclamava: "Negamos compromisso com certas vanguardas, porque elas sempre existiram antes e existirão depois de nós. Mesmo porque, somos maiores que qualquer vanguarda. Somos os restauradores do cavalo de Tróia. Tende cuidado de nós".

* Marco Polo é poeta e jornalista. 

Autor: 
Marco Polo

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