Ângelo Monteiro, Inquisição do Inquisidor

Não poucos ficarão surpresos com o nome deste livro. Invocar a figura do Inquisidor como tema poético, numa época em que a permissividade é a regra, pode parecer abuso de mais um recalcitrante tirano. Entretanto, para quem se der ao trabalho de, por apenas um instante, refletir sobre o sentido da permissividade do Século XX, desfará este juízo superficial.

Qual o sentido dessa permissividade ? Eis o significado de todas as indagações do Inquisidor. Vive-se o tempo da aparência, em que, sob a desculpa de permissão, pensar sobre a ordem dos seres é proibido. É a tirania da aparência. O Inquisidor é uma poesia que, angustiadamente, rompe o silêncio da permissão e indaga dos seres o seu sentido.

Alguns poderão estranhar os rios de angústia que dessas páginas jorram. Mas, se por um pouco só, se puserem a pensar sobre o Mundo, a condição da raça Humana e seu próprio interior, verão que unicamente temas sem júbilo se lhes depara à imaginação. Que alegria restará quando, a título de Liberdade, ao poeta, ao cientista e ao homem das ruas é-lhes roubado o direito de indagar ?

Cantos, curvas e chãos plenos se acham da permissão, e a realidade se mostra turva. Uma pluralidade, quase infinita, de estilos conflitantes se arvora, num incontido ímpeto, como instauradora da Ordem, como definidora do Real. Todos, caoticamente todos, se julgam no direito de fazê-lo. Critérios, não os há. A qualidade sucumbe nervosamente à quantidade e até um rabisco de senão serve como critério, misturando o discernimento com o capricho.

O Ético e o Estético são espocados em desculpáveis plurais, como se, uma tocha pirotécnica, fossem. Tudo é válido, tudo é permitido, menos indagar sobre o sentido, a fonte e a oportunidade dessa validade e dessa permissão. Eis o espírito da contemporaneidade: tudo é válido, nada é proibido.

Quem, imerso neste pandemônio de possíveis, dotado de respeito e sensibilidade para com o real, de si próprio e do mundo, conseguirá ficar inerte e estátua ser ? Ninguém. Nem o artista, nem o cientista, nem o homem das ruas. Por mais ousadas as imagens do artista, por mais audaciosas as conclusões do cientista e por mais mirabolante o raciocínio do homem das ruas, todos eles sabem e querem o peixe a nadar nas águas, o sol a nascer no nascente e o homem a andar com os pés no chão. A reconstrução do real supõe a identidade com o real, pois do contrário seria falta. Reconstruir o real é, conseqüentemente, um ato contínuo a mover Arte, Ciência e Livre Pensamento na incessante busca do sentido dos seres: sua singularidade eterna e sua universalidade instantânea. Aquele, porém, que sendo artista, cientista ou simples e comum mortal, pretenda ver os seus sonhos acasalados com a realidade, em um vôo nupcial, experimentará a angústia por ver o céu encoberto de poluidora fumaça, truncando-lhe o olhar, e acabará, até mesmo, por duvidar da própria visão.

O Inquisidor, em seus "Temas Sem Júbilo", na ânsia da Verdade e na angústia da Beleza, lança-se contra o silêncio da permissividade e, mesmo de modo interrogativo, afirma a unidade do real, da Verdade e da Beleza. Vem em tom de rebeldia e até de violência, não pela crença do poeta na tirania, mas pela fé inabalável na coincidência da Beleza com a Justiça. A rebeldia angustiada de O Inquisidor, em seus "Temas Sem Júbilo", na ânsia da Verdade e na angústia da Beleza, lança-se contra o silêncio da permissividade e, mesmo de modo interrogativo, afirma a unidade do real, da Verdade e da Beleza. Vem em tom de rebeldia e até de violência, não pela crença do poeta na tirania, mas pela fé inabalável na coincidência da Beleza com a Justiça. A rebeldia angustiada de O Inquisidor é, conseqüentemente, uma proclamação sobre a identidade e a unicidade do Ético e do Estético. Crer na Beleza, para Ângelo Monteiro, é, simultaneamente, repudiar qualquer acepção que a tome no plural e advogar a união entre o Belo e o Justo, pois ambos são verdadeiros.

A poesia de Ângelo Monteiro, embora sempre tenha prezado o palpável, nas imagens e nas formas, tem cavado um túnel que vem da miragem à carne do poeta, - da Proclamação do Verde a O Inquisidor. Em suas miragens, quer cantando o verde, quer louvando santidades, o poeta se esconde num esfumaçado véu, sem contudo, descarnado, deixar de mostrar-se, ao fundo. Nestes "Temas Sem Júbilo", porém, ainda que não sejam vistos, - a sua face, o seu corpo angustiado e o seu espírito sedento de Beleza se fazem presentes, em cada poema. A paixão que queima o peito do poeta, às vezes camuflada, arde a cada verso. A passagem do louvor à carne, na poesia de Ângelo Monteiro, revela conseqüentemente, através da angústia de O Inquisidor, sua cosmovisão e seu espírito. Um espírito que, mesmo no esforço para negar, é heideggerianamente atraído pela morte, pela angústia.

Que sentido haverá em um inquisidor ? A Retidão ? Sim, mas a retidão angustiada da Morte. O Inquisidor, seja ele o personagem terrificante da História, seja o sujeito cognocescente, ético e estético dos dias atuais, é sempre um ser convulsivamente em cinzas. Um homem que vê tudo, tudo sente e tudo indaga: o seu caminho, o seu rotiro, o seu ser. Queima-se na Angústia pelo sentido e na Paixão pela Verdade; embebe-se de Morte, por amor à Vida.

Não existe, pois, neste livro, apologia ou repúdio a movimentos históricos inquisitoriais. Há o canto de um poeta que, angustiado por ver o seu tempo, seu mundo e seu próprio ser, turvos de sentido, de Verdade e de Beleza, inquiri-os radical e apaixonadamente, ao mesmo tempo em que inquire a si próprio. É essa Paixão que faz do poeta um Inquisidor, e que transforma sua alma numa andarilha dos caminhos entre a Taverna e o Monastério; e que, sobretudo, o impele para a busca da Beleza e da Verdade, em seus Absolutos e de forma radical. É possível que erre, ao escolher o roteiro. Ele próprio o sabe e nisto reside sua angústia maior. Mas a paixão pela Beleza e pela Verdade é tão intensa e radical em Ângelo Monteiro que, se por acaso, ao final, se achar em erro, Satã se envergonhará dele. Mas acertando, seu canto apaixonado atingirá a Beleza, a Verdade e a Justiça. E a Santidade o reverenciará.

* Roberto Aguiar é sociólogo, professor universitário e escritor. 

Autor: 
Roberto Aguiar

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