O Exílio de Babel ou A Crise da Linguagem

 

"Garcilaso escreveu apenas trinta e o
oito sonetos. Mas quem pôde tomar
na própria Espanha, tão pródiga em
poetas de gênio, o lugar até hoje
ocupado por Garcilaso ?"

César Leal

Introduzido na Inglaterra por Spencer e Sidney, na Espanha por Garcilaso e em Portugal por Sá de Miranda, é a partir da Vita Nuova de Dante que o soneto se aperfeiçoa em ritmo, técnica e temática, contando sem dúvida com a influência de Cavalcanti e Guinizelli, mas com uma fluidez tão plena de vida que o coloca acima dos seus dois mestres iniciais. Passado o século XIII, Francesco Petrarca assume a condição de alquimista maior dessa forma literária que rapidamente se impõe a toda Europa durante três séculos, até a revolução realizada por Gôngora em fins do século XVI. As matrizes do "dolce stil nuovo" italiano, encontradas desde Platão, em "Fedro" e no "Banquete", transitando pelo ascetismo da Idade Média até Plotino, em seu ideário de amor ligado à Beleza e Verdade Absoluta, adesão mística, valor ético, alameda para a divindade até a eclosão estética do paganismo renascentista propriamente dito, essas matrizes tiveram no soneto seu instrumento inconfundível, perene e inesquecível.

Foi Wordsworth quem afirmara ter sido com os "Sonetos" que Shakespeare nos abriu a chave do seu coração. De fato, Petrarca estendia seu domínio poético a todas as cortes; a imitação da antigüidade pagã assegurava indubitavelmente o êxito ao movimento renascentista italiano, e o autor de "Romeu e Julieta" por certo que cedeu ao fascínio geral, o que se evidencia não apenas nos "Sonetos" como em seus dois poemas "Venus e Adonis" e "A Violação de Lucrécia". À doçura petrarqueana vai se contrapor a garra shakespeareana e, no que concerne à literatura de língua portuguesa, foi Sá de Miranda quem, estando na Itália no período de 1521 a 1526, importou um estilo que seria levado a extraordinárias conseqüências por Luís de Camões, o qual foi precursor do espanhol Luís de Gôngora, que haveria, pela efervescência do barroco, de romper essas bases italianas do soneto, dando-lhe um maior colorido, movimento e continuidade. É a "bofetada" no clássico consagrado, a substituição da clareza e serenidade pelo contraste e pelo elemento lúdico, a dramaticidade e a tensão, em características de impulso agônico, colocadas em uma tela em que imperava a harmonia, o requinte e a entronização apolínea do sublime.

Se o barroco, em seu organismo, sensorial, visual e persuasivo, é uma descoberta dos povos do Oriente pelos portugueses - donde há quem o considere herdeiro do manuelismo português - a realidade é que, menos que uma erupção inusitada de reminiscências do mundo celta, ele corresponde de modo espiritual e histórico à descoberta de novos mundos, ao impacto desnorteante dos povos racionais com o primitivismo mágico daqueles ainda não catalogados pelos funcionários da civilização. É o barroco, portanto, uma arte que suscita, de imediato, a liberação da sensibilidade de qualquer ordenação.

Ora Ângelo Monteiro, com quem certa vez obtive a confirmação do pressentimento de que, muitas vezes, os Dante, Shakespeare e Petrarca que parecem dormir em nossas prateleiras, podem ser muito mais instigantes e até mesmo mais vivos, no sentido da totalidade, do que alguns seres humanos aparentemente vivos que encontramos no cotidiano, por certo comunga da opinião de Octavio Paz, que já tivemos oportunidade de referir em estudos sobre Carlos Pena Filho, de que o nosso século parece ser um retorno, por vias insuspeitadas, a categorias relegadas desde o término do Renascimento. De fato, essa necessidade de algo que, na modernidade, tenha características de ressuscitar esteticamente, eticamente, filosoficamente, valores que o fragmentarismo da atualidade está quase conseguindo destruir, esse retorno à fonte primordial do homem não poderia escapar à sensibilidade daquele que, mais que um caçador de nuvens, vem fazendo a permanente inquisição, o incessante questionamento da sociedade e de si mesmo.

"O sol é velho e novo a cada dia" - este verso de Shakespeare parece nortear a produção poética de Ângelo Monteiro, que, imune à Grande Babel da Modernidade, atravessa, contudo, como Dante no Inferno, os seus porões tumultuados, para denunciar, de modo lapidar e histórico, a crise da linguagem entre as máscaras mortuárias da razão. E "O Exílio de Babel", título de extrema felicidade para este livro, vem mostrar a Poesia do exílio do homem, o deserto pessoal na estratificação social, a linguagem como ausência de comunicação, palavras como cadeias destituídas de sentido.

As palavras mantêm-nos seus cativos
mas o sentido delas se evolou
e a Torre de Babel não desabou
nem fez-nos dessa queda redivivos.
...................................................
Babel, grande Babel, de eternos estertore
alta Torre a perder-se em céus ora minados
oremos pelas tuas e pelas nossas dores
nós produtos de ti perdidos e falhados.
...................................................
Ah, o exílio da alma em qualquer língua
e a palavra atingida sempre aquém
as bocas de água viva estão à míngua
e a poesia não morre por ninguém.
...................................................
Como um mendigo a se cobrir de chagas
a porta de uma casa dividida
mas acima das bênçãos e das pragas
assim te espero, ó Chama, em minha vida.

É nessa atmosfera de expectação agônica e dolorida, traspassada de ternura, que o poeta tece a urdidura confessional do livro. Como se chamado ao Grande Depoimento no tribunal da existência, a exemplo de Shakespeare, que dispensava para os seus versos qualquer ornato novo, Ângelo Monteiro também nos entrega, com este livro de sonetos, as chaves do seu coração. Se a sua técnica de construção formal não se caracteriza pela olimpíada infatigável das inovações lingüísticas, funciona, contudo, como parâmetro estético que não se compromete, a exemplo do que ocorreu no passado com o concretismo. Com essa tão proclamada descontinuidade entre o velho e o novo. Ângelo Monteiro não confunde progresso científico com evolução do lirismo, não toma modismo como modernidade, e consciente de que o suporte da criação é simultaneamente sub e supra-racional, jamais reduz seu talento à noção burocratizante tão em voga hoje em dia de poeta como ferreiro ou trabalhador braçal, pois pertence àquela visionária legião dos que sentem a Poesia como dom, e nunca como uma mera instituição de contexto mercantil a serviço da pragmática.

A exemplo de Empédocles, Ângelo Monteiro tudo arrisca, jogando suas sandálias na boca do vulcão; como Plínio, o Velho, não hesita em se acercar de qualquer Vesúvio, na obsessão de ver mais de perto a rotação íntima das chamas. Longe de confundir Poesia com propaganda, e verso com slogan, percebe que a Arte pode ser, sobretudo, Ocultação. Que a rede do enigma é habitualmente a expressão única da comunicação. Daí não transformar as palavras em utensílios de cozinha, mas em flores sensitivas nas varandas da paixão. Sabe que a palavra é uma vara mágica, um sésamo indizível no mutante labirinto da ilusão. A Poesia é a sua Casa e Viagem, sono e explosão.

A primeira parte do livro, metrificada, rimada e musical, barroca, quase coloquial, em seu conjunto forma o livro de sonetos, em que fica revitalizada essa forma basilar da poesia ocidental. Logo a seguir surgem os "Hinos da Descoberta", em que tomando por lastro essa poesia já desenvolvida pelos românticos alemães, Ângelo Monteiro adentra na atmosfera mística que lhe é peculiar, como o fora a Novalis, por exemplo: degraus da ascese ao pacto inquebrantável com o Absoluto. Então, o tom confessional e dramático do "Exílio de Babel" inusitadamente se transfigura, se evola, torna-se de uma fluidez etérea apenas encontrada na poesia de traço ibérico, em poetas como Tereza d'Ávila e São João da Cruz:

Minha visão de Jesus
a mim mesmo me faz ver:
nos seus olhos tanta luz
e nas mãos tanto querer.
.....................................
Que ele me pegue e me leve
que ele me leve e me traga
meu amor é sua febre
seu amor é minha chaga.
.....................................
Minha chaga ardente e louca
tão louca que o faz girar
sobre a cruz de minha boca
sem nela nunca expirar.

Ainda nas "Visões", terceira e última parte do livro, é uma luz imemorial e metafísica, bíblica e apocalíptica que encerra, como um círculo escatológico o trânsito do homem sobre a terra:

Não escapará nem o triângulo de Pitágoras
da grande enxúndia a enovelar as formas
entre os gases de um dilúvio
a ameaçar o tempo
comprometendo a própria Eternidade.

Recife/1990 

Autor: 
Lucila Nogueira

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