A Lírica Pernambucana entre o Profano e o Sagrado: Ângelo Monteiro e Alberto da Cunha Melo

Pernambuco é atualmente o estado onde se reúne o maior número de poetas no Brasil. Como um dos centros culturais do país, Pernambuco estabeleceu sua tradição literária ao longo de sua história, desde os tempos remotos de sua colonização. Todavia foi só no final do século XIX, que a literatura pernambucana veio ocupar lugar de destaque no cenário nacional, quando Recife vai se tornar um dos pólos de irradiação e convergência culturais, berço e morada de intelectuais e artistas.

Atualmente não há como não notar que esta tradição literária se estabeleceu de forma ostensiva principalmente na produção lírica. Sem querer desmerecer os outros gêneros, como a ficção narrativa, onde se destacam nomes como Raimundo Carrero e Gilvan Lemos, a lírica pernambucana é o que há de mais notável em termos de qualidade e diversidade. Resistindo aos iconoclasmos modernos, a lírica pernambucana emerge como portadora de uma mensagem extremamente elaborada e se impõe na sua diversidade polifônica como uma voz lusófona que dialoga com seu tempo. Recife, a capital de Pernambuco, é hoje uma cidade de poetas, não há uma estatística precisa, mas é notório o fervilhar de vozes e versos. Poderia citar umas dezenas de nomes que hoje produzem poesia lírica em Pernambuco, uma lista em que constariam nomes de poetas consagrados como Marcus Accioly, Lucila Nogueira, César Leal e nomes desconhecidos de poetas inéditos, como Ericson Luna.

A poesia lírica e a narrativa ficcional são os dois gêneros que resistem heroicamente ao desgaste sofrido pela Literatura; foram os gêneros que se firmaram e que hoje dão sustentação às instituições literárias no mundo contemporâneo e Pernambuco se faz representar de maneira significativa, principalmente na lírica. Nesta lusografia despretenciosa fazemos a leitura de versos de dois poetas que talvez possam dar uma idéia da amplitude do trabalho poético em Pernambuco: Ângelo Monteiro e Alberto da Cunha Melo.

Para fazer as nossas observações tentaremos nos situar numa certa teoria pragmática do gênero lírico . De uma maneira geral o gênero lírico é portador de uma enunciação que tem grande força expressiva e apresenta certa complexidade, notadamente no que diz respeito ao estatuto do sujeito enunciador. A mensagem lírica é sugerida por uma forma particularizada de ver o mundo real, onde a vida do autor se confunde com a vida do texto. Como observa Dominique Maingueneau "a vida do escritor está à sombra da escrita, mas a escrita é uma forma de vida. O escritor "vive" entre aspas a partir do momento em que sua vida é dilacerada pela exigência de criar, em que o espelho já se encontra na existência que deve refletir". Este reflexo é uma apresentação intimista do mundo real com suas instâncias e contingências refletidas no espelho do texto. O poeta lírico concentra a sua força criadora nesta forma inusitada de lidar com o mundo real. Sua atitude ao tentar apresentar o mundo real, através de um modo próprio de usar a linguagem pode ser compreendida como um mero depoimento pessoal sobre a realidade, mas pode ser vista também como um artifício genérico onde ele é uma espécie de coringa que se insinua através dos versos substituindo e personalizando as cartas do jogo, ou melhor os elementos do discurso. A nosso ver o poeta lírico cria uma voz gerada no âmago do seu ser para se fixar no texto e se transformar em elemento do discurso; é assim, a nosso ver, que se fundamenta a arte lírica. Esta voz é enunciada por um sujeito poético que toma a palavra no lugar do poeta, sujeito empírico, para co-enunciar com o leitor. Francisco Soares nos adverte que " nós estudiosos de factos literários, apenas admitimos que na obra se cria o criador, alheando-nos do estudo da gênese mental do texto, que não estamos habilitados a definir ou desenhar." Como artista do verbo o poeta lírico tem a seu dispor ele mesmo, é a partir da intimidade psicológica do próprio poeta que se produz este sujeito poético, "enunciador" desta voz perenemente fixada no texto. Mesmo marcada pelo distanciamento de sua origem biológica a voz lírica carrega seus indícios bio/gráficos: está voz pode apresentar situações dramatizadas confundidas com os dramas pessoais do seu criador...

Neste sentido, sua vida interior vai se expor mesmo quando o artifício da criação do sujeito poético é eficaz. É dentro desse complexo vertiginoso que localizamos Ângelo Monteiro e Alberto da Cunha Melo. De um lado Ângelo Monteiro reestrurando dramaticamente a palavra sagrada, sacerdotal e do outro Alberto da Cunha Melo construindo o verbo dessacralizado e colocando sobre suas ruínas a palavra poética mundanizada. Duas almas que se equiparam na profundidade de suas paixões, mas que se distinguem na significação que dão às suas líricas.

Alberto da Cunha Melo por muitas vezes foi rotulado de poeta do quotidiano. Na nota do livro Poemas Anteriores, obra que vamos analisar, ele mesmo escreve na Nota do Autor que seus poemas são "de sabor simbolista e universo vocabular paradoxalmente coloquial/quotidiano" Ora, devemos notar que isto a que chama sabor simbolista pode ser uma pista para entender que sua lírica faz da quotidianidade um momento supremo e ritualizado, que vai ser artisticamente trabalhado. É aí que atestamos seu coloquialismo paradoxal, ou melhor dizendo, o paradoxo entre o simbólico e o coloquial, pois através dessa palavra ritualizada é possível identificar um sujeito sublimado em seu íntimo isolamento, como podemos ler em "Um Cartão de Visita": "Moro tão longe que as serpentes,/ morrem no meio do caminho". Neste poema o sujeito confirma o seu lugar discursivo, e este lugar que se concretiza no texto simboliza uma forma de se situar no mundo real, num lugar paratópico . É neste poema que vemos formulado o convite ao leitor, o poeta apresenta seu cartão de visitas. As palavras que nomeiam objetos concretos formam um conjunto de imagens marcado por verdadeiro simbolismo. Em "Hebdomadário" é estabelecida a ligação do lirismo à quotidianidade: o quotidiano aqui apresentado não tem a efemeridade do carpe diem horaciano; apresenta-se como um tempo agonizante simbolizado como um monstro devorador: e o monstro do quotidiano/ nos cerca nas esquinas/...

Ao criar tal sujeito discursivo, inserido num tempo angustiante, Alberto da Cunha Melo prepara o ambiente para engajar sua lírica numa luta simbólica contra esse tempo. Neste embate vão ser ressaltados vários paradoxos: a estupidez e o bom senso em: Velhos Soldados da Reserva; a ânsia e a serenidade, em Provisões; o delírio e a lucidez em Segundo Dia de Carnaval; o sagrado e o profano em Primeiro Selo do Apocalipse.

A voz lírica também faz ressaltar: o mal gosto e o tédio das cenas quotidianas: Vitrina; a violência do mundo mecanizado: Metralhadora Thompson ou Morte "T"; a ausência divina: Coletivo Suburbano; a inexorabilidade da rotina: De Volta à Rotina, a impossibilidade de ser feliz; Relógio de Ponto; espaços sócio-geográficos conflituosos em Mesopotâmia; heroísmos inúteis em Martim Luther King. Apresenta ainda releituras alegorizadas, uma espécie de erudição necessária a quem se dar ao trabalho de escrever versos, revelando inusitado intertexto: Relendo Camões. Este complexo de imagens verbais Alberto da Cunha Melo coloca magistralmente na moldura rítmica de seus versos octossílabos organizados sistematicamente em cinco estrofes de quatro versos brancos. A forma fixa é mantida ainda no longo poema intitulado: Oração Pelo Poema, mas o materialismo simbólico vai dar lugar a uma metafísica do poema, ou melhor dizendo, a uma metapoética. Agora há um elemento a mais que se contrapõe ao tempo angustiante: não há apenas a voz de um sujeito poético armado contra o tempo, há um sujeito que agora escreve assumindo outro estado; sua poética não só nomeia os objetos conotando-os simbolicamente, agora sua lírica vai se firmar na palavra sagrada Senhor, que vai repetir o paradoxo que temos descrito. Seria interessante conferir estes versos: "Viver na mesma posição/ mas deixando a alma sair/pelos olhos e pela boca, /como a água a jorrar de uma estátua./ Este é o tempo em que deus regressa/ pelos quatro cantos da casa./ Vem desterrar o poema/ do meu corpo e gritar comigo./ Recebe-o diante do espanto/ dos amigos que não o vêem,/ tenho gestos incompreensíveis/ e digo coisas já remotas/ Senhor protege meu poema/ e obscurece com tua sombra/ os versos mortos, as palavras/ que sobram, o tempo perdido/. Como podemos conferir, o sujeito poético não sai do seu lugar discursivo, mas sua matéria agora é outra. Como sugere o título, trata-se de uma oração evocando o "Senhor" a quem se dirige em tom de súplica. Esta oração revela uma outra voz. A lírica profana se reveste de um tom litúrgico; criam-se enunciados típicos da oração religiosa, mas se trata de uma reza carregada de simbolismo, a palavra é motivada em todos os aspectos da lírica: o estético, o ético e o estilístico.

O livro de Ângelo Monteiro que tomamos para análise é O Exílio de Babel. Livro dividido em três partes: uma constituída por Sonetos, outra composta por Hinos e outra intitulada "As Visões" .

A voz que se apresenta nesses versos está exilada em seu infortúnio. Não vemos mais o sujeito sublimado buscando uma interlocução paradoxal com o mundo real imediato que vimos em Alberto, em Ângelo Monteiro ouvimos uma voz a interrogar e a demandar a palavra sagrada de forma que muitos o rotulam de Barroco. Não há imprecisão neste rótulo, pois a herança ibérica e a luta retórica e mística dos jesuítas contra o racionalismo reformista parecem constituir um dos seus intertextos. Todavia ao fazermos a leitura da lírica desse controvertido poeta e ao tentar evidenciar o caráter enunciativo de seus versos, observamos que os elementos estéticos, estilísticos e éticos ultrapassam o mero barroquismo.

É certo que a luta, que o sujeito poético trava com o mundo contemporâneo banalizado, vulgarizado e dominado pelas forças de certo mal demoníaco, aparece em primeiro plano. Já em O exílio da alma em qualquer língua percebemos o sujeito angustiado exilado numa qualquer língua. Eis o lugar discursivo, barrocamente prosopopaico, irrevelável aos sentidos humanos, que contraditoriamente retém em si próprio a vitalidade dessa qualquer língua. Neste soneto está sintetizado o esquema enunciativo: - o espaço oximórico : "floresce o nada em todos os canteiros"; o tempo abstrato: "tombam de solidão negros ponteiros/ a apontarem um tempo que não vem"; o leitor/interlocutor desavisado: "dos que te querem clara, e te irrevelas/ àquele que teu fogo em si retém."; e um poeta enunciador exilado em sua língua.

No restante dos sonetos, essa língua indecifrável e enigmática só permite um acesso a imagens motivadas por si mesmas, porque são portadoras de um significado muito além de sua funcionalidade. Partindo do princípio de que as coisas sagradas tem um significado para além de sua aparência, podemos ler a lírica de Ângelo Monteiro como um chamado em busca desse além. Seu simbolismo, diferentemente do que vimos em Alberto da Cunha Melo, não se acopla paradoxalmente ao coloquialismo, vai em busca do inefável; sua contradição consiste em dizer o que é indizível, em ver o invisível, em ouvir o inaudível. Nesse sentido em seu lirismo a deixis é diluída; o aqui e agora, que em Alberto da Cunha Melo faz funcionar todo sistema de referência , transforma-se num além sem tempo em Ângelo Monteiro e gera um sistema de conceitos. O primeiro verso de alguns sonetos podem exemplificar isto. No Soneto II: "Em nosso sol se instala o inimigo"; no IV: "A solidão o centro fortalece'; no XII: "As coisas que criei, todas partidas"; no XVIII: "A busca não se adia seja a busca ansiosa.", observe-se a abundância de nomes abstratos como inimigo, solidão, busca, e o teor conceptual de nomes concretos como sol, centro, coisas.

Na segunda parte do seu livro nos deparamos com uma mensagem de fé,devoção e amor cristãos, formulada em versos mais singelos do que os decassílabos dos sonetos, mas não menos imaginativos. Nestes versos o sujeito poético não se aprofunda em si mesmo; agora ele sai de cena para dar lugar a um contexto situacional diferente: o contexto da prece ou da reza. Então poderíamos indagar: não se trata mais de um sujeito lírico? Acreditamos que o sujeito lírico vai se deixar consumir por esse novo contexto situacional; sua voz vai se fundir a voz coletiva da pura devoção religiosa. No Hino II nós lemos: "Que paixão tão verde se evade/ Dessa voz que o Amor transfigura/Após morrer, e o ouvido invade/ Do poeta que em verso o escritura". Os hinos, de uma maneira geral, podem até ser lidos em salões mundanos, mas alguns se adequariam mais aos templos e às igrejas: no Hino IV o sujeito se torna objeto do amor de Jesus: "Meu amor é sua febre/Meu amor é minha chaga". A Virgem também surge como interlocutora, num discurso que é indiscutivelmente uma oração religiosa, no Hino V: "Ó Virgem que, na procura,/ Tanto perdi sem te ver" Nesta parte, portanto, o lirismo Angeliano exalta o sagrado, revela uma paixão explícita pelos sacramentos cristãos e expressa uma devoção religiosa apaixonada.

Todavia apesar da sinceridade do poeta, ao criar um sujeito lírico tão devoto, não deixamos de antever certa ironia. Ironia esta que aparece mais nitidamente na terceira parte do seu livro. Em Canção de Busca nota-se uma mudança de tom, os símbolos soam com certa perversão, um flagrante hibridismo é descoberto em versos como: "meu sexo fremente /a procurar tua alma". Em Breve podemos ler: "Ai parcas da morte mansa!/ é mais manso o próprio amor:/ Não a mansidão que cansa/ Mas o cálice de ardor". Em Didática do Instante : "Eu que perdi a noite/ e não achei o dia/ sou cúmplice do nada/ sua sombra tardia"; em O Evangelho e o Alcorão a ironia se torna mais crua. "Deus é tão simples/ Porque Ele ama a tudo que criou./ Entretanto se procura o amor nas estruturas/ Inconcretas do concreto esvaziado das coisas/ E o Homem se esvazia e Deus se esvai". Agora leiamos um de seus Hinos, o Hino I:

 

Para o pacto feito
As mãos são frágeis
Mas o fogo perfeito
As tornou ágeis.
E essas mãos se encontrarão
Enfim na altura
Quando os sinos vibrarão
Música pura.

Depois do pacto das mãos
Virá o rapto do corpo
E também da alma.
Quando jubilosos rostos
Em acesa calma
Nas sombras forem caminhos
E nos caminhos escadas.

Pois se o pacto durará
De quatro mãos em chamas,
Como então cessar o rapto
Em seu êxtase, em seu drama
De escalada sem trégua,
Na posse do Amor que ama ?

Entre o pacto e o rapto
Se dobrarão os lençóis das noites
E os areais do dia
Para o que chegará, mas já chegou:
A estrela da Alegria.

Com esta breve leitura desses dois autores pernambucanos, que aqui coincidentemente se encontram, tentamos demonstrar um pouco da diversidade da poesia pernambucana contemporânea. Nosso interesse foi de inserir esses dois autores no sistema de vasos comunicantes das lusografias. O emprego de rótulos como sagrado e profano tem aqui um caráter didático, sabedores que somos de que uma produção literária de peso está longe de se reduzir a qualquer tipo de abordagem, seja ela de cunho acadêmico ou não.

* Alexandre Maia é professor de Literatura Latina na Universidade Federal de Pernambuco.

Texto apresentado no dia 05 de novembro de 2000 no III Seminário de Lusografias, realizado na Universidade de Évora, Portugal. 

Autor: 
Alexandre Maia

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