Um ousado Caçador de Nuvens

O Caderno de Poesia, série Geração 65, número 4, publicado em Recife pela Fundarpe, abre uma via de acesso à poesia de Ângelo Monteiro. Pequena mostra, o caderno seleciona textos do seu primeiro livro, Proclamação do Verde (1969), passando pelos intermediários Didática da Esfinge (1971), Armorial de um Caçador de Nuvens (1971), O Inquisidor (1975), O Rapto da Noite ou o Sol como Medida (1983), O Exílio de Babel (1990) até o último, As Armadilhas da Luz (1992).

Não há dúvida: a formação filosófica marca seguramente o tecido poético na lírica do autor pernambucano (culturalmente pernambucano, pois, segundo o critério geográfico, o poeta é de Alagoas, da cidade de Penedo). Marca-o, porém, não o elide enquanto linguagem especificamente estruturada com base nos recursos expressivos da mais legítima poeticidade. Tem-se, assim, não um discurso poético a serviço de um ideário filosófico, mas um discurso poético onde o saber filosófico permeia sua densidade, espraiando-se unitariamente pelas cadências do ritmo e pela arquitetura plural das imagens.

Nesse sentido, a poesia de Ângelo Monteiro se configura mais que uma "estética da palavra", mais que palavra sensível, na medida em que, vistos os seus alicerces filosóficos, se transmuta numa estética do pensamento, materializada, a seu turno, numa maneira bem particular de apalpar o mundo, quer seja sob a ingerência de uma visão metafísica, quer seja sob a perspectiva do olhar religioso.

Diferente, portanto, de muitos de sua geração, Ângelo se mostra infenso aos temas regionais e cotidianos, preferindo, a seu modo inquisidor ou mesmo de ousado caçador de nuvens, tocar os motivos universais, os motivos permanentes que atravessam a tradição da lírica ocidental, a saber: a solidão humana, a sensação do perdido, do irrealizado, a agonia interior, os conflitos, os desejos e tudo o mais que pode migrar da perplexidade e do absurdo humanos. Tal preocupação se entrevê, mesmo no início, quando o geometrismo da forma cabralina dispunha as regras do jogo vérsico, bem típico de sua geração, para se acentuar sobretudo a partir de O Inquisidor. Está lá, em A Proclamação do Verde:

 

E há fome mais exigente
do que essa fome inventada
pela crueldade inocente
do sonho da coisa amada ?

Ou ainda neste outro passo:

 

Dessa luz que é nosso dentro
projetado para fora
como um deus que libertamos
porque dentro nos devora.

Como se pode observar, o metro em redondilha abriga uma temática que remete para as tensões da subjetividade, ora nos limites da ambivalência da fome, ora no sofrimento da angústia religiosa.

A propósito, a angústia religiosa, talvez mais metafísica, vem se corporificando em Didática da Esfinge, sobretudo num poema como Ode Sacrifical, e mesmo em Armorial de um Caçador de Nuvens, em especial num texto como Caçador de outra Raça, modelando-se, em definitivo, em O Inquisidor, quando o eu lírico indaga: "A dupla é mais terrível quando baila,/Ou quando silencia sobre o enfado,/De todas as antigas fantasias ?", ou neste momento da Expectação n.7 Pacto:

 

Não adianta poupar-nos:
seria poupar-nos do mistério único que somos
e se irradia, a despeito do controle de nós mesmos.
Só temos de forte a nossa fidelidade
- escudo contra todo transitório -
é ela que ilumina a nossa carne
ordenando o absurdo que habita conosco
e que, ao mesmo tempo, nos salva e nos destrói.

Depois desse instante, na lírica de Ângelo Monteiro, o que vem é confirmação de verdade e beleza, traduzida num código em que as ambigüidades do pensamento e os contrastes da sensibilidade conformam a elaboração do poético. As obras que se seguem tendem, a meu ver, a verticalizar essa visão onde desespero e desencanto atravessam o rio da mensagem sem conotá-la, contudo, de mágoa e de amargura. Na seqüência, o poeta vai falar do "bordado da dor", das "possíveis perversões como a ternura", do "exílio da alma em qualquer língua", para fechar com este dístico emblemático de um poema de As Armadilhas da Luz:

 

Meu astrolábio é o ser em agonia
E meu porto é além de todo cais.

Fôssemos estabelecer comparações, diríamos que Ângelo Monteiro é figura isolada no quadro atual da poesia pernambucana. A sua dicção, tanto pelos elementos técnico expressivos como pelas implicações temáticas, se aproxima muito mais de um Jorge de Lima, por exemplo, embora sem o compacto surreal de certas passagens do autor de Invenção de Orfeu, do que de qualquer companheiro da chamada Geração 65. Este isolamento, diga-se de passagem, em nada compromete a sua poesia. Ao contrário: torna-a distinta e a essencializa ...

* O NORTE, 27/10/1999, João Pessoa - PB 

Autor: 
Hildeberto Barbosa Filho

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