Caçador de Nuvens

A figura é chapliniana: só faltando o chapéu e a bengalinha. Veste-se, quase sempre, de preto. Sente-se que é um homem de luto, noturno. A sua aparência denota desprezo por alfaiates, barbeiros e dentistas. Não é um elegante de exterioridades. O seu garbo é o do espírito, como diria o Cyrano de Bergerac. Elegante, elegantíssimo, por dentro. Da linhagem dos santos, artistas, missionários, cruzados e guerreiros. Dos que acreditam que os mágicos possuirão a terra. Explica-se: "porque os mágicos são os apaixonados. E só os apaixonados merecem crédito". Assim é Ângelo Monteiro, um dos poucos homens, no Recife, com a coragem de ser inteligentemente ridículo. Trata-se de um príncipe louco, com desprezo pelos "cadáveres adiados que procriam". Apalpador de sonhos, sentindo as pulsações do inexistente, navegante de um mar de símbolos sem conta, filho órfão de Nietzsche e Santa Tereza. Católico heráldico, com alguma coisa de grego e de homem da Renascença, agoniado pelas idéias de grandeza e contestação do Assim Falava Zarathustra. Pertence mais à nobreza católica do que à linhagem despojada de S. Francisco de Assis. Thomas Mann, falando de Nietzsche, diz que a vida do filósofo alemão foi embriaguez e dor - uma combinação altamente artística; em termos mitológicos, a união de Dionisos com o Crucificado. Ângelo Monteiro é, para usar a expressão lorqueana, poeta de nascimento e sem poder remediar. Situa-se na chamada geração 65. Geração que parece que vai descontar as promissórias atrasadas do movimento literário pernambucano. É um grupo que não pode falhar: Ângelo Monteiro, Gladstone V. Belo, Jaci Bezerra, Tereza Tenório de Albuquerque, Maximiano Campos, Alberto Cunha Melo, José Mário Rodrigues, Arnaldo Tobias, Sérgio Moacir de Albuquerque, Tarcísio Meira César, Janice Japiassú, José Carlos Targino, Marcus Accioly, Raimundo Carrero e José Rodrigues de Paiva.

Armorial de um Caçador de Nuvens, de Ângelo Monteiro, um dos últimos lançamentos da Imprensa Universitária, no ano passado, é livro de poeta já maduro, de altos sonhos. Os estandartes de sua poesia já começam a incomodar muita gente. Procura a verdade sem acreditar muito nela ("César com o coração de Cristo"). Transfigura a vida mediante a poesia, a partir de um caos sem sentido, denotando refinamento, habilidade e sentido musical. Louve-se, em alguns poemas, o trabalho secreto para a descoberta da essencial função reveladora da linguagem. Há versos de grandes claridades e profundas angústias. Às vezes, assemelha-se a um amante desesperado ferindo o que ama, sobretudo a si próprio.

Acredito que Ângelo Monteiro, com o talento que possui, fuja o mais breve possível de certos exageros retóricos tão comuns à poesia brasileira, da atração por um esteticismo decadente, ligando-se mais ao cotidiano, ao momento presente, ao nervo e ao sangue da vida. As imagens não devem surgir de um esforço retórico, mas de método próprio, particular, expressivo de sua cultura e de sua época.

* CARNEIRO CAMPOS, Renato. SEMPRE AOS DOMINGOS. Editora Massangana, Recife, 1984. 

Autor: 
Renato Carneiro Campos

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