A Poesia Neo-barroca de Ângelo Monteiro

A nenhum historiador ou crítico da Literatura Brasileira contemporânea deve ser perdoado o esquecimento da obra de Ângelo Monteiro. Sua poesia - já imortalizada em tantos livros - tem na raridade o seu maior emblema e o seu maior desafio. Destinada à Humanidade, confina-se, paradoxalmente, no seleto círculo que a torna uma poesia para poetas ou, no mínimo, para aqueles que, nos tempos sombrios em que vivemos, não perderam a sensibilidade profunda para o mito e a mística. Porque para Ângelo Monteiro, descendente direto de Jorge de Lima (seu conterrâneo de nascimento), interessa, sobretudo, o apelo do Eterno, do Absoluto, do Deus Oculto, da Cruz retraduzida em cada ser humano.

Profeta, Visionário, alguém investido pela semântica divina para redimir o homem da transitoriedade - eis o Poeta para este filósofo de formação e, como Fernando Pessoa, "indisciplinador de almas" por natureza. Sua família artística - como se observa ao longo de seus livros - é a dos barrocos, dos românticos, dos simbolistas, daqueles para quem o sabor do mistério é o sabor da própria vida, para quem os conflitos e os enigmas - longe de serem obstáculos - são estímulos aos saltos estéticos e filosóficos.

"Filho órfão de Nietzsche e de Santa Tereza" - na definição precisa e metafórica do cronista Renato Carneiro Campos - Ângelo herda do primeiro a inquietação que busca uma reordenação dos valores e da metafísica; da segunda, a mística com que parece banhar todos os seus versos mais profundos; de ambos, o estigma do sangue que se sublima, da carne que se transforma em espírito.... No fundo, é também a ressurgência da angústia de Pascal, mas angústia já impregnada de um luminoso halo de certeza, fé em valores, que, antes de qualquer transcendência, justificam a própria existência do Poeta. E a existência do poeta é a encruzilhada por excelência, uma cruz que magnificada no Cristo, é a um só tempo morte e ressurreição.

Com Ângelo Monteiro estamos em pleno domínio do Barroco. Sua poesia - mais cristocêntrica do que propriamente cristã - é um constante e espiralado volver-se da circunstância ao símbolo, da encarnação ao espírito, da brevidade da vigília ao sonho do Eterno. O que conta é o "ser em agonia", "o sentido dos contrários". A poesia angeliana é um longo e flamejante paradoxo, pleno daquele fogo purificador dos antigos profetas. Não é à toa que o discursivo e o imagístico se alternam no seu estilo. O discursivo, presente, sobretudo, quando o verso se alonga em reflexão metafísica; o imagístico aflorando na criatividade metafórica do autor, permitindo-lhe uma concisão que não exclui o reverberar de palavras-chave que aqui e ali vão configurando as suas obsessões.

O Barroco, em Ângelo Monteiro, renasce também na religiosidade, no acento claramente místico de sua poética. Mas, tal religiosidade - dentro da melhor tradição ibérica, sobretudo hispânica - não é algo descarnado e abstrato, antes se apresenta sob o manto estético de imagens fortes e sensuais, algo assim como a luz que se desprende do fogo ou como o ardor que transpassa um beijo. Sua religiosidade jamais é ortodoxa e dogmática: para Ângelo Monteiro ela é quase um outro nome da Poesia, um meio de visibilizar o transcendente na esfera humana. Por isso, sem o mínimo de transcendência, é difícil ler-se este poeta. Sua legibilidade passa necessariamente pelo simbólico. Por isso e só por isso o poeta ultrapassa o cristão e o esteta supera o moralista. Ainda que, eventualmente, discordemos do cristào e do moralista, não resistimos ao apelo do simbólico e, mais que simbólico, mítico, desta poesia grave, consoladora e profundamente humana.

Para exemplificar o que dissemos, basta que o leitor se detenha nos poemas mais explicitamente místico-religiosos do presente livro, a exemplo de A Redenção do Sangue (cujo terceto final é bem ilustrativo: "Este sangue que é Teu, mas que nos doas,/Que é Teu mas a vida e morte nos revela,/Que primeiro nos marca e após coroa"), de Meditação Sobre as Duas Bandeiras (onde encontramos o emblemático verso: "O céu vive em pleno inferno"), e de Aceso Pentecostes (onde a estrofe inicial fala por si mesma: "Aceso Pentecostes: fogo e lágrima/Liberdade e fulgor dos céus eternos/Sobre ocasos em pó e vôos cativos/Sobre todos os mortos ainda vivos.")

O próprio título da obra é veladamente barroco como insinua o verso do não por acaso primeiro poema do livro - Oferenda: "Atrás mesmo da luz abrigam-se armadilhas/Nunca o temor se afasta do mais claro dia." Versos que, acima de tudo, apontam para a vigília de um poeta atento à condição humana. Na antítese desesperada, existe a esperança de uma suprema oferenda, pois "o coração nos morre, mas conquista." O idealismo, portanto, surgindo paradoxalmente na sua pragmática existencial, nessa conquista permanente que é o próprio objetivo de todas as oferendas, inclusive as do artista.

De sabor barroco também é a nem sempre discreta inflexão pessimista deste livro. Por si mesmos, alguns títulos exprimem uma tendência lucidamente amarga: As Dores da Espera, Pátria Longe, A Perversa Geografia do Mundo, A Mão Perdida Cresce, Eu Cresço Junto à Sombra, Elegia da Paz Celestial, A Gaivota Morta, A Tarde do Mundo, Vínculos Partidos. Sem se falar no título da obra, cuja presença semântica - como convém num livro bem pensado - é dominante sobre todos os poemas. Os signos da decadência - quer da miséria humana sub specie aeternitatis, quer de uma cultura voltada para o mais rasteiro materialismo, com sua nova barbárie e seu desequilíbrio sócio-econômico - são as verdadeiras armadilhas para a luz entrevista e anunciada pelo poeta.

Dentre os poemas que, latu sensu, podemos, neste livro, rotular de elegíacos, um, mais que todos, parece-nos mais expressivo, mais acabado e mais original. Trata-se de A Tarde do Mundo, cujo tom lamentoso e incisivo se irmana a uma fluência peculiar. Com efeito, é concisa e cerrada a expressão poemática; o recurso anafórico apontando para a polissemia do signo emblemático da tarde, signo que, à evidência do declínio, vai somando, tal num verdadeiro ocaso, os matizes de uma degradação desoladora. De resto, o poema brilha pela simplicidade, pela coloquialidade confessional que, como se vê, está muito além do puro confessionalismo romântico. É o nosso mundo finissecular que cabe nesta tarde; é o nosso eu que se presentifica no eu lírico do poema; é o vazio ou, antes, o esvaziar-se da própria indiferença; é o ápice da insignificação, da ausência de ser... Este é um poema da angústia do ser que se sabe subtraído até mesmo em face da própria perplexidade de existir; sua tensão semântica vem do próprio esforço da linguagem em se superar a si mesma na ânsia dolorida de ser. A tarde, a "postiça tarde" é um por assim dizer acúmulo de não-ser, elidindo a esperança, a vida e a morte, coroando um "tempo inteiramente cego" em que nada mais se espera. Mais que uma elegia, o poema é um epitáfio terrível, onde cada palavra está precisamente cravada - não só pelo domínio dos jogos linguístico-retóricos, mas também pelo que subterraneamente acende o fogo do poema: a revolta do poeta que, diante da perdição, pronuncia, com a majestade dos voluntariososos e dos eleitos, a sentença de compromisso com o ser ameaçado: "Tarde que eu nego."

O que nos parece inarredavelmente válido é que, neste livro, Ângelo Monteiro, sempre atento e fiel à sua vocação, mais uma vez afronta a inércia de nossos espíritos: com sal, com fogo, com a vertigem de sua palavra mitopoética. 

Autor: 
Paulo Gustavo

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