Sobre "O Conhecimento do Poético em Jorge de Lima"

Prefaciar um livro pode ser falar de seu autor ou de seu conteúdo, detendo-se sobre eles ou introduzindo digressões mais ou menos cabíveis. Mas quando se trata de um livro sobre determinada figura, o prefaciador hesita entre referir-se ao autor e aludir à figura. Ao hesitar, optamos no caso por ambas as coisas: o fenômeno Jorge de Lima e o trabalho de Ângelo Monteiro.

Jorge de Lima: a poesia brasileira do século XX, o modernismo e o regionalismo, o mundo de padrões e imagens que veio do simbolismo e do surrealismo europeus e se estendeu até a chamada "geração 45" no Brasil. Descobrimento da palavra, sofisticação conceitual e ao mesmo tempo novos filões de metáforas e de temas. No Brasil, menos ocupado naquelas décadas do que o México com a filosofia da história, o afazer literário se ampliou extraordianariamente a partir do "modernismo"; não tanto, talvez, por obra deste propriamente mas por conta de fatores diversos.

Erudito e múltiplo, pessoal e universal, original e modelar, Jorge de Lima ostentou a pluralidade que vez por outra aparece em certos homens de gênio: ficcionista, ensaísta, pintor, poeta sobretudo. Lembro-me de seus quadros nas paredes do consultório de Matheos de Lima, seu irmão e também grande poeta, de cuja amizade privei.

Pessoal e universal, disse. Recordo que Cioran, em uma das páginas de seu livro Exercício de Admiração, disse que Borges tinha sido destinado, forçado à universalidade. Para o escritor rumeno isto provinha do disponível vazio latino americano, diferente da "esclerosante" sobrecarga cultural européia. Mas não: o bias europeu do próprio Cioran, "vendo", na América Latina um néant cultural, fazia da criatividade uma função deste. Não, e na verdade o toque universal de uma obra não corresponde a este tipo de condicionamento. Por isso podemos dizer que a universalidade de Jorge de Lima não teve o que ver - ao menos diretamente - com sua passagem por Maceió, sua condição de nordestino, sua dimensão de brasileiro. E sim com a objetivação de sua inequívoca genialidade, expressada em uma obra onde temas e formas evoluem, crescem e permanecem como coisas vivas. Só que no caso do nosso poeta tem faltado maior constância por parte da crítica, maior divulgação e maior quantidade de estudos sobre sua obra, à volta da qual um estranho silêncio parece vir-se formando. Este assunto, aliás, foi ventilado por César Leal, no admirável estudo que dedicou ao poeta da "Invenção do Orfeu".

Para César Leal, a criatividade de de Jorge de Lima não tinha limites. E não tinha mesmo: o limite que teve foi o da morte, que o levou aos cinqüenta e tantos anos, quando ainda certamente muito produziria. Uma criatividade realmente maior, imensamente superior à de tantos que andam por aí consagrados como poetas por conta de conventículos. Foi Jorge de Lima um poeta de larguíssimo espírito, comparável aos maiores de todos os tempos.

E com este feitio, com esta grandeza o encontramos no ensaio de Ângelo Monteiro, do qual passamos finalmente a tratar. Com este ensaio vemos que teria de caber a um poeta de enorme sensibilidade o estudo aprofundado da obra de Jorge de Lima. E talvez o conhecimento pessoal de Ângelo Monteiro seja necessário para avaliar por inteiro o peso de seu trabalho: o conhecimento pessoal de um escritor a um tempo generoso e crítico, informado e imaginativo, conceituador e intuitivo. A impressionante segurança com que Ângelo Monteiro utiliza os conceitos e conduz as análises é o perfeito complemento do permanente bom gosto com que seleciona as referências.

Lembrei-me de Ion de Platão quando li que o poeta "só existe no êxtase". Ângelo Monteiro sabe disso através de Jorge de Lima e fora de Jorge de Lima; mas sabe também, certamente, que o trabalho do poeta é o de tornar expressivo o êxtase, comunicá-lo: e aí se acha o "conhecimento do poético".

Os esquemas expositivos de Ângelo Monteiro partem da observação segundo a qual a poesia, para Jorge de Lima, "é sobretudo a presença dos archés". Daí seu ponto de base ser a alusão aos arquétipos e aos mitos; daí adotar a tese de que a poética do mestre alagoano consiste sempre em "tentar uma nova gênese". Misticismo e religiosidade, dimensão metafísica, componentes simbólicos, tudo isto revela na poesia de Jorge de Lima a força da vinculação às origens. É esta vinculação que alimenta o poder verbal do poeta, sua enorme energia alegorizante, e é dessa força interior e primigênia que se irradiam as expressividades específicas, presentes em poemas de diferente índole.

Mas presentes sobretudo na obra maior, na Invenção de Orfeu, inclusive no canto chamado "Permanência de Inês" onde se acha recriado o episódio de Inês de Castro, recriando com sutis sopros de lirismo com poderoso talento verbal. Aí o poeta vai além daquela relação direta indicada por seu intérprete ("renovação da realidade operada pelo canto"), chegando a renovar também o próprio canto, isto é, os cantos historicamente dados e secularmente consagrados.

Não creio que se possa escrever sobre Jorge de Lima páginas mais sugestivas do que estas, que me alegra prefaciar, apresentando-as como quem convida o leitor a tomar o livro com dois sentimentos aparentemente inconjugáveis: o deleite e o respeito.

Recife, outubro de 1980 

Autor: 
Nelson Saldanha

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