Ângelo Monteiro e os Sentimentos da Filosofia

Autor de notável obra poética, na qual se deixa exibir uma sensibilidade em que a estrofe é o veículo de sua abstração artística, Ângelo Monteiro, desta vez como prosador, recolhe, contempla e ausculta os sentimentos da filosofia. Certo de que o poeta e o filósofo utilizam a frase à falta de frase melhor (sendo esta a ressalva que acompanha o acontecer da criação) a expressão “sentimentos da filosofia” seria, a rigor, a adequada para qualificar os conteúdos da reflexão filosófica. A expressão “o sentir do filósofo” em vez de “o pensar do filósofo” com naturalidade recai nos escritores de sistema, notadamente nos selecionados por Ângelo Monteiro, ao cuidar do universo da teoria da arte. Com efeito, não se pode banir da categoria de arte ideal a estruturação anímica, a visão pessoal e substanciadora inseridas nos sistemas filosóficos.

Quero aludir à aptidão de Ângelo Monteiro para a assimilação das grandes filosofias, absorvendo-as como se elas fossem familiares, tal a consagüinidade entre ele, profundo poeta, e a criatividade dos clássicos pensadores. Um parentesco que permite ao leitor a oportunidade de, sabedor da intuição fundamental do filósofo, indagar o motivo por que determinado elemento não se inseriu no elaborado sistema. Por exemplo: a razão da ausência de visão artística na Ética de Spinoza, que foi contemporâneo e conterrâneo de uma pintura das mais relevantes da História da arte. Responder-se-ia que somente o criador da obra está habilitado a incluir e excluir, segundo a exigência do pensamento fundamentador. O filósofo reserva para si a faculdade de selecionador de sua ideação, de estendê-la consoante uma necessidade que lhe é exclusiva, a ele, o criador da obra.

Atendendo ao fato de que a produção artística se opera sobre dados que assumem nova significação no ato de se inscreverem no seio do sistema, cabe a reflexão acerca da consciência do autor no tocante à existência dessa mesma significação. Tem acontecido que alguns criadores compuseram a sua criação sem sequer suspeitarem da grandeza, da originalidade, da força íntima de sua metafísica.

Tomando a estética na posição central de sua perspectiva filosófica, Ângelo Monteiro se dedica a um temário que talvez seja o mais delicado e fascinante no corpo do sistema filosófico. As considerações tratadas por ele a propósito de Kant e de Hegel, principalmente este último, expõem, afora a clareza verbal, a clareza da aproximação intelectual entre ele, o escritor desta obra, e aqueles filósofos. Não se ingressa tão vivamente na área de um pensador sem a influência paralela de uma simpatia que facilita e apressa a assimilação da obra.

Enquanto o estudioso não descobre o pensamento gerador e unificador do filósofo, ele não se satisfaz em ser apenas um anunciador de atributos, de conceitos, de noções de uma composição que é acima de tudo orgânica. O comentador tem, em si, a urgência de encontrar o cerne que assegura a significação unitária de todos os atributos, conceitos e noções. Uma filosofia que não abrange, dentro de si, todos aqueles componentes não se alteia ao título de sistema filosófico. Às vezes, quer por não possuir o cerne universalizador, quer por ocultá-lo demasiadamente, dá-se a frustração de a obra se reduzir a uma feição apenas filosofal.

Apesar de Bertrand Russel afirmar que Hegel é o mais difícil dos grandes filósofos, Ângelo Monteiro desvenda o seu ângulo estético com nitidez imediata, em assimilação no curso da qual a contradição inexiste, estimulado pela circunstância mesma de o legítimo filósofo ser aquele que não se contradiz.

Ângelo Monteiro, por vocação e estudos, mostra que o fenômeno artístico ocupa o lugar primeiro na consideração do sistema filosófico. Trata-se realmente da porta mais larga e convidativa, onde realça a literatura em sua ampla idealidade, quando os estorvos da comunicação se diluem ou desaparecem. A receptividade crítica do autor se positiva com raro poder de observação e de discernimento, uma receptividade incomum, não fora a sua predileta afeição pela poesia que sempre comparece ao ato de estésica contemplação.

Na História da Filosofia não seria excessiva a informação acerca de sistemas filosóficos em que a estética não se apresenta, tendo sido marginalizada ou suprimida. Então, resta apenas ao leitor o ensejo de imaginar que acepção estética o filósofo configuraria ao lado dos formadores de seu sistema. Admitiria, no caso, a hipótese de uma estética subentendida. Tal não se verifica em Schopenhauer, um dos maiores construtores de sistema. Ele nos legou, em grau de explícita certeza, a preocupação liminar pelo fenômeno artístico, insistindo em situá-lo como inerente ao cerne unificador – a vontade -, havendo formalizado uma teoria da arquitetura que corresponde perfeitamente aos ditames de sua metafísica. Aliás, com respeito às conseqüências de sua teoria, firma-se um singular procedimento: a sua teoria do equilíbrio entre o peso e o sustentáculo, de cunho meramente ótico, pode valer também dissociada do sistema a que pertence, catalogando-se com outras teorias, desprovidas de sentido filosófico. Cumprindo-se o valor da consagração estética, é preferível guardar a teoria em permanente aliança com o sistema no qual se originou.

O sistema filosófico, inteligentemente perfilado por Ângelo Monteiro em várias ocasiões de seu ensaio, é sempre o detentor de uma ideação ubíqua. Em outras palavras, quero dizer que paira em todos os componentes do sistema, por mínimos que sejam, o prospecto do pensamento gerador e harmonizador. Essas considerações me parecem oportunas e se inspiraram neste livro de Ângelo Monteiro, livro indispensável para a assimilação da filosofia e da artisticidade dos filósofos.

* Evaldo Coutinho é filósofo, autor da “Ordem Fisionômica” (em 5 volumes) e outros livros em que aborda a estética do cinema e da arquitetura. 

Autor: 
Evaldo Coutinho

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