ÂNGELO MONTEIRO - ENSAÍSTA

Nada de estranho, evidentemente, no fato de um poeta, um genuíno poeta, ser também (também no sentido de: igualmente) um excelente prosador. Ou vice-versa. Um poeta pode ser muito pouco prosador, ou canhestro prosador; pode entretanto ser um prosador de verdade, e bastaria citar um Borges ou Otávio Paz, ou mais um monte de exemplos.

Lembro-me, há bastante tempo, e nem o conhecia pessoalmente (ou muito pouco), de artigos de Ângelo Monteiro publicados se não me engano em um jornal da Universidade. Eram textos inquietos e inquietantes com certo tom nietzschiano, irreverentes e questionadores, discutindo valores assentes com um certo prazer de espadachim. Lia aqueles textos sem situar bem a imagem do autor: ora me parecia um místico exigente, ora um conservador desconcertante, mas não acomodado nem vulgar. Depois conheci melhor as opiniões políticas do jovem articulista, menos conservadoras do que pareciam, mas sempre exigentes e nada demagógicas.

Quero registrar aqui também seus artigos mais extensos, e destaco dois ensaios de relevo: um sobre "Tobias Barreto Pensador Político" e outro sobre Unamuno.

Ao estudar Tobias Barreto, Ângelo Monteiro toma como ponto de partida "Discurso em Mangas de Camisa", destacando de dentro do denso e anguloso trabalho de Tobias os aspectos mais agudamente críticos. Não passou despercebido ao nosso ensaísta o fato de que em Tobias Barreto não eram relevantes apenas o élan polêmico e a erudição bibliográfica, mas também o senso crítico, a lucidez que o fazia descobrir na realidade nacional determinados traços e determinadas características. Deste modo o artigo destaca, no Tobias observador político, um crítico dos vícios brasileiros, um implacável crítico que era ao mesmo tempo um analista objetivo.

O ensaio sobre Unamuno, que foi escrito como conferência proferida no Centro de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, se revela talvez mais crispado, e simultaneamente mais dentro de uma identificação com o tema: eis que em Unamuno Ângelo Monteiro encontra um pensador "agônico", vertical e exigente, "seco de carnes" mas rico de idéias. Neste admirável ensaio, que é um estudo sobre o Quixote tanto quanto sobre Unamuno, temos colocações pessoais e sugestivas, algumas inclusive filosoficamente valiosas, como a que fala no problema da criação, em Unamuno e no Quixote: a criação diante do problema da ação e das limitações da razão.

Concluo esta nota com uma referência ao que talvez seja, por enquanto, o ensaio maior de Ângelo Monteiro: seu livro - originariamente tese universitária - sobre Jorge de Lima. O grandíssimo poeta alagoano, gênio maior do modernismo brasileiro, visto por Ângelo Monteiro nos fundamentos de sua poesia, ou seja, nos arquétipos. O livro, complexo mas coerente, vai ao fundo do tema. Por uma destas coisas de nossa difícil província, o livro segue inédito, apesar de formalmente colocado em programação editorial por esta ou aquela entidade cultural (não sei bem qual). Por que não um presente para o escritor, editando-se ainda este ano um estudo de tanta importância? Fica aqui a pergunta, como um apelo.

Nelson Saldanha é poeta, ensaísta, e "imortal" da Academia Pernambucana de Letras. Ensina no Curso de Mestrado em Direito da Universidade Federal de Pernambuco.

Autor: 
Nelson Saldanha

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