AS ARMADILHAS DO POETA

Chega aos 50 anos o poeta Ângelo Monteiro e poderá chegar até aos 100, quem sabe. A média de vida, infelizmente, não tem aumentado muito, apesar da informatização da Medicina. Que importância, afinal, tem a idade. O tempo não passa. A gente é que passa pelo tempo.

O essencial é aproveitar bem o tempo, assim como Ângelo Monteiro, acumulando sapiência e transmitindo-a aos seus alunos, nas aulas de Filosofia, na Universidade Federal de Pernambuco. Criando belos poemas e dando-nos a felicidade de tê-los para ler, recitar e cantar.

Pensando bem, que toneladas de solidão e cargas de silêncio tem que carregar o poeta, para conviver com o mistério que se estabelece entre o viver e o morrer! Sem essa convivência não existirá poesia. Ela é a armadilha que criamos para apreender o mistério, sem a preocupação de decifrá-lo. Assim como o próprio Ângelo diz: "Meu astrolábio é o ser em agonia/e meu porto é além de todo cais".

Mas há, também, uma outra tonelada de sacrifício que o poeta tem que carregar para sobreviver dignamente. E como está difícil viver dignamente. Ninguém acredita em poeta no trato das coisas práticas. Pôr os pés no chão, no começo da vida, não é fácil. Sobretudo no período em que o poeta precisa de emprego, para não morrer de fome e para escrever mais poesia.

O rótulo de poeta atrapalha a vida profissional. Digo isso, com pleno conhecimento de causa. Como foi difícil me fazer acreditado. Em São Paulo, o tempo curto que residi por lá, tive que esquecer que possuía "curriculum vitae", porque o "curriculum" de um poeta também atrapalha. Celina Holanda sabe disso e acompanhou esse meu momento naquele Planalto de Piratininga.

A sobrevivência de Ângelo Monteiro, durante um longo tempo, também não foi fácil. Mas, com raríssimas exceções, é sempre esse o carma de quem descobre muito cedo os caminhos da Literatura, a melhor maneira de nunca levar vantagem. A glória literária não se afina com a riqueza. A batalha da sobrevivência dos escritores e poetas é muito árdua. Muitas medalhas, mas um pão dormido.

Mas, por que me veio esse assunto, cruel como um despacho de repartição pública, lamentável como uma carta pedindo emprego? O que eu quero mesmo, é louvar o poeta Ângelo Monteiro. No próximo dia 21 de junho, ele completa 50 anos de vida. Para comemorar a data, o poeta estará lançando, brevemente, o livro "As Armadilhas da Luz", com uma bonita capa de Plínio Palhano e uma inteligente apresentação de Paulo Gustavo.

O poeta, agora, está preocupado porque "não há mais público para o sonho".

Está preocupado com os recônditos da expressão de um ser que o refletor não consegue demonstrar ou o escondeu por zelar demais o mistério - "No fluir dessas águas persigo a luz da esfera". Está preocupado com o seu tempo de agora, a sua vida neste momento: "Querem-me apenas um código/e não mais a medida das coisas".

O poeta chega aos 50 anos dignificado pela sua poesia limpa, possuidora de uma solidão leve - "Eu te busco no vôo mais impreciso/porque só o teu sopro em mim se instala" - sem os artifícios de linguagem, geralmente usados pelos que não possuem inspiração.

O poeta chega aos 50 anos dando-nos a lição da loucura ordenada e da bagunça transcendente que o torna a figura de maior expressão literária da Geração 65. Glória a Ângelo Monteiro e à sua poesia e paz na terra aos leitores inteligentes e sensíveis.

José Mário Rodrigues é escritor e poeta. 

Autor: 
José Mário Rodrigues

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