Celebração da Amizade

Dizia, com pitoresca propriedade, Luís da Câmara Cascudo que "um parente é um amigo por obrigação e que um amigo é um parente por vocação". Sou, portanto, com orgulho e com alegria, um parente de Ângelo Monteiro - um irmão a quem chamo de irmão, um amigo em quem encontro o resplendor da palavra amizade. Em sua companhia não descubro apenas o homem de letras, a quem hoje homenageamos, descubro a madura fraternidade de uma década de luminosa relação humana. Convivemos - e esta flexão plural, por ser plural e por ser flexão, merece o selo sagrado da amizade.

Os gregos, com Aristóteles à frente, privilegiavam a amizade a ponto de com ela fundamentarem a própria vida social. A amizade é virtude e prazer e, justamente, por ser prazer, mereceu de Epicuro um lugar de destaque em sua nem sempre bem compreendida doutrina. E, se bem notarmos, o que anunciou Cristo senão a fraternidade universal, esta utopia amorosa que é a suprema razão de ser do puro Cristianismo?...

Assim, pois, lhes falo sob o signo da amizade nesta celebração de aniversário. De aniversário de um poeta que orgulha o Recife. De um poeta que há muito já deixou a manhã turbulenta de sua vida para se incorporar ao dia azul e luminoso do Recife. Porque Ângelo é hoje uma figura nuclear de nossa cultura. Como professor, ensaísta e poeta, sem falar no amigo que se distribui por confidentes, alunos e admiradores, Ângelo Monteiro é naturalmente um patrimônio valioso do Recife. Infelizmente, à custa de uma situação social perversa, onde a pobreza de espírito tristemente reina, o poeta é silenciado e posto à margem. Mas isto, para um autêntico poeta, é uma doce tortura, um celestial acicate. A ira - como diziam os antigos - inspira os poetas. Assim, o Recife - mas o Recife mesquinho - é menor que o poeta, cuja grandeza está numa obra harmoniosamente sólida, alta como a imaginação dos grandes criadores. A posteridade, mais que o presente, tem sido o tempo dos poetas. E nenhum artista, como Nietzsche afirmou profundamente, suporta o real. Mas nessa incompatibilidade, nesse perigo, parodiando Hölderlin, é que também nasce a sua salvação. E a salvação do poeta é a sua palavra. Outros que se salvem por outros meios. Mas o poeta, graças a Deus, não se salva sozinho: ao se salvar pela palavra, ele também salva os outros - pela esperança da beleza, pelo sonho que o move, pela luz e amparo que traz ao mundo. Só um tempo absurdo e desprovido de qualquer humanismo pode prescindir de poetas.

Aos poetas, sugeriu Goethe, deve ser perdoado o descomedimento e a impropriedade de certas atitudes. Eles devem ser julgados pelo prisma de sua arte. Assim, também, que ocorra com o nosso Ângelo, em quem nem sempre a serenidade é uma constante e para quem a irreverência é uma sedutora companheira. Portanto, que nesses cinqüenta anos de poeta, possa o Recife perdoá-lo de seu exaltado radicalismo, de sua por vezes intemperança satírica, de sua febre de verdade e de ideal. Que Ângelo hoje e sempre seja julgado pela sua obra, pela inteligência que a preside, pela sensibilidade que a atravessa, pela luz mística e metafísica que tantas vezes a ilumina.

Mais de um eminente homem público já chamou o Recife de cruel. Mas o que se faz para se mitigar essa crueldade? O Recife é cruel, sim, mas pela ignorância espantosa que a povoa, pelas invejas atrozes que a atravessam, pelo feudalismo patriarcal que a governou, pelo açúcar que adoçou a poucos e amargurou a muitos, pelo egoísmo mórbido e sombrio que parece emanar da terra como uma maldição secular. O que se faz, pergunto, para que a crueldade do Recife seja banida para sempre? Temos, creio eu, como escritores, como homens e como elite, que fazer frente, em nosso cotidiano, a essa crueldade insana, onde a miséria material se incrusta imperialmente, como nos lembra os versos de César Leal: "Eis Recife - um vasto império / Por mocambos coroado".

Deixemos a crueldade. Hoje é dia de glória. Anjos tremendos esvoaçam sobre nossas cabeças. Eles não me perdoarão se eu não louvar este "auxiliar do Anjo"- como se auto-testemunha num poema o nosso homenageado.

Em Ângelo Monteiro, por trás do poeta e do ensaísta, há que vislumbrarmos este ser raro que é o pensador, o homem que pensa por prazer e criativamente. E aqui lembro Bergson que aconselhava a observarmos, com tolerância, que nem sempre, nas pessoas, há este prazer de pensar que sente o pensador. E lembro ainda Cioran, tão da admiração de Ângelo, que, talvez um tanto exageradamente, escreveu que "um homem de vocação metafísica é mais raro que um monstro". Em Ângelo, o pensador é um devoto da metafísica. Quando vejo muitas vezes seu perfil magro a lembrar Carlitos (como queria Renato Carneiro Campos), não posso deixar de dizer para mim mesmo em paródia a Pascal: Ângelo é um graveto, mas um graveto que pensa. Suas reflexões estéticas, literárias e, latu sensu, antropológicas, merecem, de par com sua poesia, uma atenção crítica e profunda.

Longa e extensa poderia ser esta louvação, mas para não lhes cansar, concluo com estes versos de Lucila Nogueira, escritos há mais de uma década para e sobre o nosso próprio Ângelo:

 

"Teu é o andar de pássaro e o canto feito espada:
o duplo interminável. Ó dançarino anjo
que poderes mortais disfarçaram-te em homem?"

Paulo Gustavo é poeta, Professor de Teoria da Literatura e Assessor editorial da Fundação Joaquim Nabuco. 

Autor: 
Paulo Gustavo

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