UM HOMEM SINGULAR NOS SEUS 50 ANOS

A minha geração, que começou a aparecer literariamente a partir de 1965, teve tudo para ser de índole triste, ensimesmada, acuada, a se julgar pelos anais que gestava a História daquela época. O tempo logo mostrou que haveria reações efetivas e positivas.

A diversificação de livros publicados, talvez tenha sido um dos fatores que mais concorreu para que ela não se deixasse vencer por uma aparente calmaria. O melhor exemplo que brotou desse grupo de escritores e artistas recifenses possivelmente tenha sido Ângelo Monteiro. A sua trajetória, num sentido histórico, marcou uma singularidade que se manteve acesa e conseguiu difundir uma imagem inesquecível, porque continuará a alimentar a candeia nos dias que virão.

A comemoração dos 50 anos de vida de Ângelo Monteiro é um sinal que cada vez mais o aproxima daquele limbo que só os afortunados recebem como prêmio, porque como dado estimulante entra o Destino movido pela mão de Deus. Comemoração ou lembrança de amigos que desejam festejá-lo neste limite temporal, em plena atividade criadora.

Afirmo, sem exagerar as coisas, que o ânimo que move este grupo de fiéis amigos do poeta Ângelo Monteiro nos seus 50 anos de idade, é simplesmente o da alegria e o da graça. Alegria por vivermos um tempo em que ainda é possível ler e sentir a força da rica e estranha poesia angélica: graça, porque nem sempre a unanimidade entre tantos uniu e se transformou em tantos abraços sinceros, sendo Ângelo uma espécie de confluência onde germina a amizade. Além do mais, num tempo em que os valores humanos são medidos por padrões que desnorteiam os espíritos dotados de virtude moral e poder intelectual, o exemplo da vida de um poeta que, ainda que vive perdido no seu castelo qual guardião da poesia, funciona como um alento, um conforto e mais uma razão para que se acredite, apesar de tudo, no destino do Homem.

Conhecendo o poeta Ângelo Monteiro há 30 anos, posso dizer que sou testemunha de sua trajetória artística, em muitos momentos, marcada por graves dificuldades de toda ordem.

Não falasse nele mais alto a determinação e a compulsiva energia criadora que se esvai em poesia, com certeza as mazelas do cotidiano já teriam arrebatado do nosso seio a alegria de sua poesia e de seus gestos de homem singularíssimo. Avesso às formalidades, quase sempre agrada pelo jeito só seu de ser o que é.

Quando foi preciso escolher entre as diversas lições que a juventude lhe ofereceu, Ângelo Monteiro, desde logo, soube por em prática os ensinamentos adquiridos com se já estivesse superando a fase esperançosa da mocidade. É verdade que mais tarde o tempo o dotaria de habilidades capazes de fixar um domínio técnico que o peso dos anos só fez aprimorar.

Os anos do passado vividos por Ângelo Monteiro, agora nos afiançam que o seu futuro será cada vez mais promissor e grandioso, porque, tenho certeza, contaremos sempre com a sua singularidade de artista e de pessoa.

Cláudio Aguiar é escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras.

Autor: 
Cláudio Aguiar

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