Saudação a Ângelo Monteiro

Quem foi que disse que os Poetas têm que ficar de fora da "República"? Quem foi que propôs que sentimento e razão não devem dar-se as mãos?

Será que o divino Platão, no Capítulo 8 da sua "República" tinha considerado a possibilidade de existir, algum dia, um Ângelo Monteiro? De algum dia existir um Poeta-Filósofo? Teria ele imaginado que num cair da noite, à hora crepuscular, à hora da excelsa coruja de Minerva, a voz do "mundo das sombras e do sensível" poderia ser assumida pela voz das "essências e das realidades eternas"?

Hoje é dia de reconciliação.

É dia em que esse dualismo metafísico grego parece ser passível de contestação empírica.

Ângelo Monteiro é Poeta e é Filósofo.

Como Poeta, diria Platão, não pode governar a "República"; como Filósofo, sim.

E por que não pode o Poeta governar a "República"? Simplesmente porque é artista.

É que ser artista, segundo o nosso Grego, é ser imitador. Imitador da natureza sensível que, já de si, não passa de imagem pálida do mundo do empíreo, do único mundo que é real, do mundo das verdades eternas. E se a natureza é mera cópia reminiscente do verdadeiro ser, como podem, diz ele, os copiadores dessa cópia ser alçados ao supremo patamar dos mortais, ao privilégio da contemplação direta do Ser? Impossível ! A isso estão somente vocacionados os Filósofos, esses que, supostamente, convivem, pela razão, com as essências verdadeiras.

Estranha ironia, meus senhores. Estranho paradoxo o de Ângelo Monteiro. Estranha armadilha do destino. Estranha Armadilha da Luz" !

Neste Centro de Filosofia, um Poeta, um copiador de cópias e de sombras não vai mais ficar de fora da "República". Está, de pleno direito dentro dela, governando - que o mesmo é dizer, orientando para a Verdade, apontando para qualquer Luz.

Mas deixemos Platão com sua "República" e com sua exclusão metafísica.

Fiquemos hoje somente com Ângelo Monteiro e com a Poesia. Mesmo que insistentemente de fora, irremediavelmente de fora. De fora da contemplação abstrata e essencial, mas dentro, profundamente dentro, do nosso realíssimo mundo humano.

"Quem pensará o muro da minha sombra?" pergunta o "Guardador de Rebanhos" de Caeiro. Isso. Quem pensará o mundo real, já que nos é dado apenas o "mundo das sombras"? Sofremos, sim, uma queda arcana; "bebemos - como diz Platão - no rio do esquecimento". E nesta anamnese estranha, só nos resta a saudosa via das reminiscências e dos símbolos.

E essa, Ângelo, é a tua tarefa como Poeta: desvendar - heideggerianamente, se quiseres - desvendar o Ser em sua casa, a Palavra; pastorar os pensamentos como rebanho e aceitar - igual que o outro Poeta, irmão teu, aceitar que "os pensamentos são todos sensações". Aceitar, enfim, ser porta-voz da nossa condição de desterrados, insistentemente perseguindo uma outra Pátria.

Não é, portanto, como Filósofo que tu nos há de redimir; não é como contemplador de puras essências que poderás representar nossa humanidade. É como inquiridor de símbolos e cantor de tristezas.

Nem Camões, de outra forma, teria sentido quando canta:

 

"Mas ó tu, terra de glória,
Se eu nunca vi tua essência
Como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
Se não na reminiscência".

Esta dolorida marcha por entre reminiscências de uma condição perdida, parece ser uma das insistentes linhas temáticas de Ângelo Monteiro; concretamente no livro que hoje nos entrega: "As Armadilhas da Luz".

Barroca, ou neo-barroca, já tem sido qualificada a Poesia de Ângelo. Concordo. Barroca, mais na alma do que no corpo. A forma é serena, a alma serenamente atormentada. Os contrastes luz e sombra, o recurso ao paradoxo, a submersa luta matéria-espírito, transportam-nos para não sei que planuras da meseta castelhana onde conflitos de Contra-Reforma e conformações contemplativas se conseguem fundir.

Poemas como "Vínculos Partidos", Aceso Pentecostes", A Redencão do Sangue", Meditação sobre as duas Bandeiras", Litania do sol", A Carne roga a Chama", bem que poderiam ser cantados - não em voz muito alta, mas, antes, com voz submissa - nalguma praça antiga de Ávila, Loyola, ou Pamplona.

São frutos de desterro, de tensão, de conflito, de saudade. São cantos inconformados de quem "cresce junto à sombra", de quem não domina os "pontos cardeais" mas, teimosamente, persegue uma "Pátria Longe". São cantos inconformados com as "armadilhas" que a própria luz, paradoxalmente, nos destina.

E Esta tonalidade barroca - barrocos são Padre Antônio Vieira e João Sebastião Bach - esta tonalidade barroca, repito, não é novidade com "As Armadilhas da Luz".

Podemos dizer que ela anda pressentida por todos os sete livros de poesia que Ângelo publicou ao longo dos últimos 23 anos. A começar pela relação dos títulos, fortemente vinculados a um imaginário de conflito. Conflito matéria e espírito, pecado e graça, perseguição de impossíveis ou elegias de desterro. Não é por acaso que os livros de Ângelo Monteiro - destacando somente os de poesias - se chamam: "A Proclamação do Verde", "Didática da Esfinge", "O Inquisidor", "O Rapto das Noites ou o Sol como Medida", "O Exílio de Babel" e, agora, "As Armadilhas da Luz".

Reparem bem na imagética do claro-escuro; reparem nas proposições paradoxais como as de querer decifrar "didaticamente" uma esfinge os sonhar ser possível caçar nuvens enquanto se está, inexoravelmente, agrilhoado em seu "Exílio de Babel".

Ângelo Monteiro vai fundo na condição metafísica do Homem.

Não se compadece com modismos ou Escolas. É uma voz de todos e de sempre. E por isso é grande.

Ainda bem, Ângelo, que estando tu, embora dentro da "República" como Filósofo, insistes em ficar de fora dela como Poeta e com Irmão. És tu que, sentado na soleira deste nosso reino sensível, poderás, inclusive, valer ao puro filósofo que, desde dentro da sua torre ou da sua "República" te suplicará como aquele "Pastor Amoroso" de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa:

"Criança desconhecida e suja brincando à minha porta, Não te pergunto se trazes um recado dos símbolos".

Nós sabemos que trazes. E que esse recado é, a um tempo, semente de alegria e de tristeza.

No teu último poema - "Elegia sobre o Canto"- há a melancolia duma suposta inutilidade do teu cantar:

 

"Ah! Ângelo Monteiro
Para que tempo escreves
(...)
a que público morto
fala hoje a Poesia?"

Permite que te diga: se um dia não houver mais "tempo" nem mais "público" para a tua Poesia, escreves para o eterno e para ti mesmo.

Escreve, que a pura beleza redime. Lembra-te do verso de Keats: "A thing of beauty is a joy forever" - "Um pedacinho de beleza é uma alegria para sempre".

E nesta hora brasileira de "obscura e vil tristeza" que todos, social e espiritualmente sofremos, acredita que talvez seja a beleza duma arte como a tua uma das últimas consolações invioladas.

Não te cales, pois, Ângelo Monteiro. Cumpre aquilo que pareces anunciar no teu soneto tão definitivo: "A Gaivota Morta", e não nos faltes com a palavra.

Não deixes morrer o teu espírito, essa "Gaivota", que o mesmo é dizer: a Poesia. Não deixes morrer a "lágrima jamais perdida - alma do mundo que não se encontrou" - para usar versos teus.

E para, solenemente, te comprometer, permite que termine, dizendo humildemente os versos deste teu compromisso conosco: "A Gaivota Morta"

 

A GAIVOTA MORTA

Não morrerás jamais minha gaivota
suprema ave do mar, pobre princesa
estás na alma do poeta presa
enquanto a alma do poeta é morta.

Suprema alma do poeta viva
suprema alma da gaivota morta
com a tua morte fez-se altiva,
com a minha vida encontro a mesma porta.

Negra ave do céu, cativa e eterna,
tu pairas sobre o mar depois de morta
eu pairo nesta vida que se inferna.

Negra gaivota morta, vida minha.
Tuas asas perdi em hora torta
na terra te ganhei como rainha.

Alfredo Antunes é professor da Universidade Federal de Pernambuco e um grande estudioso da obra de Fernando Pessoa. 

Autor: 
Alfredo Antunes

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