Prefácio à Louvação da Lavação

Muito melhor do que certas sátiras prolixas e pretensiosas ou do que certas análises críticas muito badaladas, porque publicadas no sul do país, este notável texto de Ângelo Monteiro confirma antes de mais nada isto: que o poeta é um homem que vê. Não foi por acaso que Fernando Pessoa disse "vi como um danado"; nem que um poeta como Octávio Paz escreveu uma penetrante análise de seu país, o México, no livro "O Labirinto da Solidão". Livro que aliás vale para toda a América Latina.

No texto de Ângelo Monteiro, redigido entre o surrealista e o irônico, entre a anotação alongada e a exposição sintética, estão presentes, como possíveis arquétipos, os modelos satíricos de todas as épocas; e sua linguagem, que ora é aforística ora coloquial, acompanha com um pouco de pressa as associações de idéias do leitor, que vai a cada passo se surpreendendo. A partir de uma frase grotesca e quase chula, o poeta, desdobrado em interpretador cultural, desenvolve aqui um novo "Elogio da Loucura". Redigido em 1978, o ensaio como que antecipa - e isso merece destaque - coisas de hoje, que são agravamentos de sintomas velhos, ou de males crônicos.

O conceito de burra, de notória origem colonial ("uma mala abarrotada de ouro", explicita o autor), se transfigurou, sem se desmentir, na locução desabusada e amoral: "lavar a burra" passou a ser, no léxico de nossa gíria, tirar vantagem, ganhar proveito sem trabalho, obter compensação material bastante para comprar o ócio (um ócio certamente sine dignitate). Rastreando as implicações da noção em termo de análise cultural, e de psicologia social - a velha psicologia dos povos, que as empertigadas doutrinas do século XX desdenharam -, o autor encontra meios de apontar algumas das mazelas do país. Do país e da chamada cultura nacional. Algo na linha das visões críticas que vieram com a década de 30, e também as alegorias contidas em Martim Cererê e Macunaíma(estas recentemente continuadas no admirável "Galvez", de Márcio Souza); mas algo, ao mesmo tempo, diferente. Certas alusões, por outro lado, nos fazem lembrar os pesados e eruditos estudos de Sérgio Buarque - por exemplo em "Visão do Paraíso" -, ou os de Merquior em seu valioso "Saudades do Carnaval", mas na Lavação da Burra, o clima é diferente: há uma aparente displicência no dizer, bem como uma chocante insolência, que entretanto mal encobrem uma série de registros críticos bastantes sérios e surpreendentemente exatos.

 

Tobias Barreto havia falado, há cem anos, na "falta de cabeça para a filosofia", que seria própria do brasileiro, mas ninguém se lembra de anotar que ser, ser mesmo para o brasileiro é "fazer-se", na acepção de ganhar, tirar vantagem, lavar a burra. O imediatismo nacional, espécie de enxerto daninho e implícito do pragmatismo anglo-saxão, constitui um anti-teoreticismo que entre nós se encontra até (pasme-se) nas Universidades, e que corresponde em termos genéricos ao arraigado hábito da improvisação e à incurável indisciplina do brasileiro. Com este hábito estão ligados alguns atrasos trágicos na história cultural do país: tardamos a ter imprensa, a ter Universidades, a libertar os escravos. Estas coisas, que sempre preocupam aos analistas mais escrupulosos, Ângelo Monteiro não as menciona a todas expressamente, mas estabelece uma série de alusões imbricadas num texto questionador e extremamente sugestivo, onde elas aparecem como temas centrais.

Tardanças e imediatismos, com efeito, têm feito do Brasil o eterno país-do-futuro, e nisto o autor toca com frases eficientes, em diversos pontos. Diríamos então que o Brasil é talvez um país de ucronia, mais mesmo que de utopia. Além de ser o país dos exageros: exagero no carnaval, no futebol, nas estatísticas. País do "jeitinho", como se costuma dizer (e o historiador João Camilo de Oliveira Torres chegou uma vez a relacionar o "jeitinho" com o nominalismo franciscano, presente em nossas origens).

País da "disponibilidade", também: ou, como diz o autor, povo do acaso. Receptividade excessiva, própria da dessubstancialidade cultural: enquanto outros povos se distinguem justamente por terem conexão como matrizes definidas, ao Brasil faltam matrizes definidas, e falta deste modo uma suficiente diferenciação, que seja marca, "caráter" no sentido clássico, substancialidade cultural, ontos histórico: de onde - e aqui reencontramos o fraseado de Ângelo Monteiro - a falta de ser autêntica, e com isto a intranscendência como transcendência. De onde também, observe-se, o filoneísmo fácil, o culto da facilidade, mais o tradicional privatismo (por tantos sociólogos estudado). E mais a subserviência, de que expressa e expressivamente fala o autor, com anotações simplesmente impiedosas. De onde, além de tudo, a prodigalidade, irmã da indisciplina, e a prodigialidade, irmã da fantasia gratuita.

Conforme a cortante ironia do autor, somos com tudo isso o povo mais metafísico do mundo: nem sabemos o que queremos, mas o queremos, posto que almejamos lavar a burra sem a haver localizado, nem sequer definido. Faltou ao Brasil a continuidade da reflexão de nível filosófico. Faltou também, talvez pelo grande empenho do modernismo - já no século vinte - em experiências verbais e cromáticas, uma meditação crítica que se debruçasse sobre o "ser histórico" do país (meditação que foi bastante intensa no México, por exemplo). Ficou o Brasil, então, entre aquela descontinuidade e essas experiências, tomado por "retratos" críticos nem sempre falhos, mas nem sempre convincentes. A sátira de Ângelo Monteiro, onde encontramos o contraste entre o título contundente e o texto substancioso, vale como provocação temática, como desafio, do mesmo modo que as críticas de Eça de Queiroz ao Portugal de seu tempo, que eram, no fundo, um gesto de amor à terra. 

Autor: 
Nelson Saldanha

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