Uma inquisição de baixo quilate

A Universidade Federal de Pernambuco, através do seu Departamento de Filosofia, acaba de ter negado, e pela segunda vez, uma simples progressão profissional ao professor e poeta Ângelo Monteiro. Para quem conhece o grande poeta, esteta e ensaísta isso é um escândalo que torna, a priori, esse ou qualquer outro artigo inútil. "Ai de nós - diz o poeta T.S. Eliot - que perdemos a sabedoria pelo conhecimento, e o conhecimento pela informação". E a filosofia é, sobretudo, sabedoria.

As universidades não criam a inteligência, mas deveriam reconhecê-la e abrigá-la, sob suas diversas formas e não negar-lhe, farisaicamente, abrigo em sua morada. Não têm o Daimon e nem o toleram. Preferem antes a sombra dos administradores acadêmicos que a luz de um espírito livre e sedento de saber.

O talento poético e filosófico do professor Ângelo Monteiro está imortalizado em sua obra vasta e profunda e mais ainda encarnada em sua própria vida pessoal. O inesquecível professor Alfredo Antunes, uma das poucas luzes desse já sombrio Departamento de Filosofia, pergunta: Quem foi que disse que os Poetas têm que ficar de fora da "República"? Quem foi que propôs que sentimento e razão não devem dar-se as mãos? Mas os doutores, representando a UFPE, não estavam interessados na coerência entre o ser e o conhecer e sim na posse das pequenas e lustrosas vantagens acadêmicas. Imagino que a poesia e a estética de Ângelo Monteiro sejam muito pouco aproveitáveis para a instrumentalização do saber tão em voga. Mas não acredito que tenha havido nem mesmo esse mísero critério nessa inquisição.

Ao saber do ocorrido, procurei conhecer os métodos de avaliação e me certifiquei de sua miséria. Devo admitir que me surpreendi com a coerência das notas, impecavelmente uniformes, como é de praxe na burrice doutoral.

Um certo isolamento monástico do poeta Ângelo Monteiro pode ter um aspecto anti-social, mas a solidão não alimentou toda a história da filosofia? Toda a nossa civilização não se nutriu até hoje desses solitários? Como comparar a verdadeira produção intelectual com a mera exibição de títulos acadêmicos?

É um aspecto menor o fato de se ter uma personalidade mais ou menos social numa comunidade intelectual, ao contrário de certas comunidades onde a participação nos rituais sociais é fundamental. Mas creio que os Departamentos de Filosofia no Brasil estão tomados do esprit de corps. Na verdade os sindicatos europeus são bem mais modernos que as nossas elites intelectuais.

É sintomático que o autor de O Inquisidor, sofra exatamente uma inquisição, ainda que de baixo quilate. Mais simbólica ainda é a formação dos seus inquisidores. Há entre eles um ex-jesuíta (e por lembrar de suas aulas sobre Filosofia da Religião arrisco dizer que se trata de um jesuíta sem Jesus, pois que só buscava explicações materiais, sociológicas e psicológicas para a existência de Deus. Era espantoso!). Há ainda um especialista em Filosofia e Psicanálise e uma doutora na Psicologia do Desenvolvimento Cognitivo. Foi quando me dei conta de que o critério formal de participação na vida acadêmica, bem como a estatística kafkiana dos títulos, constituíam apenas uma mise en scéne para confrontar o que realmente interessava: a alma do poeta diante do corpo filosófico, ou melhor, do cadáver.

O peso psicanalítico dessa inquisição livrou a Universidade Federal de Pernambuco do pesadelo de um poeta que ama a beleza do segredo e do mistério. Devo admitir que os psicanalistas estavam bem afiados. A ironia em tudo isso é que esse veredicto do Departamento de Filosofia da UFPE, na verdade, coroa de êxito duas grandes obras de Ângelo Monteiro: o Tratado da Lavação da Burra, que trata da ausência de universalidade do "ser brasileiro" e o Inquisidor onde vemos o poeta transcender as contingências. 
Quem viver verá! Aliás, já se vê!

*Ronaldo Castro é escritor. 

Autor: 
Ronaldo Castro

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.