As múltiplas visões do poeta

Poeta e filósofo, uma combinação mais que perfeita, Ângelo Monteiro lança no mercado editorial seu 24º livro de poesias. Com selo da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), a obra “Todas as Coisas têm Língua” revela uma criação poética cada vez mais amadurecida, em que a sensibilidade do autor é patenteada pela palavra cujas raízes mergulham no abismo interior da linguagem.

Em cada página deste livro é surpreendente a revelação das qualidades não apenas líricas, mas o senso crítico, humano e ideológico desse cultor da língua portuguesa, com uma riqueza vocabular abrangente e variada na transmissão das imagens por ele construídas.

A métrica está presente na linguagem de Ângelo Monteiro, pejada de simbolismos e metáforas, porém sem prejuízo da sutileza no emprego das palavras num universo povoado de estrelas, mas que também dá espaço à crítica por vezes ácida do poeta em suas composições.

É incomensurável o poder de observação do autor, que busca uma resposta para a morte que dilui em cinzas a memória, deixando em seu lugar o vazio do esquecimento perdido na eternidade. Amados mortos, esquecidos vivos – esta é a realidade.

Por vezes a melancolia perpassa o canto do poeta quando as sombras se projetam de tal forma que ele perde a ânsia de viver e, de arrastão, também a de morrer. Na alma, uma mescla de dor causada pela perda do pai, da mãe, da avó, deixando a ausência como hóspede em seu coração. Mas o consolo não tarda - para ele, todos nós somos avoengos na infância. Que bela imagem!

Em dado momento ele revela uma outra face da sua criação, quando aflora a sua religiosidade como se fosse bálsamo, para quem nem sempre encontra resposta às suas indagações. E aí entra o brado de protesto do poeta, que confessa nunca ter entendido a vida, inclusive a própria vida, “a vida de ninguém”. Porém não consegue esconder sua crença no signo eterno da volta, através do amor, ao paraíso perdido.

Mágico em alguns momentos, Ângelo Monteiro nos transporta, como se fosse um astronauta, para outros mundos, ao mesmo tempo em que indaga quem nunca se sentiu habitante de todas as galáxias. Seria essa sensação uma armadilha da luz por ele perseguida? Nesse ponto o poeta contemporiza, mostrando-nos o que seríamos sem a queda. Por certo embalado pela certeza de que as dificuldades postas no caminho ajudam na redenção do Homem.

A alma humana precisa ser desbravada e ele, o poeta, está sempre disposto a cumprir essa tarefa, como um escafandrista em busca da beleza escondida no fundo mar. Enfim, o mitológico e o real se fundem na composição de AM, enquanto os sonhos se esfumam dando lugar às máquinas.

Ariadne Quintella é jornalista
ariadne_quintella@hotmail.com

Autor: 
Ariadne Quintella

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