O aspecto temporal da eternidade num poema de Ângelo Monteiro*

Há uma maneira poética como se pode considerar o aspecto temporal da eternidade que foi expressa por um poeta pernambucano, que tive como professor no curso de filosofia, o Prof. Ângelo Monteiro. Ele define em sua poesia “Só memória” que o elemento temporal próprio da eternidade é certamente, contudo, a memória, como o “lugar” em que o eterno mantém uma relação com o tempo. Assim diz a poesia:

A eternidade pensa
O tempo,
Como a árvore as folhas
E o vento o pólen
Em seus giros
Entre o céu e a terra. 

Como não pensar-me
A memória de existir
Mesmo sabendo-a
Órfã em sua origem?
Já que sou passageiro
Entre todas as miragens
Como salvar tal memória?
Como fixar o traço impalpável
Tanto das nuvens do céu
Como das sombras e luzes do caminho
Que em silêncio envolveram meu durar?
Como prender com os fios do tempo
A efígie de todas as presenças
E cravá-la como pedra
Nos anéis do meu fim
Girando a vida eterna na memória? 

Segundo o poeta, como o vento move o pólen em seu movimento giratório entre o céu e a terra, e a árvore produz suas folhas, assim também a eternidade engendra e movimenta o tempo. Ele procura desse modo falar de uma determinada relação entre a eternidade e o tempo que se faz determinada pela metáfora do pensar como análoga à relação entre vento e pólen, entre a árvore e suas folhas. As perguntas que se seguem na poesia assumem características diferentes. A primeira é uma afirmação em forma de pergunta negativa: “Como não pensar-me a memória de existir, mesmo sabendo-a órfã em sua origem?”. Com essa pergunta, o poeta acentua uma espécie de obrigatoriedade: tenho de pensar-me a memória de existir, do mesmo modo que a eternidade pensa o tempo. Fazendo uma interpretação pensante dessa poesia, poderíamos dizer que a memória é o “lugar” no qual o eterno gira, na finitude e na falta própria do existir, na saudade que constitui o existir. O existir é constituído pela saudade que o engendra e vivifica (na medida em que o abre para o encontro) e quer eternizá-lo, e que, sem, porém, o poder, espera que o eterno assim o constitua. A saudade abre o existir e fá-lo viver como espera de encontro. A memória temporânea projeta antes e depois da história e como principio e fim da mesma a imagem do eterno, cujo acesso é unicamente místico e, neste sentido, puramente poético. Isto é ainda apenas uma hipótese que exige um aprofundamento posterior, pois a “pressuposição” da eternidade é um dogma da fé cristã, o que deve certamente significar uma verdade incontestável, isto é, deve ser aceita e crita em termos de realidade de acordo com a filosofia tradicional. 

*Texto sobre Ângelo Monteiro inserto no livro "Tempo e história na hermenêutica bíblica" de Gil Franco Lucena dos Santos (São Paulo: Edições Loyola, 2009) 

Autor: 
Gil Franco Lucena dos Santos

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