Poesia das nuvens

Não me refiro apenas ao constante uso da imagem das nuvens nos poemas de Ângelo Monteiro, nem tampouco da captação desse aspecto pela crítica; sua poesia é alta, isola-se no quadro do fazer poético de Pernambuco, alcançá-la exige esforço e atenção. Os temas tocados, em consequência, assumem a mesma dimensão: perpassam a experiência de ser humano em suas múltiplas contradições e sentimentos - a solidão, a morte, o desejo e, portanto, universais.

Dentre muitos, destaco aqui a angústia de ser eterno, de não simplesmente passar, deixar arestas:

Na secreta igreja do nosso coração
também vicejam altares
de uma primavera
que não quer morrer.1

Para tanto, o poeta busca salvar a memória de si mesmo, entendendo que esta é elemento pertencente da eternidade. “A memória temporânea projeta antes e depois da história e como princípio e fim da mesma a imagem do eterno, cujo acesso é unicamente místico e, neste sentido, puramente poético.” 2

 

Como não pensar-me
A memória de existir
Mesmo sabendo-a
Órfã em sua origem?
Já que sou passageiro
Entre todas as miragens 
Como salvar tal memória?
Como fixar o traço impalpável 
Tanto das nuvens do céu
Como das sombras e luzes do caminho
Que em silêncio envolveram meu durar?
Como prender com os fios do tempo
A efígie de todas as presenças
E cravá-la como pedra
Nos anéis do meu fim
Girando a vida eterna na memória? 3

E não somente permanecer na sua memória busca o poeta, pois ela tem o mesmo limite que o seu fim, mas vencer o tempo cravando-se na memória dos outros. Esta, muito mais que a própria, também é volúvel – porque não se pode garantir a sua conservação ou porque igualmente tem igual fim. Resta, então, a “desmemória” de si mesmo e a “desmemória” dos outros e, portanto, o esquecimento...

 

A memória nos viaja
Ao lado de nosso coração.
Mas quando ele parar em nós um dia
Seremos desmemoriados de todas as coisas.
E na desmemória dos que ficarem
Beberemos o rio do esquecimento. 4

Entretanto, “a eternidade pensa o tempo” e o tempo, por sua vez, abarca a memória. Nesse jogo do que contém e está contido, o esquecimento localiza-se entre a memória e o tempo. Sendo assim, ser esquecido é também uma forma de ser eterno.

Mas não se leia aqui o esquecimento como um ponto final, o acabar de todas as coisas. E aqui reside o mistério, o elemento divino, o que não se explica pela física: tudo que passa guarda uma porção – ou um todo – em direção à eternidade; de igual modo, o que tocamos constitui-se de uma dimensão intangível e inatingível, “jamais tocaremos a substância” e o que vemos – ou pensamos ver – é muito mais ausência que habitação.

Tudo que passa é uma sombra
Do que além vive. Uma vitrine
Que esconde ausências. Cápsula
Que oculta um projétil
Em direção à eternidade.
(...)
Nas coisas só o que esvoaça é real.
A sua verdade se encontra muito além
Da divisão que um dia concebemos. 5

Dessa forma a poesia – “menos que nuvem” - porém igual a elas, passa, desfaz-se, muda de formato, abriga o que é visível e, sobretudo, o invisível: as partículas que formarão a chuva a regar as almas. A poesia é o lugar onde o poeta achou para buscar ser eterno. E já o é...


1) A disciplina das coisas. In: MONTEIRO, A. Todas as coisas têm língua: seleção poética. Recife: 2008. CEPE. p. 85.

2) SANTOS, G. F. L. O aspecto temporal da eternidade num poema de Ângelo Monteiro. 
Disponível em: < http://www.icones.com.br/angelo/ > Acesso em: 27 jul 2012.

3) Só memória. In: MONTEIRO, A. Todas as coisas têm língua: seleção poética. Recife: 2008. CEPE. p. 153.

4) Memória e desmemória . Idem. p.135.

5) Tudo é promessa. In: MONTEIRO, A. Todas as coisas têm língua: seleção poética. Recife: 2008. CEPE. p. 44.

Autor: 
Maria Richely

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