Exportação de bebês para a França

Crianças às pencas temos
para dar, para vender.
Só não sabemos criá-las:
maior é o nosso Poder.

Crianças às pencas temos,
A crescer quais cogumelos:
que, enfeitadas, exportamos
com laços verde-amarelos.

Verde dos pastos nas cores
e o amarelo na magreza:
somos bons exportadores
do que foi nossa riqueza.

Grande país o que exporta
das suas terras a infância:
para ultrapassar a porta
de sua própria abundância.

Nós vivemos da carência
do possuído em excesso:
não busquem, pois, na aparência
a nossa ordem e progresso.

Crianças às pencas damos,
porque a contamos demais:
se as conservarmos, matamos
com elas a nossa Paz.

Pois em estado de guerra,
na fome e no desespero,
é que sabemos na terra
educá-las com esmero.

Nem todas são resistentes
às nossas leis espartanas.
Fiquem os franceses contentes
com elas; nós, com bananas.

Se a França tem creches, temos,
porém, rios caudalosos
e florestas e montanhas
e generais bem garbosos.

Nossa glória é nos quartéis,
e não nos berços. Radia
em nossas frontes fiéis
o sol da cavalaria.

Recife/1980

Autor: 
Ângelo Monteiro

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