Homenagem ao Senador Biônico

Biônico: doce vantagem
de surgir sem ter nascido,
ser nomeado já crescido
para sem lei legislar;
apesar de surgir pronto
sem precisar nascimento,
ele exprime o crescimento
do que não quer mais parar.

Mas tão velho e decadente
o Biônico conserva
todo o mando que a caterva
queria para exercer.
O arbítrio não está nele
mas, por ele, se propaga
como cancro ou como praga
emanada do poder.

Ó Biônico inventado,
da nação à revelia,
para tornar mais vazia
a cadeira para onde for.
Para vós a vida doa,
como o peso de uma doença,
apenas uma sentença:
o nada por senador.

Se a luta desconhecestes,
não conhecestes problema.
Mas criastes um dilema:
como nada é que venceis.
O nada que permanece
conseguiu ser poderoso.
O nada vitorioso
finalmente teve vez.

Viva, pois, a vós, Biônico,
viva a vós, ó Inexistente.
Mas merece grã patente
quem foi de vós inventor.
A ele é que nós brindamos
pois não há maior poder
que dar forças ao não-ser,
transformando-o em senador.

Recife/1980

Autor: 
Ângelo Monteiro

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