Miguel Bruno Duarte entrevista Ângelo Monteiro

Este ano foi-me dado o privilégio de conhecer e travar a mais profunda amizade com Ângelo Monteiro em Richmond (EUA). Trata-se, pois, de uma das maiores figuras da poesia e da intelectualidade brasileiras com a qual o autor destas linhas e demais personalidades – Rodrigo Gurgel, Bruno Garschagen e Paulo Briguet – puderam conviver na casa-biblioteca de Olavo de Carvalho, a quem, aliás, devemos e agradecemos o convite para um encontro apto a debater os mais variados problemas e eventuais soluções no âmbito da cultura luso-brasileira.

Quando, pela primeira vez, saudei e cumprimentei Ângelo Monteiro, fiquei um tanto surpreendido, embora naturalmente grato pelo seu elogio a um livro meu publicado no Brasil, intitulado Noemas de Filosofia Portuguesa: um estudo revelador de como a universidade é o maior inimigo da cultura lusíada. Demais, Ângelo Monteiro confessara-se deveras impressionado com a Escolástica portuguesa, nomeadamente quanto à existência de um Papa português que, para surpresa minha, o poeta-filósofo desconhecia na qualidade de um dos mais insignes escolásticos da Europa medieval. Aliás, também pude aprender muito com o nosso Amigo, a começar por alguns dos seus livros generosamente oferecidos e que perfazem uma obra única no contexto da alta cultura brasileira.

Por conseguinte, não podia deixar de entrevistar uma figura tão carismática como Ângelo Monteiro, mesmo sabendo que uma entrevista composta do lado de cá do Atlântico corre sempre o risco de não traduzir a traça pessoal, espontânea e idiossincrática de uma personalidade riquíssima como a que ora apresentamos aos portugueses.

De resto, há também um ponto em questão que queremos e devemos aclarar: Ângelo Monteiro é a favor do «último acordo ortográfico já que ele buscou conciliar pequenas diferenças existentes no português de Portugal e no do Brasil». Neste ponto, é profunda a nossa discordância, porque na verdade não se tratam de pequenas diferenças, tal como António Telmo deixou patente numa entrevista conduzida pela jornalista Antónia de Sousa e publicada no Diário de Notícias (suplemento DN Magazine) em 25 de Agosto de 1991. Ora, nessa entrevista consta o seguinte:

«Como Telmo tem feito estudos cabalísticos da Língua Portuguesa, quisemos saber porque é tão veementemente contra o acordo ortográfico. Diz: 

"Nós entendemos a língua portuguesa falada pelos Brasileiros e eles também nos entendem perfeitamente. Não se percebe quais as vantagens da uniformização que se pretende. Há diferenças do brasileiro para o português e o africano, todas elas valiosas e que se exprimem linguisticamente em modos distintos. Os Ingleses e os Americanos não precisaram de uma uniformização para serem entendidos pelos outros povos. Por exemplo, a palavra fato. Para os Brasileiros é um facto. Não dizem fato, dizem terno. Como é que eles resolvem isto? Ao ceder aqui, o português decai, porque é obrigado a escrever e a falar de modo impróprio. Se quisessem a unificação, os Brasileiros é que teriam de modificar, porque o português é a origem, é a mãe, é a língua padrão."

Vejamos, no sentido de se perceber melhor a sua oposição: a reforma ortográfica altera de alguma forma a gramática secreta da língua? 

"A língua portuguesa tem-se modificado de forma natural e espontânea. As línguas não se fazem de fora. A prova é o esperanto, que não resultou. A Gramática Secreta entende que cada língua tem os seus fonemas próprios e esses fonemas reflectem um modo de estar no mundo. A reforma ortográfica não deve actuar nunca no plano dos fonemas."

Contrapusemos-lhe uma frase de Manuel Bandeira, que Agostinho da Silva gosta muito de citar: a que o brasileiro é um português à solta. Não será o mesmo com a língua? E Telmo responde vivamente: 

"O brasileiro é o português relaxado. Nós somos mais clássicos. Há que conservar isso. Eles não têm o Camões, não têm o Pessoa, não têm o Pascoaes, não têm o Agostinho da Silva, onde atingimos o mais alto grau de liberdade poética. Veja só, por exemplo, a colocação dos pronomes. O brasileiro não mete o pronome dentro do verbo. Por exemplo, em lembrar-me-ei ou amar-te-ei. Este procedimento da língua portuguesa exprime o mais alto grau de liberdade. O verbo põe no seu coração o pronome, o nome de quem se fala. Isto é caso único nas línguas europeias!"».

E, no lance, Orlando Vitorino mais nos diz sobre esta questão vital para a existência do homem português:

«Congratula-se o autor por o destino o haver dado a esta tão deslumbrante língua portuguesa. Foi ela uma língua singular na história da civilização que ainda predomina no mundo. Porque só aprendem a significação de seus termos e combinações os que têm o saber imediato de os referir aos étimos e paradigmas latinos, o português é, mais do que uma língua românica ou derivada, um dialecto do latim, como o castelhano, o italiano e o francês. Contém, todavia, expressões sintácticas, morfológicas e fonéticas que permitem ligá-lo directamente ao grego, ao hebreu e ao árabe, e até, numa concepção que faça derivar as línguas umas das outras, defender a tese de que sua origem não está no latim. Foi, entre todas as línguas europeias modernas, a que primeiro alcançou uma perfeita capacidade descritiva (Fernão Lopes é anterior a Froissart) e a mais difícil capacidade conceptiva (D. Duarte é o primeiro filósofo que escreve em vernáculo); só na expressão poética foi precedida pelo italiano, com Dante e Petrarca antes de Camões. Contém, ao mesmo tempo, a maior riqueza de vocábulos entre todas as línguas, e os fonologistas observam que só o inglês se lhe pode comparar na variedade de sons e articulações. Primeira língua, portanto, a atingir na Europa moderna a plenitude da expressão, vai também ser a primeira a extinguir-se. Ao aproximar-se agora o seu fim, reúne nestes últimos breves decénios – como aconteceu na Grécia e porque "a ave de Minerva levanta voo ao anoitecer" - os seus mais poderosos filósofos e poetas: Bruno, Leonardo e José Marinho, Pascoaes, Pessoa e Régio. Com a recente morte do último filósofo e do último poeta, os portugueses perdem também a última guerra que travaram, vêem as suas possibilidades de sobrevivência desfeitas às mãos dos movimentos colectivistas internos e internacionais, e a demência social e política é a consequência imediata da perversão da linguagem. As palavras, adulterado o sentido que tinham, já apenas servem para designar objectos materiais, coisas, sentimentos negativos e apelos ao ódio. Deixam, dia após dia, de ser palavras, para serem apenas sinais e estandartes. E acabando por ficar impotente para exprimir estados de espírito e estados de alma, pensamentos e sentimentos, o português já é, de facto, uma língua morta. Como o latim e como o grego. O que dela ainda irá perdurando durante algum tempo será apenas o vozear babélico de uma multidão que, tendo perdido a variedade que mantém vivos os povos, ainda vai precisando de recorrer aos vocábulos utilitários e comunicativos enquanto se não dissolve de todo na uniformidade e na informidade a que irreversivelmente se dirige.

Escrever e falar uma língua que, ainda usada como viva já é de facto uma língua morta, constitui, para o dramaturgo e para o actor, a oportunidade, jamais tida por outros homens com a consciência de a terem, de escreverem e falarem como clássicos. O que significa e vale isso de falar a língua morta dos clássicos, souberam-no durante mais de mil anos os sacerdotes que acreditaram na revelação de Deus em palavras sagradas que todos os dias repetiam celebrando o culto em latim; e sabia-o também o autor do "Leviathan" que abolia das escolas o ensino dos clássicos por instilarem eles nos homens o espírito de liberdade» (in Tongatabu e Nem Amantes nem Amigos, Teoremas, 2.ª Edição, 1977, pp. 6-8).

Oportuno seja, porém, realçar que não estamos contra a ortografia praticada no Brasil, que respeitamos e aceitamos com toda a naturalidade. Aliás, não fora por acaso que Francisco da Cunha Leão, no seu Ensaio de Psicologia Portuguesa (1971), referira o etno-tipo do brasileiro como sendo mais flutuante do que introvertido, ou mais receptivo do que estruturado por contraste ao etno-tipo do português. Quer dizer: sendo o idioma o mesmo, e, portanto, susceptível de transmitir preferências mentais e estados de alma e espírito comuns ao português e ao brasileiro, a verdade é que, para além disso, existem especificidades e expressões típicas de um lado e do outro que jamais devem ceder a uma uniformização linguística compulsiva em nome da Comunidade luso-afro-brasileira e sua representação político-diplomática em instâncias internacionais.

Sendo desejável e compreensível a existência de uma tal Comunidade, já não se compreende que se descaracterize a língua falada por portugueses – os principais prejudicados neste processo –, impondo, mediante a supressão das consoantes mudas e dos acentos tónicos, o abastardamento fonético da altiva sonoridade que, não obstante as nasalizações e ciciamentos por contrapartida à nitidez sónica e estridente das substâncias duras e metálicas, chegou a fazer da língua portuguesa a maior das línguas do mundo moderno. Além disso, já Orlando Vitorino atempadamente dissera que a língua portuguesa quedara praticamente morta depois da revolução comunista de 1974, o que, nos dias que correm, é ainda mais visível se tivermos em linha de conta como as escolas, as universidades, a comunicação social e o movimento editorial finalmente aderiram ao último «acordo ortográfico» consumado à revelia dos portugueses.

De resto, tal se explica pelo facto de as escolas terem começado por impor às crianças, jovens e adolescentes todo um processo a que eles, por si mesmos, não podiam nem podem efectivamente opor-se. E tudo se deve, em grande medida, a uma «classe política e intelectual» que já negou às novas gerações a soberania política e económica de Portugal por via de uma estreita e criminosa dependência a organizações e poderes internacionais, particularmente consolidada com a entrada em vigor da moeda única. Logo, perante a falsa e comprometedora «questão ortográfica», todo e qualquer autor pode e deve zelar pelo direito patriótico de não permitir que os seus livros deixem de serem publicados na «língua clássica» em que o português já efectivamente se tornou.

Entretanto, a prova indesmentível de que brasileiros e portugueses se podem entender perfeitamente em suas diferenças idiomáticas, resulta da seguinte entrevista consagrada ao nosso Amigo Ângelo Monteiro:

 

Miguel Bruno Duarte – O Ângelo nasceu em Penedo, Estado de Alagoas, Brasil, em 21 de Junho de 1942. Mais tarde foi com a família para Pernambuco, radicando-se, em 1971, no Recife, capital do Estado. Quer dar-nos o seu testemunho? 

Ângelo Monteiro - Concordo em dar meu testemunho, já que é uma honra ser entrevistado por alguém que, entre outras surpresas, me deu a mais completa notícia sobre um papa português, num livro em que se destaca pelo seu amplo conhecimento da história filosófica do seu país.

M. B. D. – Segundo percebi, o Ângelo chegou a fundar na juventude o Partido Comunista Cristão. Explique-nos o porquê dessa fundação e como logrou ultrapassar a sedução juvenil de uma ideologia sem pés nem cabeça. 

A. M. — Felizmente não cheguei a fundar o Partido Comunista Cristão mas apenas o concebi mentalmente. E o concebi, segundo o delírio político da época, baseado numa falsa interpretação do versículo evangélico “O Espírito sopre onde quer”, embora não conseguisse, naquele momento, atinar que o Mal, por sua específica essência, jamais poderia estar a serviço do Bem. Daí ter confundido tal mensagem revolucionária com a dos profetas bíblicos em sua ênfase indeclinável na justiça social. Graças a Deus tive a sorte de perceber, em tempo, pela prática aliás comum ao comunismo, que ele costuma custar muito sangue e uma miséria infinitamente maior do que aquela que supostamente pretende erradicar deste mundo.

M. B. D. – O Ângelo deu aulas como professor de Estética e de Filosofia da Arte na Universidade Federal de Pernambuco. Quer dizer-nos, com base na sua experiência pessoal, o que pensa da universidade no Brasil? 

A. M. — Nenhuma instituição, por mais antiga e venerável que seja, se basta a si mesma, e isso deve ser dito, principalmente, das universidades que deveriam se diferenciar a partir de nomes fundamentais ou fundadores responsáveis pelas verdadeiras bases de sua história. E, sob esse aspecto, o que deve ser dito da Universidade brasileira — uma universidade bastante recente mas já em franca decadência — é que ela se rendeu logo cedo às pautas da hora antes de levar à plenitude seu destino essencial. E, de uma hora para outra, virou positivista, freudiana e marxista antes mesmo de se firmar como instituição respeitável. De idêntica maneira, em minha experiência como professor de Estética e de Filosofia da Arte, entre outras disciplinas, tive de passar um pouco pela sensação de estar fora do tempo, a falar de céus e anjos, em vez de experiências palatáveis ao universo comum de compreensão de muitos colegas de ofício.

M. B. D. – Foi aluno de Ariano Suassuna, que o convidou para fazer parte do Departamento de Extensão Cultural da Universidade. Será correcto dizer que uma parte considerável da sua poesia convergiu, de uma forma não intencional, com o ideário do Movimento Armorial, criado por Suassuna em 1969? 

A. M. — Não se tratou de uma parte considerável de minha poética que veio a convergir, intencionalmente ou não, para o Movimento Armorial e, sim, a parte menor, praticamente aquela ligada às formas poéticas mais populares. Quanto à minha participação no Movimento não há muito o que dizer, senão que, algum tempo depois, formei a opinião de que nem toda arte se reduz apenas à base popular. E bastaria citar apenas dois exemplos: O Cravo bem temperado, de Bach, na música erudita, e Em busca do tempo perdido, de Proust, na prosa de ficção.
M. B. D. – Fiquei sensibilizado em saber que o Ângelo apreciou muito o livro que dei à estampa no Brasil com o título de Noemas de Filosofia Portuguesa. O meu Amigo também me disse que o que mais o impressionou foi a infiltração do iluminismo, do positivismo e do socialismo em Portugal. E, nessa linha, referiu-se à planificação que descrevi e expliquei sobre o ensino em Portugal como algo de especialmente relevante para a compreensão da perda de valores e referências espirituais no mundo actual. Neste contexto, também encontra no Brasil uma planificação afim? 

A. M. — Você me chamou a atenção em seu excelente livro, Noemas de Filosofia Portuguesa, para as três pragas filosóficas que, iguais ou piores que as do Egito, se espalharam, não só sobre Portugal mas sobre o Brasil, e que são o iluminismo, — responsável pela expulsão dos jesuítas de ambos os países por Pombal — o positivismo e, mais recentemente, o marxismo. A leitura do seu livro nos fez lembrar, ainda que de modo implícito, que a Companhia de Jesus, sob certos aspectos, representou, pelo seu fundo cristão, uma espécie de visão corretiva em relação ao caráter geralmente ateu do iluminismo. A análise que você faz desse fato, sobretudo a partir da escolástica portuguesa — que, por sinal, nos deu um papa, o filósofo Pedro Hispano, que ocupou, em 1276, o trono de São Pedro, sob o nome de João XXI — é eminentemente esclarecedora. Pois a universidade portuguesa — assim como, posteriormente, a universidade brasileira — conheceu a começar do pombalismo, a perda das referências espirituais mais significativas, e isso se tornou fatalmente desastroso para a sustentação das características definidoras de ambas as nações. 

M. B. D. – O Tratado da lavação da burra ou introdução à transcendência, escrito no Recife de Junho a Julho de 1978, é um notável ensaio sobre o Brasil e a respectiva ausência de matrizes definidas; ou, nas palavras do próprio Ângelo, um Brasil que, em sua euforia pelo futebol, pelo samba e pelo carnaval, manifesta «a senha dialéctica dos três estágios que não lograram sequer ser atingidos pelo nosso esforço, pois nos foram dados simultânea e instantaneamente sem nenhuma necessidade de síntese, sem nenhum percalço lógico ou metafísico». Quer explicitar? 

A. M. — O que pretendi salientar, inclusive por meio dessa citação do texto do Tratado da lavação da burra, é que sobre esta espécie rasteira de emocionalismo nenhum tipo de antinomia poderá sequer ser adivinhado, principalmente se dotado de algum caráter dialético. Esse emocionalismo, que parece ter se incorporado definitivamente à nossa formação cultural, dispensa, por princípio, o menor tipo de questionamento intelectual.

M. B. D. – Vejamos este trecho inserto n’A Lavação da Burra: «Nossa disponibilidade para o outro, para o alheio, para o exterior à nossa própria configuração racial ou política, elimina, por princípio, qualquer barreira que os povos sempre mantiveram e sempre voltarão a manter. Não poderemos nos referir nem mesmo a uma possível barreira linguística por termos recebido como idioma o português. Notamos, pelo contrário, que se os alienígenas aqui são tardos em assimilar nossa linguagem, nós aprendemos magnificamente as línguas mais exóticas, com sotaques, idiotismos e o resto, embora venhamos depois a descobrir, provavelmente deslumbrados, que não sabemos ainda falar o nosso português. E quando viremos a aprendê-lo e falá-lo, se o país, que recebeu de graça a sua independência, poderá ser por dom divino, dentro de pouco tempo, haja o que houver, potência mundial?». Perante isto, e em face da matriz histórica lusa, concorda com o actual “acordo ortográfico” que consumou entre os portugueses a perda das suas consoantes mudas, entre outras descaracterizações idiomáticas impostas por directrizes políticas e académicas? 

A.M. — Referi-me, basicamente, à mania tão brasileira de imitar tudo o que vem de fora e, em especial, aquilo que houver de pior. O meu amigo, o poeta José Manuel Capêlo, costumava dizer que o complexo do brasileiro, sobretudo da classe média, é não falar inglês no lugar do português. Não consigo discordar inteiramente do nosso último acordo ortográfico, já que ele buscou conciliar pequenas diferenças existentes no português de Portugal e no do Brasil. A perda das consoantes mudas, por exemplo, na grafia das palavras portuguesas, terá o condão de evitar que nossa língua fique inteiramente muda nos grandes foros internacionais. Acho que o fato de sofrer aparentemente certas descaracterizações, do ponto de vista meramente ortográfico, não basta para comprometê-la no essencial, já que tal acordo prevê a dupla grafia para alguns vocábulos, aqui e em Portugal, além de contribuir para o fortalecimento dos laços de amizade da Comunidade dos Povos da Língua Portuguesa, bem como para ampliar a difusão dessa língua para outras partes do mundo.

M. B. D. – Também me disse que chegou a conhecer o Kabbalista de Estremoz, António Telmo. Como, quando e onde conheceu o autor de Arte Poética? 

A. M. — Conheci António Telmo por intermédio do escritor angolano Francisco Soares que, na época era professor na Universidade de Évora; e nosso encontro se estendeu de Évora, onde me foi apresentado, a Estremoz, onde residia, e finalmente, a Setúbal onde houve o lançamento de seu livro Contos, numa edição de luxo com o selo da Aríon, de Lisboa, editora então dirigida pelo meu velho e finado amigo José Manuel Capêlo. Entretanto eu já conhecia o contista, bem como o cabalista, da leitura de seu livro Le Bateleur, sobre o qual já havia escrito um artigo que lhe fiz chegar às mãos.

M.B.D. – O Ângelo chegou a entrevistar o António Telmo para a revista brasileira Encontro. Aliás, ao perguntar-lhe a distinção entre filosofia especulativa e filosofia operativa, António Telmo, salientando a última, disse: «Por operativo significava eu eficaz, capaz de nos curar da dor e de nos libertar do mal por uma espécie de encantamento, o qual eu diria transfigurante, depois de o ter ouvido a si em Évora. O encantamento é o que é próprio da poesia, que para tanto dispõe do ritmo e da imagem. O ritmo embala e adormece a alma. Ai daquele que no ritmo incorpora imagens contrárias aos impulsos do ser que se rendeu ao encanto por aspirar ao Bem e à Verdade». E os gestos, ou mais propriamente os seus gestos no meio de tudo isto? 

A. M. — António Telmo era uma figura difícil de esquecer pela rara combinação, nela existente, entre sua palavra e os jestos de que você fala: pois eles apontavam justamente para o que era menos comum nos nossos conhecidos meios literários. Para uma personalidade emblemática.

M. B. D. – No seu livro Escolha e Sobrevivência, o Ângelo é peremptório ao escrever: «Quanto à costumeira alegação de que a poesia de Antero padece de pouca imagem – como se só de imagens se fizesse a poesia -, não esqueçamos, de modo principal, que o barroquismo que lhe é subjacente, com seu timbre ibérico predominante na poesia como na prosa, quer em Portugal quer em Espanha, tanto pode assumir um aspecto cultista, como em Gôngora, por exemplo, marcado pelo excesso de hipérboles e metáforas, quanto um carácter conceptista, uma espécie de barroquismo de pensamento, encontrável tanto em Camões como em Lope de Veja, assim como na prosa magnífica dos Sermões do Padre Vieira». E por falar em imagens e no acto de conceber, Orlando Vitorino, irmão varão de António Telmo, chegou a distinguir, precisamente na esteira de José Régio, o poeta-artista que vai da imagem para o conceito do poeta-pensador que vai do conceito para a imagem. E dizia que o poeta-artista ficava muitas vezes pelo caminho por se dispensar de seguir o caminho até ao fim. Como vê, pois, esta relação entre a poesia e a filosofia? 

A.M. — Vejo a relação entre poesia e filosofia um pouco na linha em que a via Orlando Vitorino. Apenas com essa ligeira diferença: a de que a poesia, mesmo ao fazer uso do conceito, nunca deterá a função hermenêutica, que é própria da filosofia, que nada tem a ver com a poesia enquanto tal, já que esta se revela principalmente como um canto de sagração da realidade em meio às suas epifanias.

 M.B.D. – No livro supra mencionado, encontramos no princípio do mesmo uma epígrafe de Olavo de Carvalho, que diz «Sobreviver é escolher, escolher é renunciar». Como interpreta uma tal epígrafe no contexto desta sua obra? 

A. M. — Escolhi essa epígrafe de Olavo de Carvalho por acreditar que quando alguém escolhe um caminho é porque vê nele seu projecto de sobrevivência e, portanto, se sente obrigado a renunciar a tudo aquilo que faria dele se desviar.

M. B. D. – Já agora, em que circunstâncias conheceu Olavo de Carvalho e que afinidades espirituais mais o aproximam de um dos mais ilustres e significativos pensadores da cultura luso-brasileira? 

A. M. — Conheci Olavo de Carvalho no Recife, quase ao fim da década de 90, por meio de um amigo comum, o escritor Ronaldo Castro, que me fez tomar conhecimento, quando ainda era meu aluno de Filosofia, de algumas de suas obras e, entre elas, de O Imbecil Coletivo, a maior crítica cultural que eu havia lido até então de um autor brasileiro. Teria, por isso mesmo, de ser delicioso e inesquecível meu encontro com ele. Pois o que justamente dele mais me aproximou foi sua empatia filosófica pela cultura como um todo, abrangendo, inclusive, o domínio estético. Também não se deve esquecer sua enorme generosidade intelectual para com os vivos e os mortos, notadamente em sua redescoberta de nomes grandes e esquecidos como o do filósofo Mário Ferreira dos Santos.

M. B. D. – No livro intitulado Arte ou Desastre, o meu Amigo Ângelo diz com toda a razão o seguinte: «A negação dos valores, mais que qualquer outra circunstância, contribuiu para a pauperização cada vez mais acentuada de uma arte que, acostumada ao nivelamento, não apela para nenhuma linha de transcendência. Por isso, Jean Clair tem bastante razão ao registrar: “Poucas épocas como a nossa terão conhecido tal divórcio entre a pobreza das obras que produz e a inflação dos comentários que suscita”. Expressões, portanto, como arte conceitual ou não arte refletem, mais do que um raciocínio desarticulado, uma total incapacidade de perceber diferenças, como a que faz da teoria uma visão das coisas ou da arte a expressão máxima da poeisis ou da criação. Enquanto forma esquemática, como um conceito pode substituir a vitalidade emanada de uma obra de arte? Se tudo é arte, não há lugar para nenhuma escolha estética nem, menos ainda, para nenhuma renovação criativa. E quando o próprio talento, como demonstrava de maneira cabal Marcel Duchamp, detém o mesmo peso da falta de talento, como justificar, então, a premência de fazer arte e a necessidade de haver artistas?». Mas qual o porquê, a seu ver, da perda de clarividência na criação artística? 

A. M. — A perda dessa clarividência na criação artística deve-se, primeiramente, ao abandono ou à ruptura com todas as raízes éticas que, até agora, plasmaram a cultura humana: pois a ausência de ethos, quer como comportamento, quer como forma de ser, vai nos levar fatalmente à perda total das exigências superiores do espírito comprometendo, necessariamente, a ação artística, entre outras também valiosas. O nivelamento cultural, em consequência, não terá outro resultado senão a derrocada de qualquer tipo de eminência no plano cultural.

 M. B. D. – Diga-me uma coisa: há alguma cultura substancial em figuras populares brasileiras como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil? 

A. M. — À parte alguma inegável qualidade artística no plano da música popular, não passam de abalizados representantes dessa cultura de massa que veio para sufocar o que, até agora, se entendia como cultura superior. E eis o que ocorreu: o papel antes desempenhado pela poesia na nossa formação intelectual terminou inteiramente ocupado pelas letras de música que hoje enxameiam os nossos livros didáticos do atual Ensino Médio. O sujeito chega à universidade mais ignorante, porque mais pretensioso e cheio de preconceitos multiculturais, do que quando começou seu Ensino Fundamental.

 M. B. D. – À guisa de conclusão, e com base na sua obra de poesia O Inquisidor, o Ângelo revela o canto de um poeta angustiado e perplexo com o seu tempo e o seu mundo, porquanto turvos de Verdade, Beleza e Justiça. Estamos, pois, perante um Poeta do mistério e do sobrenatural? 

A. M. — O mistério maior da poesia é não sabermos, em nossa permanente perplexidade, para onde nos leva a verdadeira essência do seu canto. Porventura aquilo que não conseguimos nomear será o outro nome para o sobrenatural? 

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Data da Publicação: 
2 Setembro, 2013

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