Tobias Barreto, Pensador Político

A importância de Tobias Barreto, na história das idéias no Brasil, além do fato de ter sido, a rigor, o nosso primeiro filósofo - pois afora o eco remoto de Matias Aires nada mais tínhamos que os últimos restolhos de uma dessorada e renitente escolástica, que só poderia agradar aos espíritos tardos e rotineiros, - está em haver combatido com vigor tanto o positivismo (tão fechado às novas idéias, quanto a velha escolástica) como o ecletismo que prometia, em sua mediania, constituir-se uma espécie de justificativa retórica de todos os impasses que, por acaso, viessem atingir o já minado terreno filosófico. Dessa forma, Tobias Barreto, em sua curta e por isso bem lograda passagem pelo positivismo (depois de ter dormido também uma pequenina sesta nas estufas do ecletismo espiritualista) conseguiu apenas ingerir uma beberagem suficiente para vomitar, de uma só vez, todas as iguarias que estivessem lhe servindo de entrave ao finíssimo estômago. O positivismo apresentou, por isso, para Tobias, um duplo valor: o de lhe mostrar o sem sentido da escolástica, e do seu refugo, sobrevivente no ecletismo, e a má solução, que era a própria doutrina positiva, contra tal falta de sentido.

Quanto à vigência do positivismo, que foi além da Monarquia, penetrando na República, herdamos seu legado não só no autoritarismo que presidiu e ainda preside à nossa formação política (autoritarismo a que o lema do nosso "lábaro estrelado"- ordem e progresso - dando primazia à ordem, traz o progresso apenas como apêndice, transformando um quadrado num losango ou numa espécie de mandala achatada, quando não invertida), mas também no repúdio entranhado contra qualquer tipo de especulação que não seja dentro dos limites dum quadro, quando não retórico, pragmático. Não fora Tobias Barreto propondo a restauração de metafísica, para além dos fatos positivos da filosofia de Augusto Comte, e investindo com a mística evolucionista, contra o marasmo das nossas dominantes posições pseudo-filosóficas, talvez nunca viéssemos a contar com um pensamento brasileiro ou, mais, ainda, com uma continuidade para este mesmo pensamento.

O evolucionismo, sobretudo em seu sentido filosófico, permitiu a Tobias Barreto conceber, por igual, uma concepção transformista no plano das idéias e no plano da sociedade. Aplicando-o, primeiro ao Direito, na qualidade de jurista, e a partir de seus estudos sobre o Direito, chegando ao conceito de cultura, como contraposição à natureza, haveria Tobias de se revelar, finalmente, um verdadeiro pensador político que embasado num ideal evolutivo da sociedade, trouxesse uma nova moldura às nossas idéias, e isso se refletindo, como não poderia deixar de ser, na esfera mais rarefeita da pragmática política, como demonstraremos neste pequeno estudo sobre o pensador que ele foi dentro dos estreitos limites do nosso âmbito filosófico.

1. A partir de um discurso em mangas de camisa

É no "Discurso em Mangas de Camisa", publicado por Tobias em 1879, em Escada, Pernambuco, (precisamente quando já tinha se dado o seu rompimento com o positivismo) que encontramos a sua mais bem acabada crítica política. O próprio caráter panfletário do texto, em lugar de lhe tirar a atualidade, torna-o mais vivo, ressaltando até o elemento profético da pregação tobiniana, na forma com que os problemas lançados naquele remoto ano ainda são substancialmente os mesmos, apenas com a diferença do grau de enraizamento que sobremodo os agravou na nossa última centúria. Atualidade que irrompe do texto, sem o querermos, quando, por exemplo, ao citar o padre Lacordaire, para quem a posição mais desfavorável ao orador é quanto tem de falar a homens que comem, retruca Tobias, com a posição ainda mais desfavorável, que é "quando se fala a homens que têm fome, se não se trata dos meios de satisfazê-la, ao menos de moderá-la". Nada comparável, em termos modernos, com a radiografia do nosso país apresentada por Tobias, cujos únicos resquícios do passado são os termos corte e províncias, bastando uma mera substituição por capital da república, e estados da federação para se ter uma idéia da verdadeira situação nacional: "O que mais salta aos olhos, o que mais fere às vistas do observador, que bem se pode chamar o expoente da vida geral do país, é a falta de coesão social, o desagregamento dos indivíduos, alguma coisa que os reduz ao estado de isolamento absoluto, de átomos inorgânicos, quase podia dizer, de poeira impalpável e estéril. Entre nós, o que há de organizado, é o Estado, não é a Nação, é o governo, é a administração, por seus altos funcionários na Corte, por seus sub-rogados nas províncias, por seus ínfimos caudatários nos municípios: - não é o povo, o qual permanece amorfo e dissolvido, sem outro liame entre si, a não ser a comunhão da língua, dos maus costumes e do servilismo".

Mas o texto do "Discurso em Mangas de Camisa", - que se antecipa a dois de seus estudos mais importantes: "Sobre uma Nova Intuição do Direito", de 1881, e "Glosas Heterodoxas a um dos Motes do Dia ou Variações Anti-sociológicas", concluído em 1887 - não pretende apenas ser uma diagnose da nossa situação social, e sim uma reflexão sobre ela. Pois Tobias Barreto, nunca se atendo ao âmbito sociológico, busca entre as causas que lhe estão na base, por trás desse indiferentismo coletivo, e dessa inteira ausência de coesão por parte do povo, a organização política que sempre nos geriu como responsável, por sua vez, pela nossa feição moral: "Deste modo de viver à parte, de sentir e pensar à parte, resulta a indiferença com que olha cada um para aquilo que pessoalmente não lhe diz respeito, e enquanto não chega o seu dia, contempla impassível os tormentos alheios (...) Essa impassibilidade, que acabo de assinalar, não se revela somente por uma certa ausência de sincero amor e caridade, nas relações puramente humanas, mas também por falta de patriotismo, nas relações nacionais, pela ausência de senso político e dignidade pessoal, nos negócios locais".

O apego mitológico a certas soluções sonoras devem estar por detrás das nossas constantes ideológicas, antes multi-liberais, e agora filo ou criptomarxistas, e em ambas o cultivo palavroso mais do que uma prática elevada ao plano do social: "Refiro-me - diz Tobias - a essa mania, tão comum entre nós, de fazer efeito e conquistar a popularidade por meio de certo número de palavras místicas (eu diria antes mágicas) tanto mais sedutoras, quanto mais obscuro é o seu conteúdo, que se tornaram estereótipas nas mãos da mediocridade (...) A liberdade, esse néctar espumoso dos sonhadores políticos, que aliás agrada mais pelo cheiro, do que pelo sabor, - a república, esse fruto do paraíso, mais precioso por fora, do que por dentro, que tem casca de ouro e miolo de prata, - o povo soberano, os direitos do homem, a revolução, e todas as mais tolices sacramentais da retórica tribunícia, já perderam aos meus olhos, como frases natas para arranjar uma figura e arredondar um período, o seu antigo e celebrado encanto". Enfim, o próprio Tobias sentencia mais adiante: "A teoria é sempre franca e generosa, a prática sovina e mesquinha".

A sua análise sobre a trilogia célebre da revolução francesa - liberdade, igualdade e fraternidade - transplantada para aqui pelos nossos pregadores liberais, ao demonstrar como é conflitante em sua união os seus três elementos, pois "prova-o de sobra a revolução francesa, que tendo começado em nome da liberdade, degenerou no fanatismo da igualdade, e reduziu-se ao absurdo nas mãos de um déspota", prepara o caminho para a análise dos nossos próprios males, onde "é certo que, a despeito de todas as aparências exteriores constitucionais, a sociedade brasileira, em sua generalidade, e mais visivelmente, em particular, num ponto dado, é uma sociedade de privilégios, se não criados pela lei, criados pelos costumes, de cujos dislates a lei é cúmplice, não lhes opondo a precisa resistência. Debalde se fala de uma indistinção civil, a não serem as diferenças produzidas pelos talentos e virtudes, quando verdade é que o talento e a virtude não servem para marcar a distinção entre os indivíduos considerados como frações sociais (...) É certo que a nossa população se acha dividida não somente em classes, mas em castas".

Tobias, sobretudo ao deixar escapar a expressão indistinção civil, parece ter entendido basicamente o nosso problema enquanto nação. Quando nos diz que "a liberdade é um direito, que tende a traduzir-se no fato, um princípio de vida, uma condição de progresso e desenvolvimento", ao passo que "a liberdade entregue a si mesma, à sua própria ação, produz naturalmente a desigualdade, da mesma forma que a igualdade, tomada como princípio prático, naturalmente produz a escravidão", Tobias Barreto se mostra eqüidistante tanto do comunismo, como solução niveladora e de massa, que busca escravizar o indivíduo, quanto do individualismo de feição econômico-liberal que até hoje vem caracterizando tanto a nossa organização como a nossa formação política. A sua solução, sobretudo a partir dos seus dois estudos acima assinalados, terá de ser cultural, antes de política, para ser filosófica. Mas o antecipar-se dessa situação filosófica já se acha mais ou menos esboçado em sua crítica social, ao detectar, por exemplo, o que ele chamava o nosso caráter amorfo de nação, a nossa indistinção civil, que só poderia trazer como esperável conseqüência a nossa vocação a presas de mesquinhos tiranetes, precisamente porque ainda não nos encontramos com aquilo que se caracteriza como alma nacional. A liberdade, sendo uma conquista, só poderia ser uma conquista de todos os dias, e não algo para cultivo estéril dos "idólatras da moda", utilizando uma expressão do próprio Tobias.

Um povo que ainda não se reencontrou com a sua própria alma não poderá jamais se ter em conta de um povo livre, mas apenas escravo de particularismos da moda, presa eterna de todos os nivelamentos, e, portanto, cobaia de todos os planos igualitários, quer dos partidos, quer dos governos, quer dos sistemas econômicos. E daí a compreensível tristeza do brasileiro Tobias Barreto, mais do que nunca atualíssima, quando extravasa em seu Discurso: "A sociedade, em que vivo, não tem decerto força bastante para levar-me consigo, como um madeiro arrastado pelas águas selvagens dos nossos rios; mas eu também, por minha vez, não sou bastante forte para desviá-la do seu caminho, para fazê-la à minha imagem e semelhança; daí uma perpétua inconciliabilidade entre nós, que me faria misantropo e infeliz se a natureza não me tivesse investido de uma índole expansiva e mil vezes mais disposta ao prazer, do que à tristeza".

O comentário do professor Nelson Saldanha, em seu panorâmico ensaio, "A Escola do Recife", parece lançar uma certa luz a respeito das intenções políticas do programa de Tobias na chefia da Escola: "Felizmente, porém, grande parte do espaço intelectual e textualizante da Escola esteve voltado para os problemas nacionais. Ainda aí, Tobias deu o exemplo: Vimos atrás como entre seus estudos se encontram diversos pontos onde a realidade brasileira e o povo brasileiro são detidamente observados. Para Tobias, as soluções dos nossos problemas não deviam ser importadas, e sim tiradas da própria índole da nossa história. Por isso, clamava contra os falsos orientadores do país".

Quanto ao que dissemos, mais acima, acerca da posição política de Tobias em relação às correntes ideológicas em voga, o mesmo ensaísta assim esclarece: "Num artigo de 1864, chamado "Socialismo em Literatura", Tobias propõe aplicar o socialismo na literatura, como uma liquidação. Ali, dizia que lhe causava horror a idéia de uma "liquidação social", e era isto que lhe parecia ser o socialismo. E acrescentava: "O Instituto da Internacional é para mim a organização da loucura". E mais adiante: "Entre equilíbrio e hesitação passam estas linhas do pensamento de Tobias. Nem liberal radical, nem republicano, nem socialista, nem conservador: mas sempre radical no modo de negar o que negava". E, em outra parte: "Por outro lado, nunca aderiu ao socialismo. Num Recife ainda embebido das ressonâncias da pregação de Borges da Fonseca e das doutrinas de Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, Tobias Barreto, embora inimigo ferrenho dos professores conservadores e com um temperamento talhado para a insurreição e a rebeldia, em geral, manteve sempre uma desconfiança fundamental em relação ao socialismo. Desde logo a democracia de que falara não era o igualitarismo total. (...) Aliás, como Hermes Lima já observou, este desigualitarismo básico provinha de certa forma de darwinismo e de heackelismo, que contra toda a intenção niveladora antepunham uma imagem da seleção natural e do combate permanente como regra e como critério".

É preciso ver, entretanto, que o momento da luta, no sentido darwiniano, a que Tobias emprestava um caráter de lei de validade universal, serviu-lhe, sobretudo, para enfatizar o sentido da liberdade humana como uma conquista. Aliás, sob esse aspecto, não se pode esquecer a profunda influência que, quase à mesma época, exerceu a doutrina científica de Darwin sobre Nietzsche, fazendo com que este apelasse para um super-humanismo, como forma de superação dos humanismos tradicionais. De forma que a seleção natural vê-se explicada pelo postulado da luta pela existência, e esta luta pela existência, deixando de valorizar a igualdade, supervalorizava, ao contrário, a liberdade. Mas, nessa supervalorização, Tobias Barreto ultrapassa justamente o âmbito do mecanicismo determinístico, responsável pela desumanização da vida e dos sistemas sociais e políticos, além de, no plano específico da cultura, essa lei de concorrência vital se transfigurar na suprema luta pela superação da natureza.

Seria o caso de apelarmos, a esse respeito, para a própria indagação de Tobias Barreto: "Tudo isso não deixa bem patente que a vontade humana, sendo o princípio seletor, a causa de todos esses melhoramentos, modificações e alterações da vida social, revela por isso mesmo um caráter antinômico das necessidades e fatalidades da natureza, e que é justamente este caráter que nós entendemos, que devemos entender por liberdade?"

Paulo Mercadante e Antônio Paim, na dupla autoria do livro "Tobias Barreto na Cultura Brasileira. Uma Reavaliação", concorrem para que o problema receba o seguinte equacionamento: "Quanto a Tobias Barreto, elevou essa tensão dialética - que denominava momento da luta - à condição de princípio universal, é certo que também por influência do darwinismo, mas não apenas deste. Tanto isso é verdade que recusou qualquer transplantação da mecânica da seleção natural para o âmbito da sociedade".

O que Tobias Barreto no plano político não agüentava eram as meias medidas, os adiamentos ad infinitum de todos os problemas cruciais, por vezo de certa má consciência que parece fazer trampolim das palavras de efeito para anestesiar, por meio de promessas messiânicas, que jamais se realizam, a miséria da sociedade. Diga-se de passagem que, no plano filosófico, um certo evolucionismo, em sua instância spencerista, na rejeição dos saltos qualitativos, correlacionado com o positivismo, em sua velhaca manutenção da ordem, e em seu culto imbecil da religião da humanidade, procurando amansar as chamas insaciáveis do progresso, nada poderiam oferecer a Tobias por essa época. Daí ele dizer, com plena consciência, numa passagem do seu "Discurso em Mangas de Camisa": "Não pertenço à escola dos teóricos pacientes, que julgam o povo ainda não maduro para a liberdade. Como se fosse possível aprender a nadar sem meter-se dentro d'água, ou aprender equitação sem montar o cavalo! - Dislates iguais aos dos que querem que o povo passe por um tirocínio de liberdade, sem aliás exercê-la". Infelizmente, para nós, do legado político de Tobias Barreto, só vem se cumprindo, até hoje, esta sua observação: "a magia da parolagem, entre nós sobretudo e a despeito de tudo, não perdeu a sua influência".

2. A solução cultural: Plataforma para uma análise política

Integrante do Partido Liberal, ao qual se filiara logo após ter-se formado em Direito, havendo exercido o mandato de deputado à Assembléia Provincial, no primeiro semestre de 1879, terminou Tobias Barreto por colidir com os abolicionistas do Partido, pela má fortuna de tentar levar à prática o abolicionismo ao alforriar todos os escravos que recebera de herança, pela morte do sogro, e de ver seu ato interpretado como uma "iniquidade", pois não tinha o direito de alforriar todos os escravos. Rompendo, dessa forma, com a atividade político-partidária, Tobias Barreto acreditou que só por meio de uma transformação na ordem do pensamento vigente poderia atingir uma transformação da ordem social.

E tal transformação começou a ser efetivada por Tobias no plano de uma interpretação da cultura, sobretudo em seus ensaios "Nova Intuição do Direito" e "Variações Anti-sociológicas". E seria através do problema da cultura que Tobias Barreto haveria de vislumbrar um sentido para sua reflexão sobre o político. Ora, precisamente o monismo evolucionista de Haeckel, mais do que o de Darwin, serviu a Tobias Barreto de elemento propulsor para a higienização da atmosfera não só intelectual como política da época. O valor do sistema monístico de Haeckel para Tobias se encontraria na ênfase que aquele dava ao movimento, opondo-se, dessa forma, em seu espírito com a ordem estática e empedernida do comtismo. Mas também corrigiu, por meio da influência de Rudolf von Jhering, no plano jurídico, e de Ludwig Noiré, no plano filosófico, o mecanicismo de Haeckel, esposando um monismo de caráter teleológico, sobretudo sob a influência do primeiro, em que o jurídico, repassado de finalismo, sobrepujava o determinismo biológico da evolução darwinista e haeckeliana. Já para Ludwig Noiré, na citação do próprio Tobias, "a idéia fundamental do monismo é que o universo compõe-se de átomos inteiramente iguais, que são dotados de duas propriedades, uma interna - o sentimento - e outra externa - o movimento. Bem como os átomos, o sentimento e o movimento, que lhes são inerentes, são também originariamente iguais. Destas duas propriedades originárias, e inseparáveis, resulta o desenvolvimento, ou antes, o que se chama desenvolvimento é a soma, ou o produto de ambas: de modo que todo e qualquer desenvolvimento é redutível a uma modificação do movimento, mas também, e, ao mesmo tempo, todo e qualquer desenvolvimento, é redutível a uma modificação de sentimento".

Dessa forma, negando o determinismo mecanicista e sem "negar a liberdade sob o pretexto de que todas as ações humanas são motivadas", Tobias Barreto demonstra que "para o monismo filosófico, o movimento e o sentimento sendo insuperáveis, dá-se entre eles somente uma questão de grau: onde mais domina o movimento, aparece então a causa efficiens; onde mais o sentimento, prepondera também a causa finalis". Tobias, portanto, ao contrapor a intuição monística à intuição mecânica do mundo, abre campo para o domínio metafísico. E isso porque: "O mundo não é só uma cadeia de por quês, como pretende o materialismo acanhado, mas ainda uma cadeia, uma série de para quês, de fins ou de alvos, que reciprocamente se apóiam, se limitam, que saem uns dos outros. A intuição mecânica porém não quer saber do que vai além da simples concatenação de causas e efeitos". Daí tal monismo, segundo o próprio Tobias, não ser incompatível também com uma teleologia, pois que "não tem horror às causas finais".

Segundo Nelson Saldanha, "o esforço da Escola de Tobias, a começar dos artigos deste próprio, em combater o ecletismo e o espiritualismo, era uma oposição às ontologias tradicionais e era uma adesão genérica ao naturalismo". Mas quando o ensaísta nos fala dessa adesão genérica, deixa implícito que tal naturalismo nunca se constituiria em algo limitativo, principalmente para uma figura como a do fundador deste movimento importantíssimo para o pensamento brasileiro que foi a Escola do Recife. Ainda de acordo com sua informação, citando Luís Delgado, a diluição e o apagamento do espiritualismo é que tornaram insatisfeito um espírito como o de Tobias, que exigiu "certezas mais claras e mais firmes".

"Tobias - continua o ensaísta - começou escrevendo sobre religião e teologia. Não talvez por método, por achar que a análise das crenças deve anteceder à das idéias ou coisa parecida, mas por ter tido logo cedo a motivação polêmica para tanto: atacar as posições teológicas era atacar as posições assentes. Foi o que fez Tobias, em sua rápida passagem pelo positivismo, aceitando como "lei" a superação da forma teológica de pensar. Mas quando passada a sua fase positivista (que se mudaria depois num antipositivismo enragé) abraçou o monismo, algum interesse pela religião seguiu tendo e, como alguém disse, a posição de religiosidade que o monismo possuía deve ter ajudado Tobias a aceitá-lo, já que Tobias, repelindo as religiões assentes e os credos oficiais, manteve em toda a vida algumas tendências místicas guardadas e atuantes". E nisso, segundo o mesmo autor, de "A Escola do Recife", seguiu Espinoza, Feuerbach, Strauss, Marx, ao utilizar a crítica da religião como passo inicial a toda crítica de idéias. Outra coisa - acrescentamos - não pretendeu também fazer o grande Frederico Nietzsche.

Ora, a crítica da religião de Tobias antecipa, desse modo, a sua visão de cultura. E é justamente em sua visão de cultura que o elemento místico, que sempre o acompanhou, parece latejar em toda a sua vitalidade. O Homem, encarado numa perspectiva de homo cultor, mais que como homo faber, transformado em contrafação de uma mesquinha civilização tecnocêntrica; mais que homo sociologicus, homem residual e não plasmador dos valores de uma verdadeira cultura, - é precisamente o da antropologia que fundamenta a concepção cultural de Tobias Barreto.

Por isso "uma das teses de Tobias, merecedora do mais acentuado realce, é a relativa à antítese por ele sustentada entre Natureza e Cultura, bem como sua tentativa de resolver a aporia no quadro das concepções fundamentais do monismo naturalista", como diz logo na introdução do livro dos professores Paulo Mercadante a Antônio Paim, "Tobias Barreto na Cultura Brasileira", o filósofo Miguel Reale.

Quando Tobias nos diz que "a sociedade é uma série de combates contra o geral combate pela existência, é um conjunto de seleções artísticas, que melhoram, modificam, alteram a grande lei da seleção natural", apresenta uma grande intuição: a de que esse homo cultor, sendo um ser de vontade, - ainda que, condicionado por sua existência social, não dispensar a mediação dos motivos influenciadores - insere, por isso mesmo, nas teias complicadas do tecido da sociedade que o plasmou, o élan transubstanciador de sua vontade criadora para permitir a exteriorização, de um plano não apenas utópico, mas possível de concretizar-se no real, de tudo aquilo que faz nele ser a liberdade em luta com a necessidade.

Além disso, existe neste seu pensamento a mais completa rejeição do determinismo. Porque, colocando o homem no âmbito da liberdade, atribui-lhe uma dimensão metafísica - em que a cultura passa a ser uma criação do homem, e, conseqüentemente, este se vê libertado da determinação em que o sociologismo de Comte, por exemplo, se comprazia em mantê-lo, bem como o mecanicismo também contido no evolucionismo de Spencer, Haeckel e Darwin.

Passa a ser, então, a cultura "o sistema de forças combatentes contra o próprio combate pela vida" em que o homem, independente da natureza, possui "a capacidade de conceber um fim e dirigir para ele as próprias ações". E essa idéia de finalidade, entroncando-se no destino do homem, será suficiente para envolvê-lo de uma espécie de halo religioso, ainda que não seja o religioso das provas da existência de Deus, mas das provas da existência do homem. Pois o próprio Tobias nunca achou que Deus precisasse de provas para o seu existir.

Desse modo, assim como a crítica da religião lhe pode servir de ponto de partida para a sua visão de cultura, também sua visão de cultura servirá, identicamente, de ponto de partida para a sua visão do político. E a liberdade, por isso mesmo, será a entidade, para o filósofo sergipano, menos adaptável ao culto idolátrico do homem. De igual forma que a razão, erigida em ídolo para explicação suficiente de todas as coisas, como entidade usurpadora do plano do antigo Deus teológico, parece se negar, como um caminho progressivo do homem para o Absoluto, qual se fora inteiramente independente de sua própria consciência - também a liberdade, colocada como deusa, far-nos-á lembrar sempre a sentença de Tobias Barreto: "A razão é a deusa da filosofalha, como a liberdade é a deusa da canalha".

3. Considerações finais

A escolha do monismo por Tobias Barreto, correspondia a uma necessidade de unidade, própria das almas religiosas, e nisto ele foi coerente em deduzir daquele todas as suas conseqüências positivas e, também, rejeitar naquele todos os aspectos que lhe pareceram contrários a um lugar privilegiado para o homem no universo. Não deixou de ser a forma, por ele escolhida, para traçar a sua própria via metafísica. E substituir, num certo sentido, uma velha por uma nova teologia.

Não viu, entretanto, Tobias Barreto que o seu monismo, mesmo corrigido do determinismo no plano da cultura, não passou de uma sociologia da natureza, causalista como todas as sociologias, e jamais finalista, como ele pretendia que o seu o fosse. Ainda assim, como salientaram Paulo Mercadante e Antônio Paim, "o mérito imorredouro do autor dos Estudos Alemães está em ter visto o problema como um problema filosófico e não sociológico, não compreendendo, infelizmente, que a sua formulação era a mais cabal condenação das doutrinas monistas que abraçara, após reconhecer a impossibilidade de colocar completamente a vida espiritual sob o causalismo da natureza".

Acrescentamos: é por ter visto o problema como um problema filosófico que sua intuição permanece, e se torna cada vez mais atual para além dos quadros do seu tempo. Retomada a metafísica pelo plano da cultura, foi igualmente retomada a velha religiosidade, agora, para ele, melhor estribada pela confiança no homem como verdadeiro criador do seu destino.

O político, por sua vez, encontrou seu lugar. Pois sendo o homem, como já preceituava o velho Aristóteles "um animal político" e, para o próprio Tobias, um "animal que se doma a si mesmo", a sua verdadeira obra da cultura consistirá em alterar o estado natural das coisas, aperfeiçoando-o, porque "sem uma transformação de dentro para fora, sem uma substituição da selvageria do homem natural pela nobreza do homem social, não há propriamente cultura". A relação estabelecida entre o homo cultor e o processo evolutivo da sociedade é clara por parte de Tobias: "Antes de tudo o conceito de cultura é mais amplo que o de civilização. Um povo civilizado não é ainda ipso facto um povo culto. A civilização se caracteriza por traços que representam mais o lado exterior do que o lado íntimo da cultura". A amplitude, atribuída por Tobias, ao conceito de cultura, aponta, conseqüentemente, para um devenir que ultrapassa os simples planos civilizatórios, para que o homem possa se realizar a si mesmo e, se cultivando em tal realização, aperfeiçôe e reforme simultaneamente a sociedade.

E essa preocupação ético-política, em sentido também amplo, de Tobias Barreto, parece transpirar destas palavras: "A mesma necessidade que levou o homem a indagar as causas geradoras do universo, o impeliu também para a pesquisa de regras ou de princípios diretores de vida social". E ainda: "pode-se mesmo afirmar que a ética precedeu a genética, no sentido de que, bem antes que os espíritos reduzissem à forma científica os seus conhecimentos sobre a natureza, já havia uns vislumbres de ciência prática. A época dos Anaxágoras e dos Demócritos veio depois da dos Cleóbulos e dos Tales. A sabedoria gnômica dos sete sábios antecedeu às especulações metafísicas das escolas gregas. As sentenças ou máximas, que se lhes atribui, são induções baseadas na observação dos fatos e relações sociais".

Mondolfo e Werner Jaeger, depois, chegarão ao mesmo resultado de Tobias, ao demonstrarem que o problema antropológico serviu de base ao problema cosmológico: as preocupações humanas, os traços antropomórficos se refletindo nas visões dos primeiros fisiólogos. Mondolfo, com efeito, diz ao falar do pensamento grego: "A primeira reflexão sobre a natureza apoia-se e une-se à reflexão sobre o mundo humano, que deve tê-la precedido para poder fornecer-lhe os próprios quadros e conceitos diretivos". Da mesma forma Werner Jaeger na "Paidéia", mostra que o conceito de legalidade aplicado no cosmos pelos filósofos pré-socráticos adveio da noção de ordenamento jurídico da polis. A visão cósmica surgiu depois de uma visão sobre o Homem, ainda que esta última não apresentasse nenhum embasamento teórico, como o da investigação dos físicos, mas apenas prático.

Tobias Barreto, em suma, procurando constituir antropologicamente as bases de onde pudesse ter seu ponto de partida um pensamento brasileiro deixou, inquestionavelmente, através do magistério de uma obra, sob tantos aspectos, fragmentária, também os melhores elementos para uma reflexão política e social da nossa realidade, que se constituem, por isso mesmo, em antecipações de uma reflexão mais geral para um pensar filosófico que transponha fronteiras meramente nacionais.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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