Reflexões sobre a Matéria da Arte

(À margem da filosofia estética de Evaldo Coutinho)

A referência mais remota sobre a matéria da arte encontramos em Aristóteles no capítulo I da Poética, quando ao falar da epopéia, da poesia trágica e da comédia, deixou assim consignado: "há, entre esses gêneros, três diferenças: seus meios não são os mesmos, nem os objetos que imitam, nem a maneira de os imitar". São justamente os meios de que cada obra faz uso - sua matéria - que constituem uma das linhas de reflexão sobre a arte traçadas pelo filósofo Evaldo Coutinho.

 

Mas falar de Evaldo Coutinho é entrar no território singular de um pensador, não só único no país, porém de uma filosofia vazada numa forma barroca, sem similar no gênero em qualquer época enquanto expressão de um pensamento que, inclusive, considera os sistemas filosóficos, entre as obras de arte, numa posição, portanto, equivalente à pintura, à música e à literatura. Com efeito professa Evaldo Coutinho: "É na obra de arte que a intuição se efetiva, que o sentimento das coisas se mostra em busca de adesões, entendendo-se nesse explícito mister as artes propriamente ditas e mais os sistemas filosóficos, que também são obras de arte, do mesmo modo que estas são também filosofias".

Dessa forma a velha e renhida luta, entre a poesia e a filosofia, que recua até aos pensadores gregos da antigüidade notadamente a Platão, se converte numa reconciliação que dialeticamente faz a arte participar da filosofia e a filosofia da arte; o que é um problema, que apenas intuído mais modernamente em Schopenhauer e Nietzsche - cujos sistemas filosóficos se constituem em verdadeiras estéticas - só Evaldo Coutinho encontrou uma nova solução.

Muitos estão lembrados do pensador romeno Cioran, em seu pungente adeus à filosofia, em que ele, em certo momento da vida a renega em caráter definitivo, reacendendo a velha luta entre a arte e a filosofia, e, tomando, então, o partido da primeira: "A originalidade dos filósofos se reduz a inventar termos. Como só há três ou quatro atitudes ante o mundo - e mais ou menos outras tantas maneiras de morrer - as nuanças que as diversificam e as multiplicam só dependem da escolha de vocábulos, desprovidos de todo alcance metafísico. Afundamos em um universo pleonástico onde as intuições e as réplicas se equivalem".

Evaldo Coutinho, além de destruir a relação de discórdia entre a arte e a filosofia, reabilita a arte e a irmana com a filosofia e responde, talvez sem o saber, à tremenda crítica de Cioran a esta última, ao postular para a arte uma intuição não diversa da intuição filosófica: "Sobressaindo-se a intuição como a substância da obra de arte, presente em toda sua extensão, em todo seu decurso, pode-se dela afirmar que, no fundo, sempre é tautológica, os seus valores a se perfazerem no papel de sinônimos, infiltrados que são pelo sentido fundamental, que lhes impregna o criador. Este sentido fundamental, a intuição, é ubíquo em todas as partes da obra, e o observador com a devida sensibilidade, mesmo em presença de um trecho que se despregara do conjunto, haverá de dizer que nele ainda palpita o significado em que estivera".

Numa filosofia em que o homem é assumido, artisticamente, em sua singularidade, como súmula de todo o universo que nasce e morre com ele, a arte assume um papel especial, sobretudo a literatura: "Da contingência de ser introspectiva a obra literária, segue-se a correlação com o pensamento de que o meu repertório, também introspectivo, se condiciona, inelutavelmente, ao prazo da minha vida; por conseqüência, ele, o meu repertório, sinônimo do universo existente, real, empírico, ao assumir a efemeridade de seu portador, no caso a minha personalidade, tomando por isso a acepção a que denominei de fisionômica, se equipara à condição ideativa que possui a obra de literatura: a de interiorizar-se na mente do leitor. A contemporaneidade fisionômica de uma pessoa, em qualquer lugar, consiste em algo mais que apreender as coisas que lhe são devassáveis no momento: as que radicaram em outras épocas, em número incomensurável, elas igualmente se situam em posição coeva, transpostas em termos de memoração ou de condizente imaginativa".

Num dos capítulos de O lugar de todos os lugares, "A metáfora da lâmpada", lemos esta página de ressonâncias misteriosas: "Mas, quando reflito sobre o meu pensamento básico, e isto se verifica sempre que releio uma página e outra de A ordem fisionômica, advém-me a ideação de que a vida de cada um - evidenciando-se a minha em particular - é o continente absoluto, no interior do qual os conteúdos se lhe filiam como pertences sob exclusividade única. Apreciá-los, discernir acerca de suas existências, representa um exercício que é homologador da importância cósmica desse mesmo continente". Página que se enriquece, mais adiante, com a imagem da lâmpada: "O meu ser equipara-se à lâmpada que, ao acender-se, traz à existência visual os objetos que até esse minuto permaneciam inexistentes para o eventual contemplador; apagada a lâmpada, as coisas voltam à anterior e perecente obscuridade".

A ênfase, portanto, que Evaldo Coutinho vai colocar sobre a matéria da arte é perfeitamente coerente, em seu sistema estético-filosófico, com a singularidade que cada obra deve emitir enquanto portadora de uma intuição que só se resolve na autonomia de cada arte e na individualidade de cada artista. E essa intuição que acompanhou toda a sua obra, desde o nascedouro, o filósofo nos mostra que ela surgiu de sua própria experiência existencial, ainda na infância. "Em vez de uma literatura de documentação analítica, de uma literatura procuradamente acidental, propus-me ao desígnio de algo que, acredito, excedeu as possibilidades de inteira realização: manter subentendida no curso de A Ordem Fisionômica a frase que eu ouvira na infância, qual fosse a de que o mundo se acaba para quem morre; tal foi a sedimentação que ela formou em meu espírito que não pude evitar as digressões, as especulações que partiam dela - a coisa simples - viga inicial de toda a minha obra".

É em O espaço da arquitetura, livro publicado depois de escrito o primeiro de A ordem fisionômica, que a matéria da arte encontra tratamento aprofundado sob o conceito de autonomia do gênero artístico: "Afora a autonomia da arte em relação a outras atividades do espírito, há que ressaltar a autonomia de cada tipo de arte em relação a outro: esta ordem de autonomia tem na matéria, com que se efetiva a criação, a base que mantém e norteia a complexidade digressiva a propósito da respectiva arte. É difícil esquecer a matéria quando se pretende caracterizar o fenômeno artístico, ela representando a unidade mais presente toda vez que surge a necessidade de comparações, analogias, para maior discernimento da especulação estética".

O seu empenho de precisar ou fixar uma matéria para o cinema - a imagem em preto e branco, e em movimento sucessivo - ou para a arquitetura - o vão ou o espaço - não encontrável em outra espécie de arte, veio a ser o modo que Evaldo Coutinho descobriu para salientar aqueles valores que, numa arte, se distinguem dos de outra arte: "Com efeito, o método estético pressupõe a autonomia da arte, e, mais ainda, a autonomia do gênero de arte; nem se entenderia como acertado promover no âmbito estético, um tipo de indisciplina que forçosamente imporia, na questão de valores de uma e de outra arte, a simbiose equivalente à mistura de díspares atividades do espírito. Cada matéria apresenta uma natureza de ser e de aparecer que se distancia da natureza de outra; cada matéria inclui em sua qualidade elementos que não se repartem em outras, e além disso origina e fomenta uns dados que são intransferíveis dela, que cumprem a missão em virtude de partirem da própria matéria, operando-se relacionamentos que devem ser protegidos com a permanência e exclusividade do meio que os gerou".

A insistência sobre a matéria da arte que não se distingue da sua acidentalidade, - sobretudo nas artes empíricas em relação às artes ideais, para utilizarmos uma das múltiplas conceituações evaldianas - denota a preocupação do filósofo com o fato de a intuição artística, inseparável de sua matéria - assim como a forma é inseparável de seu conteúdo - nem sempre apresentar as necessárias condições de exteriorizar-se de todo: "Esta espécie de coparticipação se produz em face da acidentalidade da obra artística. Entende-se por esta a contingência de a intuição jamais dispor, para exteriorizar-se, de matéria que se permita corresponder sem lacunas, ao intento do criador, que, portanto, se limita a oferecer, em parte, a perspectiva da intuição, sendo esta, a rigor, um segredo privativo de seu dono. O registro dos graus de acidentalidade em cada obra, redunda ser um dos valores da crítica, assunto muito propício ao método estético".

Essa acidentalidade não deixa de apresentar uma indissolúvel correlação com a acidentalidade do próprio indivíduo artístico enquanto demiurgo ou existenciador de toda a realidade; a desproporcionalidade, em suma, entre sua intuição - enquanto ser em constante preparação para a morte e a do próprio repertório das coisas que ele fez viver - e a matéria em que ela vai se exercer: "Toda a carreira artística talvez que se possa definir como o esforço seqüenciado para vencer essa acidentalidade, tão vivo é o desejo do autor em comunicar a inteira perspectiva de sua intuição. Mercê da restrição da matéria, da desproporcionalidade entre os recursos de seus valores e o denso da sua essência intuitiva, a obra de arte ressente-se, para o criador, de deixar às ocultas o mais que ela, a matéria, não alcança refletir; na esperança, quando muito, de o espectador, de o crítico de equivalente sensibilidade, descortinar o restante, diminuindo os efeitos da acidentalidade com o fito de se ver à luz, enfim, a substância de seu universo".

A matéria da arte depende, fundamentalmente, de poder da intuição que a anima, quer seja contida, quer seja liberada; a liberada prestando-se melhor, como no barroco e no gótico, - se ficarmos somente na arquitetura - para domar a acidentalidade do percurso artístico, por predispor o criador a uma exploração mais profunda das virtualidades de sua matéria.

Daí Evaldo Coutinho insistir na coerência da intuição artística, no sentido da organização dos valores envolvidos na matéria estética: "Ordinariamente os verdadeiros artistas - em número pequeno se comparável à vala comum, ao mercado de ofertas que claramente se inferioriza em acidentalidade apenas habilidosa - lidam com a sua intuição de maneira a, com ela, impregnar, segundo os ditames de uma lógica íntima para cada obra, os valores da matéria que têm à sua disposição".

A intuição, para esse pensador de "um solipsismo sem exclusão", segundo suas próprias palavras, não podendo ser contraditória em si mesma, por sua própria necessidade de revelar a ordem fisionômica na qual se inscreve o artista, pois é o criador a base de sua própria criação, e não uma realidade externa a ele, e à qual venha a aderir sem nenhuma ressonância interior: "O criador possui uma só visão do universo, um exclusivo sentimento que lhe é fiel em toda sua vida, em certos casos reduzível a um tema único, em outros, repartível em subtemas; mas enquanto artista, ele procede de maneira que em mais de uma obra, sem repetição possível, venha a exteriorizar-se essa mesma intuição que, assim, é sempre a mesma, sendo todavia "diferente" em cada amostra. O artista, nessa conjuntura, nada comete senão assegurar, a cada uma de suas obras, a autonomia de que ela deve acobertar-se, no final todas elas constituindo a série tautológica, a extensão da personalidade do artista".

Evaldo Coutinho, para quem o mundo é literário, faz da representação uma qualidade que nasce e morre com o pensador ou o artista, e, conseqüentemente, em sua existência paralela, exerce uma tal função simbolizadora que dispensa, na ordem fisionômica (ou no sistema filosófico) em que insere, quaisquer considerações sobre niilismo, solipsismo ou ateísmo. Mesmo porque a arte não nos falando mais que de aparência, e sendo essa aparência tão sugestionadora, que não se consegue atinar até que ponto nossas representações são ou não são mais fiéis que aquilo que se convencionou chamar de realidade - não sabemos determinar os motivos reais dessa influência sobre a nossa vida.

As representações exigem, em sua matéria, uma intuição que as faça ultrapassar as acidentalidades que costumam permear o curso móvel e tumultuado da arte, cabendo ao artista assegurar permanência a um mundo que nasce com ele e com ele desaparece. Embora entre a vizinhança cronológica e a vizinhança espiritual, haja de permanecer a última, através da presença do crítico de coparticipação, que, principalmente como artista, saberá descobrir, por afinidades que só ele pode perceber, aquilo que pertence à ordem da arte para além das contemporaneidades transitórias.

É bastante correta, sob esse aspecto, a posição de Evaldo Coutinho acerca do conceito equívoco da contemporaneidade: "A categoria da contemporaneidade geralmente afeta o descortino da apreciação; mas, além desse óbvio reconhecimento, dá-se que ela, no tocante à arte, nunca se institui em própria e inatacável síntese; antes se apresenta com aspectos fertilmente desarmônicos e de modo que, para o alcance de sentido uno, há de se ter em consideração o cotejo das contemporaneidades e não contemporaneidades, em urdidura em que as intuições e suas aparências se inscrevem em termos de aproximação, de contiguidade à revelia do tempo".

No caso do próprio Evaldo Coutinho - cujo sistema estético-filosófico possui uma estrutura barroca, na própria forma literária, - o conceito de contemporaneidade, tal como percebido, pelos críticos do nivelamento, tão comuns em todas as épocas, na certa não seria suficiente para situá-lo no tempo, e isso para a felicidade dele; em compensação, a incompreensão e o silêncio, face à genialidade de sua concepção, apenas retardam seu mais completo reconhecimento.

Mas ele próprio, Evaldo Coutinho, sabe perfeitamente situar-se, à margem da esterilidade mental dos que se arrogam árbitros da modernidade do pensamento: "Sinto-me entre os barrocos, tanto no motivo cosmogônico em que se inspirou a obra, quanto no processo de elaborá-la. A vizinhança espiritual, e não cronológica, sempre me pareceu a mais conveniente à localização com que se capitulam as intuições desse gênero, em possível historiografia".

Essa incapacidade de discriminar valores em cada tipo de arte se acha normalmente indissociada da dificuldade de romper o vicioso círculo epocal. Só as coisas mais óbvias, à força de serem continuamente citadas e repetidas, conseguem chamar a atenção da maioria dos espíritos. Isso faz pressupor, antes de tudo, que só o artista ciente possua meios de distinguir o que realmente pode fazer parte de uma verdadeira história de arte.

A visão estética, por isso, não pode estar separada de uma visão de conhecimento, de uma vez que é pelo conhecimento que as coisas passam a existir, pelo menos no sentido do verbo francês connaître: nascer com. Evaldo Coutinho, ao achar o conhecimento existenciador, faz do objeto um ícone desse conhecimento, que existe a partir dele: "O conhecimento é existenciador e a objetividade é iconológica. Em verdade, quando apreendo uma coisa até então por mim ignorada, proporciono-lhe o ser e o estar que se não verificariam no caso de ela não ter vindo ao meu conhecimento. Dou-lhe, por conseguinte, a existência, e logo ela se inculca deste significado: subordina-se existencialmente a mim. Assume, portanto, o papel de ícone, de imagem irrevogavelmente inserida em mim, e ungida de uma significação que me pertence, que parte de mim. Sou existenciador na medida em que o universo se afirma e se clareia em virtude de minha particular existência".

A importância de valorizar a matéria da arte está em correlação direta com a necessidade de perenização da própria arte considerada em sua existência. As limitações de muitas obras às exigências das modas e dos tempos são geralmente satisfatórias para garantir os seus próprios funerais, porque as matérias que as formam se vêem adstritas a equivocidade de base que debilitam sua liberdade de exercício em normas e formas repetitivas.

A rendição ao documental sempre foi, e sempre será, inimiga de qualquer meta artística. A mania de ser atual a qualquer custo desatualiza, de início, qualquer empreendimento que não aspire superar o tempo de sua execução: mesmo porque todas as concepções obedecem a intuições mais ou menos originárias, que presidem, desde o seu surgimento, o itinerário de uma vida e de uma vocação e - por extensão - a perpetuidade da própria arte.

Outra coisa tão perigosa à arte, como a mania documental, está em aceitar as cores, os sons e as palavras da tribo sem possibilidade de alteração, como se o mundo dos significados que, em última análise, residem no sujeito humano, fosse algo para todo o sempre explorado, e os próprios objetos não exigissem, em sua mobilidade viva perante o mesmo sujeito, expressões cada vez mais próximas de uma verdadeira correspondência com o Real, tal como o concebe o homem.

O desapreço pela matéria da arte, sem levar em conta sua acidentalidade, conduz principalmente ao descalabro axiológico da estética, enquanto disciplina filosófica atenta aos valores que irrompem das manifestações artísticas. O estético e o inestético passam a ter o mesmo peso e a intuição original, intransferível de artista para artista, vê-se desconsiderada a troco das mais arrepiantes improvisações armadas às custas do que é valioso, e a serviço do que é atual, pelo simples fato de ser atual. E isso ocorre, com freqüência, em períodos de barbárie como este que atravessamos, com a perda de todas as referências que nos permitiam a conquista de novos âmbitos para a criação humana.

Em livro publicado depois de O espaço da arquitetura, especialmente sobre o cinema, e intitulado "A imagem autônoma", Evaldo Coutinho patenteia, na relação entre literatura e cinema, como a mesma história veiculada pelas duas artes, torna-se diversa pela própria diversidade da matéria utilizada: "Por tudo isso, a incidência da especulação filosófica, deve também repousar na autonomia do gênero enquanto concretizado por matéria própria, sendo importante estabelecer que a mesma história, imaginada pelo autor, não se prestará em grau de idêntico êxito quanto ao mérito artístico, à técnica do cinema e à técnica da literatura; segundo o seu criador seja cineasta ou literato, segue-se a ímpar materialização dessa história, inoculando-se nela os requisitos, os caracteres da entidade que a tornou passível de comunicação com o público. Dir-se-á então que a história em si mesma não se valoriza a ponto de impor, no julgamento estético, a sua presença determinante, competindo esse decisivo papel à encarnação do assunto, da história que assim passa a valer em identidade com a escolhida matéria".

Com o abastardamento da literatura pelo cinema, veio abastardar-se a própria literatura: a maioria do público costuma, em nossos dias, procurar mais a história pela história do que o significado, geralmente simbólico, que ela parece encarnar. Com isso a maior parte da matéria da literatura terminou por desinteressar mesmo àqueles que encontravam nos livros uma forma de recreio tanto lúdico quanto inteligente.

A música degenerou em uivos e ruídos, e certos equipamentos eletrônicos, como os sintetizadores, produtores artificiais de sons, desautorados de qualquer inspiração individual, ocupam a primazia antes reservada ao trabalho de composição. A poesia, por sua vez, degenerou em letrismo, e muitas vezes uma letra em si mesma insustentável de uma música comercial passa, inclusive, a influenciar um maior número de pessoas que nunca tiveram acesso à poesia escrita - tanto erudita quanto popular - mas confundem tais letras com verdadeiras composições poéticas, embora sejam incapazes de ler a poesia em qualquer original.

Tudo isso contribuindo para a inartisticidade do ser, já que os sucedâneos das verdadeiras matérias artísticas assoberbaram o trono antes pertencente às artes que aquelas evocavam. E é por entendermos que o papel da filosofia, assim como o da poesia, é de fazer o homem readquirir a memória perdida das coisas - e Platão mantém toda a atualidade sobre esta questão - que não temos dificuldade, tal como o mestre Evaldo Coutinho, de considerá-la uma arte, mesmo porque, como arte de viver, a filosofia é antes de tudo uma sabedoria.

E como a sua leitura requer perícia, disciplina, dignidade e contemplação - como um texto de arte - é que a filosofia estética de Evaldo Coutinho nos passa uma idéia mais abrangente que a do solipsismo: a auscultação do Ser em sua verdade primordial, a qual reside no indivíduo. E como só o indivíduo nasce e morre - mesmo que, para muitos, o todo persista - a morte do indivíduo, sobretudo do ponto de vista artístico, vem a constituir-se também na morte do próprio Ser na história.

Por isso concluímos esta reflexão com o intróito do seu belíssimo livro, A Artisticidade do Ser, que serve de remate à sua genial obra filosófica: "Por mais resistentes e perpetuáveis que sejam as coisas, elas se fatalizam à efêmera duração: a de minha vida consciente. Reportando-me à idade do universo, em vez de referir-me à sua cursividade autônoma, prefiro dizer que ele não possui idade própria, que encerra tantas idades quantas são as consciências que o patenteiam. O Ser tem a idade de quem existe. Assim, o meu repertório consiste em acumular dentro de si, e atendendo ao padrão humano, o universo de todas as idades. Por último, em derradeira instância, a idade do Ser se confunde com a minha idade. Sou o contemporâneo absoluto de todo o Ser, e em face dessa perspectiva me reconheço o existenciador de tudo que me registra a consciência".

Autor: 
Ângelo Monteiro

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