O Duplo e a sua Repercussão numa Antropologia Poética

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Contra a idéia de situar Júlio Cortázar nos limites de uma literatura continental, a da nossa América, - mas mostrando que, além de todo exotismo, tão querido ao espírito colonizador dos europeus, ao lançar sua visão sobre qualquer aspecto ou produto da nossa cultura, o escritor argentino pertence, "sem perda das profundas raízes portenhas", ao processo literário universal - Leônidas Câmara, em O Duplo Registro na ficção de Cortázar, empreende não só uma exegese de vasta compreensão sobre a obra de um artista como também retira dos seus textos importantíssimas conseqüências para a própria filosofia da literatura. Um dos poucos estudiosos de Estética, de que temos notícia no país, Leônidas Câmara, ao situar Cortázar nos quadros da moderna ficção, não perde de vista nem o texto, em seu valor autônomo, nem tampouco sua causalidade própria como meio específico de conhecimento do humano.

A idéia do duplo, em sua riqueza e complexidade, é encarada por ele sob vários aspectos: quer sob o plano da razão, quer sob o impulso de uma via inconsciente ou instintiva. É vista, sobretudo, como o ser que, não se contendo em seus próprios limites, sente necessidade de projetar-se em outro, sem que esse outro não passe de outro polo do duplo que está sob o império de uma constelação. Pois "as estrelas individuais não sabem que fazem parte de uma constelação maior", para usar uma sentença misteriosa de Cocteau. A ambigüidade de Cortázar nada tem a ver com o dualismo lógico que tanto marcou o Ocidente, porém ele postula outro tipo de dualismo: aquele que rompe a lógica habitual para fazer da realidade uma interrogação permanente para além do viés objetivo e do simplesmente dado.

Dessa forma Leônidas Câmara interpreta um dos problemas suscitados pela ficção cortazariana: "Distinga-se, de início, entre o duplo como problema de interesse psicológico na sua elementaridade: - desdobramento da pessoa, projeção múltipla da personalidade, daquela outra noção mais rica do ser duplo, que repercute na vida da arte desde uma origem filosófica; assim o duplo como instrumento de apreensão racional da realidade". Por isso ele pode ser tido como romancista-filósofo na medida em que, sem abandono do enredo, consegue transformá-lo em veículo de questionamento da própria existência dos personagens face às figuras que eles representam inconscientemente como parte de uma constelação, ou como se o destino de cada um só pudesse ser justificado sob um todo maior que o englobasse. Leônidas Câmara faz notar que "na ambivalência das duas vidas é que reside a dramaticidade da existência e a razão da procura". Em suma: na duplicidade do homem não contente consigo mesmo é onde poderemos encontrar o suporte de sua verdadeira transcendência. Há um homem que age e outro que observa; há um ator e um espectador dentro de nós e fora de nós. Como nos diz o próprio Cortázar: "à parte dos nossos destinos individuais, somos partes de figuras que desconhecemos".

Segundo a visão de Leônidas Câmara o duplo registro é um modo de superação do tempo e do espaço e, conseqüentemente, a transformação da realidade em fantasia, desde que não se identifique a fantasia como uma ilusão alienadora mas antes como um instrumento de transformação contínua do homem. Implícita na estética de Leônidas Câmara, em sua análise de Júlio Cortázar, está principalmente sua descoberta de uma antropologia poética que possa servir de justificação para a presença da arte no itinerário humano. E suas palavras são claras a esse respeito: "Conquista a produção de Cortázar o direito a uma nova visão estrutural da vida, mas a estrutura se contém na arte e no seu bojo, compondo a interação dos personagens, da sua ação, dos seus destinos cruzados na tessitura do tapete persa. Assim a "figura" teria o seu tempo próprio, o tempo da ficção". Mesmo porque o ensaísta nos havia antes demonstrado que "Cortázar persegue nas suas melhores ficções, especialmente em Las Armas Secretas e Rayuela, um sentido transcendente ao próprio destino de uma personagem na sua ação privada (e cada personagem tem seu duplo)".

É notável, sobretudo, a diferença que Leônidas Câmara estabelece entre jogar e representar: no jogar o personagem é símbolo da própria ação, transcendendo a circunstância da realidade representada; no representar ele vive apenas a ação que o autor achou de lhe conferir. E são as ambigüidades do jogo, segundo ele, que contribui para "verticalizar a existência do indivíduo através do destino e da reflexão". A própria diferença entre a idéia de jogar e rpresentar traz para o bojo de uma antropologia poética a dilacerante duplicidade que freqüenta o artista ao espelhar o drama que, como homem, carrega sem poder dele nunca desvencilhar-se a não ser numa síntese que resolva a realidade em fantasia e, dessa forma, a recupere, nisso consistindo sua mais perfeita liberdade. E, sob esse aspecto, Leônidas Câmara contribuiu em O Duplo Registro na ficção de Cortázar não só para que tomemos conhecimento de um grande artista, e da repercussão da sua arte para uma estética e uma antropologia e, sim, também para que libertemos sua ficção - ou toda ficção - de qualquer rótulo estranho ao universo real dos seus problemas.

Pois sendo a fantasia o objetivo maior da arte, realismo fantástico é um rótulo tão medíocre como qualquer outro. E esta é outra lição de Leônidas Câmara em seu grande ensaio: "O grande erro crítico, na interpretação de Cortázar, tanto quanto de outros autores lançados na etiqueta "realismo fantástico", está no uso indiscriminado dessa expressão e talvez por isso a base surrealista e dadaísta de Cortázar seja por muitos acentuada; realismo seria um ótimo termo para classificar o autor que controlasse a sua visão fantástica da realidade, mas o que ocorre é que a realidade só é fantástica na medida em que se desconvenciona ou foge à ordem que julgamos adequada para entendê-la".

* CÂMARA, Leônidas. O Duplo Registro na ficção de Cortázar. Rio de janeiro: J. Olympio; Recife: FUNDARPE, 1983.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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