Permanências e Mudanças na História e na Cultura

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Humanismo e História: Problemas de Teoria da Cultura reúne uma série de estudos de Nelson Saldanha - de datas diversas mas ligados por uma profunda e conseqüente unidade - onde a tônica primacial consiste num desvelamento dos diversos sentidos e fases porque pode passar a cultura. Humanista de largo espectro, que praticamente se debruçou sobre todos os problemas suscitados pelas mais diversas ciências humanas, - sendo num extremo um estudioso do Direito, e no outro extremo um poeta de inegáveis méritos, - Nelson Saldanha tem como liame fundamental do seu espírito poliédrico a indagação filosófica independente e pessoal para além do jargão que atualmente nivela a maioria dos que se entregam consciente ou inconscientemente ao filosofar.

O pensamento filosófico de Nelson Saldanha se acha eqüidistante tanto do dogmatismo quanto do relativismo, ainda que tenda mais para o último, com as devidas correções e reajustes doutrinários, como nos faz ver num dos mais luminosos estudos do seu livro: "o relativismo extremo que seja corrosivo e instabilizante aparece como um caso limite: fala-se aqui é do relativismo de base criticista ou historicista".

Sob esse aspecto, pela abertura que oferece em face a certas ortodoxias contemporâneas, dada uma visão saudavelmente relativizadora, Humanismo e História é um livro raro na bibliografia filosófica brasileira. Das incursões de Tobias Barreto, no passado, e de Miguel Reale no presente, existem pouquíssimas obras de caráter mais pioneiro para compreensão dos problemas da cultura, - inclusive dos ligados à Cultura brasileira - como esta que temos diante dos olhos. Ela principia por uma análise do dualismo entre o saber científico-natural e o saber científico-cultural, reportando-se aos séculos mais significativos em que determinadas aporias se colocaram, historicamente, na mesa da cultura, para serem resolvidas. Se antes era um saber de fé a opor-se a um saber laico, hoje nos defrontamos com a tecnologia em conflito com as exigências dos mais diversos humanismos. Refletindo sobre o saber e a tradição humanística, o autor nos mostra o compromisso que se estabelece entre o intelecto e a missão civilizadora, bem como sobre o valor do legado histórico, em que "o passado existe não como coisa morta, ruína ou ossada, mas como pulsação prévia, preparação continuada para o presente". Ao debater sobre a cultura popular e a cultura de massa, aponta o primitivismo da primeira, fundando o ethos de um conceito mais amplo de cultura, - e mostrando que esta não se pode realizar sem valores, nos leva a ver na segunda um sub-produto do "grande espetáculo da padronização geral e do assemelhamento do mundo". A historicidade é analisada em função da exemplaridade, a atualidade em face da permanência, no sentido de por em ato um legado diante das necessidades mais pressurosas de um presente dado. Em seguida nos fala da exemplaridade histórica dos clássicos, em que nos demonstra, de maneira inspirada, que "era fazendo o seu "futuro" que os gregos fizeram a sua história, hoje obviamente aparecente como "passado". Mostra-nos, ainda, que "a linguagem da lógica, como a da metafísica e da epistemologia, tem seu aspecto da universalidade e de "sistematicidade" acrescentado ou realçado, pela impressão provinda da presença de elementos temática expressionalmente clássicos - principalmente gregos e inclusive em seus nomes - dentro de sua terminologia (...). Representatividade e influência formam o que chamamos exemplaridade".

Nelson Saldanha, levando em conta a herança recebida especificamente pela nossa cultura, não poderia deixar de aprofundar-se, como fez, com grande beleza e energia literárias, sobre a exemplaridade histórica de Camões, onde nos desperta para a seguinte observação: "A exemplaridade sua, e a de sua obra, são como que a conseqüência histórica do complexo de exemplos que ele próprio, como poeta e humanista, magistralmente recolheu e genialmente utilizou".

Ao lado de dois originalíssimos estudos, que são "Épocas, povos , cidades" e "Do Maniqueísmo à Tipologia", detem-se em comparações entre a história "geral" e "local", onde nos fala com sabedoria de "uma superposição de histórias, numa pluralidade de níveis que, sob certo prisma, se desenrolam paralelamente". Em "Épocas, Povos e Cidades" não lhe falta, inclusive, um notável poder plástico de linguagem, por entre as mais intrincadas sutilezas de pensamento, como neste trecho inicial: "A imagem que cada pessoa minimamente informada possui da história e do mapa-mundi corresponde a uma configuração de porções de tempos e lugares, onde entram, de forma variável, povos, cidades, paisagens e fronteiras bem como eventos, fachadas e bandeiras."

Como um autor latino e brasileiro, não se esqueceu de meditar sobre a cultura e a filosofia na América Latina, apresentando reflexões de muito peso como estas: "A América Latina é, e não é Ocidente. É Ocidente pela linguagem, por umas tantas matrizes culturais, porém não o é por certas limitações e diferenças - ainda à parte do fato de possuir um berço geocultural próprio". Por outro lado não deixa também de nos prevenir: "É necessário, todavia, não substancializar demasiado: não fazer do "ser" latino-americano uma categoria ontológica". Depois de examinar a sociologia praticada no Brasil, e o dilema hoje vivido pela sociedade entre tecnocracia e humanismo, somado ao mais novo dilema, depois de vinte anos de ditadura, de "reorganização das convivências", Nelson Saldanha remata e culmina o seu Humanismo e História, entre irônico e sério, com algumas notas - bastante agudas - para uma teoria da Notoriedade, onde o azar, a política e outros fatores podem contribuir para realçar certos nomes em detrimento de outros, quando asteróides conseguem ocasionalmente brilhar mais que estrelas de maior grandeza, as quais, muitas vezes, passam a vida esquecidas do próprio brilho. É o caso de refletirmos sobre o destino de pensador do próprio Nelson Saldanha que, com independência e dignidade, prossegue o seu caminho semeando livros nem sempre com a admiração merecida, mas que serão cedo ou tarde descobertos, como este Humanismo e História, em sua verdadeira identidade.

* SALDANHA, Nelson. Humanismo e História: Problemas de Teoria da Cultura. Rio de Janeiro: J. Olympio - Recife: FUNDARPE, 1983.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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