Caminhos do Filosofar

Como se pode depreender do título, os diversos caminhos do filosofar correspondem às diferentes vias de se chegar ao Ser. A filósofa MARIA DO CARMO TAVARES DE MIRANDA - autora de livros admiráveis como "Diálogo e Meditação do Viandante" e "O Ser da Matéria" - para quem a filosofia é basicamente metafísica (pois consiste em velar e desvelar a Presença sob todos os modos em que ela se manifesta) é uma das grandes clareiras nesta lúgubre floresta - sem quase mais árvores nem sombras - em que se debatem homens e bichos, não mais irmanados, e sim confundidos numa solidão despojada de raízes em que transformou a contemporaneidade do mundo. Máquinas e máquinas enxameiam os caminhos, sem permitir o diálogo entre os homens, também metamorfoseados em robôs. A idolatria, condenada desde o milenar Decálogo, hoje domina toda a Terra. E tudo isso nos convoca, paradoxalmente, para o retorno a um filosofar que seja caminho para o Ser.

O ponto de partida heiddegeriano da filósofa (tão patente neste "Caminhos do Filosofar") nos ajuda a compreender que é na volta ao Ser, - depois do grande obscurecimento empreendido por uma certa tradição filosófica que desembocou, por força de uma enfatização desmedida dos entes, na planetarização tecnológica - que reside a grande questão na filosofia nos dias de hoje. Não se pode compreender o homem, nem as coisas, enquanto entes, quando não se os compreende no Ser. É para ele que devem convergir toda investigação, toda busca, toda solicitude e, até mesmo, toda a epifania, sem que nenhuma redução, nem mesmo a antropológica, venha impossibilitar essa destinação de todas as coisas ao Ser.

O desejo de amizade à Sabedoria deve constituir-se no impulso, que sem ignorar o saber racional, não o tenha como único e exclusivo, porque a maioria das formas de conhecer, não passando de mediações, são, ao mesmo tempo, métodos através dos quais os entes, em sua ascese, manifestam sua natureza no movimento de tensão para o Ser. A filosofia se erigindo em pathos unificador das Semelhanças e das Diferenças - porque é sobretudo Revelação - visa cada presente (manifestação da Presença) como forma-vista que reenvia sempre à forma-fundamento: A Presença mesma. Cada ente, implicando em concentração mas também em difusão dessa Presença - e sendo essa Presença inesgotável - apresenta uma correlação com o seu logos, visto que cada coisa, ao manifestar a Presença, portadora, como é, de uma natureza, possui uma forma particular de expressar o Logos que, segundo Heráclito, é comum.

Com diferenças em relação ao pensar Heiddegeriano, a sua concepção de tempo se orienta para a quadrimensionalidade - e esta será talvez uma de suas contribuições à hermenêutica que deve a Heiddeger sua origem - porque, em vez de uma visão triádica, como no filósofo alemão, ela visualiza no presente uma parte mensurável mas também uma totalidade que envolve o passado, que nele se continua, e o futuro, que nele já devém. Sua visão do tempo - mais próxima de Agostinho do "presente do presente, presente do passado e presente do futuro" - se distancia tanto da concepção judaico-cristã, que o vê como um contínuo progresso, (com aspectos negativos, quando levado às suas últimas conseqüências práticas, com esquecimento de sua dimensão escatológica) quanto da visão grega, que o concebe apenas de maneira cíclica, (com suas repercussões até mesmo no plano da história, quando encarada sob um ponto de vista meramente cronológico).

Se bem entendo o pensamento da filósofa, o tempo é, simultaneamente, cíclico (por sempre retornar à circularidade do Ser, como atualidade contínua do eterno no contingente e, portanto, duração) e linear e progressivo (no seu abrir-se, mais do que ao mito e à utopia, à escatologia e à profecia). O tempo é apresentado como vemos, numa síntese superior das duas concepções.

A filósofa assim se coloca face ao problema: "Que será o eterno senão tempo, modalidade dimensional do que é ? Tempo é o presentear da Presença - Ser - que se re-vela". A filósofa realça a relação entre tempo e ser, mas a realça mostrando-nos que somos com o tempo, e não no tempo; nascemos, morremos e, também, ressuscitamos com o tempo. O tempo não é envoltório do Ser. Portanto o Ser, caminhando com o tempo, rejeita, igualmente, o que for ultrapassado, como o que for de progressismo irresponsável e sem medida, pois não sendo prisioneiro da historicidade, dele irrompe o próprio futuro em pressentimento, temor, esperança e profecia, conforme um impulso historial que não se resolve num prolongamento de categorias históricas previsíveis dentro de uma concatenação geralmente de ordem lógica.

O homem, existente por excelência, pode se experienciar em todas as direções: porquanto não havendo uma única realidade, a imaginação, a fantasia, o êxtase, a arte, a religião, fazem parte da sua permanente redescoberta. A invenção e a criação marcam o ser-de-liberdade do homem, que sem desconhecer, em sua existência, a alteridade, a temporalidade e a historialidade, constrói o seu próprio futuro, no diálogo, sempre tocado de intensidade, da razão, assim como da fé, com algo real, e não com fórmulas e esquematismos sem vida. A existência do homem, como das coisas, exigindo segundo Maria do Carmo Tavares de Miranda, um contínuo recriar-se, deixa sempre espaço para algo mais.

A filósofa sabe que "tudo que existe faz o seu caminho". Daí a existência do homem dilatar-se para as transfigurações que nimbam a Presença que perpassa e traspassa todos os presentes. A Graça se desprende da atmosfera religiosa do cristianismo e passa a impregnar o devir e a perseverança do Ser. E assim o cristianismo penetra na filosofia sem teologizá-la e, dessa forma, a pensadora considerando o caráter histórico do homem, - cuja realidade não deve ser reduzida nem ao materialismo nem ao espiritualismo, - por ser mistério e transcendência - prepara as condições para uma hermenêutica que não é estranha à experiência do Sagrado, como uma das formas essenciais de comunicação deste ser-de-relação que é o homem, em sua passagem dos transcendentes para o Transcendente ou a Alteridade absoluta.

Unidade entre o um e o múltiplo, filosofia entendida como o recolhimento dos diversos modos de conhecer a Realidade, mas principalmente como êxtase e mistério, - por não se fechar num conservantismo retardado nem se perder em progressismos vazios, - o pensar de Maria do Carmo Tavares de Miranda é, antes de tudo, um pensar originário, porque seu ponto de chegada é "a pátria do pensar fundante".

Contaminado eu mesmo pelo seu filosofar - como discípulo em tantos dos seus ensinamentos - nunca poderei esquecer seus olhos carregados do brilho do pensamento, nos arrastando, ao lado da palavra inspirada, como num vórtice maravilhoso, para Sócrates e Platão e Aristóteles e Agostinho e Tomás de Aquino e Kant e Nietzsche. E por tão contaminado estar da filosofia, - especialmente quando também atormentado por essa outra mulher, tão ou mais exigente e possessiva, que é a poesia, - como haverei de esquecer, mesmo entre as dores do exílio, o pressentimento da alegria desta pátria originária, porque fundante, que a nossa grande mestra nos infundiu, como abençoado veneno, para sempre ?

* MIRANDA, Maria do Carmo Tavares de Miranda. Caminhos do Filosofar. Fundação de Cultura Cidade do Recife, Recife, 1991.

Autor: 
Ângelo Monteiro

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.