A Filosofia do Cão ou o Cão da Filosofia

"O homem que não foi desde o berço dotado por uma fada do espírito do descontentamento com tudo o que existe nunca chegará à descoberta do novo”.

Richard Wagner

Descartes inicia o seu “Discurso do Método” dizendo que o bom senso, ou a razão, é a coisa mais bem repartida deste mundo. Não deixa de haver aí uma suma ironia ou um sumo paradoxo: se é bem repartida não colhemos, em tantos milênios, os seus melhores frutos, sobretudo quando sabemos desgraçadamente, que o mundo não é, nem nunca foi, para todo mundo; se é mal repartida, será sempre uma minoria de espíritos que fará uso do bem pensar, quando vemos os mais desastrados, os mais impenitentes, os mais ambiciosos dirigirem o espetáculo deste mundo a que o próprio Descartes se refere desta forma: “nada mais fiz do que andar a rolar, de um lado para o outro, por este mundo, buscando ser mais espectador do que ator em todas as comédias que nele se apresentam”. Só que ninguém escapa de ser ator neste mundo, mesmo que o não queira, em meio não só às suas comédias, mas às mais freqüentes tragédias que nele se desenrolam, já que aquilo que vivemos e sentimos e pensamos pertence ao domínio da verossimilhança. Tudo não passa de uma grande mímesis: e isso não só na arte e na religião, mas também na filosofia que é, sobretudo, a expressão do drama das idéias que jamais se ajustam à ordem da realidade. Já que o viver está sempre em contradição com o pensar, e os nossos sonhos mais fecundos nunca conseguem materializar-se fora da mente que os sonhou.

Apesar de Descartes, na sua, aliás, fundada crítica aos escolásticos, dizer que “a filosofia propicia meio de falar com verossimilhança sobre todas as coisas, e de se fazer admirar por aqueles que são menos sábios”, não podemos conceber nenhuma verdade que não esteja em correspondência com a Verdade, em maiúsculo, que ignoramos e que, portanto, não seja mais que verossimilhança.

Pois nem todas as verdades são verdades da geometria. E aqui me vêm à mente estes dois versos de Tagore: “Se fechas as portas a todos os erros/a verdade também ficará de fora”. Não há verdades isentas de erro. Assim como não há erros isentos de verdade. A realidade é um círculo fechado e a fantasia constitui, talvez, a melhor forma de suportá-la. Se fecharmos as comportas da fantasia, a realidade se tornará mais estreita que qualquer dos pressupostos que temos sobre ela. Por que sucumbirmos todos ao principio de realidade, fazendo da razão mísera cadela a serviço do nada? Por que confundirmos a verdade com a realidade mais desvalida, quando um poeta como T. S. Eliot percebeu a tragédia do homem ao dizer: “o ser humano não suporta muita realidade” ?.

Descartes aconselha a modificar antes os nossos desejos do que a ordem do mundo. Talvez porque muitos dos nossos desejos sejam artificiais, criados em grande parte pelos artífices habituais da ordem do mundo. (E aqui coloquemos, entre parênteses, os aspectos ontológicos pressupostos pelo filósofo para ficarmos apenas com os aspectos mais visíveis dessa ordem).

Por outro lado, poderíamos indagar: por que modificar os nossos desejos, sob a alegação cartesiana de que somente os nossos pensamentos estão inteiramente em nosso poder, se os nossos desejos mais legítimos constituem praticamente o único sentido da nossa vida ao passo que os pensamentos jamais poderiam substituir, em sua fixidez imaterial, tudo aquilo que nos move os ânimos e as vontades, não em direção às idéias claras e distintas, que em nada abalam as nossas almas, mas a objetos concretos, ainda que tragicamente passageiros, que despertam nossa curiosidade e nosso fervor?

Sabemos, pela própria experiência, da impossibilidade a que estamos todos condenados de modificar a ordem do mundo. Mas que motivação restaria a um pensador, a um artista, a um religioso, se cada um destes se resignasse com a ordem estabelecida das coisas como se todos nós tivéssemos que nos curvar ante uma fatalidade inflexível? A nossa tragédia, bem como a nossa glória, está justamente em ver este mundo como um campo de batalha em que usamos todas as armas na certeza de que tal batalha jamais terá fim. Só não haveria sentido em aceitar uma vergonhosa capitulação partindo do princípio de que todos sairiam vencidos dessa luta.

Parece que o bom senso, ou a razão, que sempre aconselhou fugirmos do nosso destino, por considerar a luta do homem contra ele algo de fatalmente inglório, detém, entre outros privilégios, o de dispor sempre de uma máscara para os papéis costumeiramente aceitos pelos homens. E esses papéis sociais, solenes ou grotescos, geralmente substituem a verdade das ações humanas, por mascará-las, em vez de manifestá-las. As posturas passam a valer mais que a substância real das ações, que praticamente inexistem. Essa obediência aos papéis é uma abdicação da vida às exigências do bom senso ou da razão. Como as pessoas preferem conformar-se ao modelo do que a existir, é sempre um ato de extremada loucura seguir alguém suas próprias inclinações quando previamente se estabelece que a ordem das coisas se confunde com a ordem da razão e que as aspirações humanas nada valem quando não se submetem à numerosa ditadura dos “bem pensantes” ainda que não bem vividos ética e esteticamente.

Baudelaire tem toda razão ao comentar: “Alfredo de Vigny escreveu um livro para demonstrar que o lugar do poeta não é nem numa república, nem numa monarquia absoluta, nem numa monarquia constitucional. E ninguém lhe contestou”. Sem dúvida o lugar do poeta, assim como do filósofo, é o lugar do homem. E o lugar do homem não pode ser medido pelo tamanho das camisas de força que as convenções do momento, ou o arbítrio astuto dos forjadores de jaulas e gaiolas, se apressam em costurar. A grande dificuldade é que o número de pastores sempre foi menor que o de rebanhos. Para cada homem que faz da vida um problema, ou uma canção, existem milhões que não saberiam subsistir fora do calor propiciado pelo rebanho.

A maior tirania é a tirania da opinião - e esta infelizmente é dominante entre nós, com o crescimento espúrio dos meios de comunicação de massa - e contra essa tirania que se tornou onímoda e incontrastável nada melhor que rever cada vez mais a noção grega de doxa como a maior inimiga do conhecimento da beleza e do conhecimento da verdade. E é como sabedoria, e não como ciência, que a filosofia pode ocupar o lugar hoje tomado pela doxa em todas as latitudes. Pois a filosofia - no itinerário da sua verossimilhança, como reflexo ou aspiração da Verdade - será, enquanto sabedoria de vida, uma forma heróica de resistência contra a realidade.

A lição antiga dos cínicos ao se identificarem com os cães, no seu despojamento radical das convenções mais ridículas que sempre interessaram a meio mundo, na certa nos poderá ser útil como lembrete de advertência para tarefas mais nobre e mais inadiáveis.

Mesmo que saibamos da dificuldade, sempre repetida, de alterar a ordem do mundo, não poderemos nos furtar à necessidade de lhe resistir. A aceitação da realidade como dogma de uma fé dessacralizada só poderá interessar a eunucos satisfeitos com sua própria impotência. E a filosofia, como uma forma de arte, ou uma educação investigadora da inteligência e da sensibilidade, mais do que uma ciência cega de seu próprio destino, será sempre uma resistência contra um mundo que parece impossível mudar mas, por isso mesmo, ela permanece um espaço aberto para as utopias enquanto situações sempre fora do lugar. Fernando Pessoa já dizia que “a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto”.

Porque não havendo neste mundo lugar para o homem, ele há de, continuamente, forçar seu espírito contra uma realidade que pretende suborná-lo, anulá-lo, aniquilá-lo. E por isso a filosofia deve ser vista como um sonho que pode ser vivido interiormente porém jamais realizado, a não ser por uma alma irmã à do filósofo. Como ocorre com a arte, ou como sucede com a vigência de todos os valores. Pois que vêm a ser o amor, a bondade, a justiça, senão criação dos padres fundadores, dos poetas e dos filósofos, assim como os sistemas filosóficos, as obras epigramáticas e místicas, os poemas e as fórmulas rituais da prece? Os verdadeiros sonhos contaminam a poucos, pois a multidão só é amiga da contrafação e da bastardia de todos os sonhos. E a filosofia, como toda a arte, é um sonho de poucos.

Se não houver ainda, ou nunca, espaço para o coletivo - preocupação dos pensadores e filósofos de todos os tempos - que reste o indivíduo como uma incógnita aspirando a encontrar o seu sentido entre os sem-sentidos que procuram acercá-lo e assediá-lo de todos os lados, mas sem abdicar do combate por sua própria sobrevivência psíquica contra a opacidade material do mundo, como um cão em sua fidelidade ao Ser. O cão, que Platão considerou, na República, um verdadeiro filósofo pela capacidade de distinguir a figura do inimigo e do amigo baseado no conhecimento e na ignorância de um e de outro. Mesmo porque - acrescentamos - há ignorâncias que servem mais à Vida que certos conhecimentos mais próprios para tecnocratas, banqueiros e políticos venais que para o homem singular e concreto. E a filosofia do cão nos ajudará a encontrar, em cada um de nós, o cão da filosofia.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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