Olavo de Carvalho e a Redescoberta de Aristóteles

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Autor de uma obra que já merece um estudo mais acurado, - ultrapassando uma dezena de títulos, entre os quais se destacam A Nova Era e a Revolução Cultural, Os Gêneros Literários: seus Fundamentos Metafísicos, O Jardim das Aflições e O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho empreende em seu Aristóteles em Nova Perspectiva, um esforço hermenêutico sem paralelo, tanto no Brasil como no exterior, sobre a unidade das ciências do discurso no Estagirita. Partindo apenas de umas breves indicações de Avicena e Santo Tomás de Aquino, opera uma verdadeira reconstituição do Organon aristotélico, até então sobrecarregado, historicamente, de interpretações equivocadas ou contraditórias.

Quantas vezes nos perguntamos como compreender o papel privilegiado atribuído à Poesia por Aristóteles considerando-a mais filosófica e de caráter mais elevado que a História, diante da tendência dominante de considerar a lógica, tomada na qualidade de propedêutica, como a chave completa do seu sistema? Como conciliar o caráter dialético de sua argumentação com a rigidez esquemática com que pretenderam por tanto tempo encarcerar seu pensamento?

 

Tais perguntas felizmente encontram respostas satisfatórias nesta obra que aponta com extrema clareza os encaminhamentos necessários, inclusive de natureza histórico-filológica, para compreensão dessa idéia, que não seria jamais captada, em sua inteireza, ao reduzir-se o Organon aristotélico apenas à lógica, e sem levar em conta nem a poética, nem a retórica, e até mesmo a dialética. Olavo de Carvalho demonstra, com argumentos sólidos, a unidade da teoria aristotélica, tanto do ponto de vista epistemológico como metafísico, subjacente às quatro modalidades de discurso: a poética, a retórica, a dialética e a lógica, e em sua demonstração consegue situar, em novas bases, não só a visão do Organon enquanto tal, mas a concepção geral de um pensamento ao mesmo tempo aporético e sistemático porque, antes de tudo, orgânico.

 

A teoria dos Quatro discursos, colhida no que ficou oculto ou subentendido no pensamento aristotélico, é o elemento chave dessa hermenêutica. E a prova desse argumento está no fato de Aristóteles ser encarado ora como racionalista, ora como empirista, e tudo isso por conta de uma visão diminuída do seu alcance filosófico, em virtude de preconceitos sedimentados no Ocidente a respeito do papel da imaginação na poética, como de resto nas próprias origens do conhecimento, em favor da demonstração apodíctica, ou do desprezo pela verossimilhança da retórica em comparação com o grau de certeza da lógica. A estreiteza de um ponto de vista meramente lógico do discurso veio amesquinhar até o papel da dialética (por lidar com o domínio das probabilidades) na produção do conhecimento.

Mostrando-nos que, entre os Quatro discursos, há mais uma diferença de grau do que de natureza, Olavo de Carvalho reestrutura o Organon dentro dos quadros de uma história da cultura caracterizada pela “presença das quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria)”. Dessa forma “os quatro conceitos básicos são relativos uns aos outros; não se concebe o verossímil fora do possível, nem este sem confronto com o razoável, e assim por diante. A conseqüência disso é tão óbvia que chega a ser espantoso que quase ninguém a tenha percebido: as quatro ciências são inseparáveis, tomadas isoladamente não fazem nenhum sentido. O que as define e diferencia não são quatro conjuntos isoláveis de caracteres formais, porém quatro possíveis atitudes humanas ante o discurso, quatro motivos humanos para falar e ouvir: o homem discursa para abrir a imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para examinar criticamente a base das crenças que fundamentam suas resoluções, ou para explorar as conseqüências e prolongamentos de juízos já admitidos como absolutamente verdadeiros, construindo com eles o edifício do saber científico”.

 

O conhecimento humano, sendo orgânico, não se faz desligado das amarras do mundo sensível, nem desamparado da luz dos primeiros princípios, já que em Aristóteles sua gnosiologia é inseparável de sua antropologia: por isso a unidade do conhecimento é um dado por excelência, e como ela se reencontra na multiplicidade dos seres sensíveis bem como na diversidade das formas de captá-los, a teoria dos Quatro discursos, desentranhada por Olavo de Carvalho na “circularidade dinâmica” por ele apontada no sistema aristotélico, é fundamental para compreensão dessa mesma unidade. Pois o que torna particularmente rica a obra de Aristóteles é o número de interpretações que ela propicia, e que não propiciaria caso fosse unívoca e unilateral sua visão do conhecimento.

 

Se a riqueza dessa obra advém de sua concepção de que o Ser pode ser dito de vários modos, a compreensão do Organon - sobretudo após a recuperação da poética e da retórica - implica no desvelamento de toda uma metafísica implícita ou subentendida em seu sistema. São quatro, portanto, as formas assumidas pelo Logos ou palavra do Ser: o Logos pronuncia o Ser através da imaginação, alargando o campo do possível; chega a uma decisão prática, fundado na eloqüência da verossimilhança; se questiona num jogo de múltiplas hipóteses ou probabilidades e se afirma, finalmente, na universalidade dos seus princípios. Mas o Logos é retroativo e prospectivo ao mesmo tempo, por visar o Ser e não apenas o ente; por aspirar à universalidade mas sem perder de vista a singularidade.

Aristóteles, unindo o céu das essências platônicas com a terra dos seres singulares e sensíveis busca, através da unidade do diverso, mais do que uma episteme, uma sabedoria metafísica que ascendendo do plano mitopoético à retórica das decisões humanas e destas à contraposição dialética das probabilidades até às afirmações universais dos primeiros princípios, nos leve, finalmente, ao conhecimento do conhecimento.

 

Dessa forma, Olavo de Carvalho, em Aristóteles em nova perspectiva, consegue reabilitar Aristóteles de todos os equívocos que aderiram historicamente à longa e acidentada trajetória de seu pensamento, fazendo-nos redescobrir o sabor verdadeiro de sua filosofia ou sabedoria do Ser.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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