Miguel de Unamuno: Dom Quixote e a Filosofia

Miguel de Unamuno, nascido em 1864, em Bilbao, e morto em 1936, em Salamanca, na Espanha, não foi apenas o antecipador em um decênio de existencialismo, como registra Frederico Sciacca, em sua História da Filosofia, apesar de ter estudado e conhecido Kierkegaard antes dos outros, conforme reafirma o mesmo Sciacca, em outra de suas obras Filosofia Hoy. Não foi apenas o autor de milhares de páginas publicadas ou inéditas em praticamente todos os gêneros - o romance, a novela, a poesia, o teatro e, sobretudo o ensaio filosófico - com o fôlego criador dos grandes nomes da Patrística, do Renascimento e do Século de Ouro espanhol. “Mas também viveu em Copenhague com Kierkegaard, em Londres com Dickens e em Paris com Pascal, porque Unamuno, leitor voraz, lia para recriar uma tensão vital com o autor distante em tempo e espaço através do texto escrito”, como assinala Mário Valdés, na introdução a uma de suas novelas, San Manuel Bueno, Mártir. Dele diz Giovanni Papini, em um dos seus Retratos Estrangeiros: “Este Reitor da Universidade de Salamanca é, ao mesmo tempo, poeta lírico e trágico, ensaísta múltiplo, sociólogo de fibra e filósofo sem medo”. No belíssimo Epitáfio para Miguel de Unamuno, Papini chega a lhe atribuir um papel similar, na Espanha, ao de Fichte, na Alemanha; Carlyle na Inglaterra; Emerson, na América do Norte e Tolstoi na Rússia. O grande Papini diz mais do grande Unamuno, ao considerá-lo “um dos mais austeros despertadores de espíritos que há hoje no mundo”. Mais uma vez citando Papini, prefiro ficar com este seu depoimento, ao falar da obra que ele reputa a maior de Unamuno, Vida de Dom Quijote y Sancho: “Os imortais criam seres imortais, mas os filhos dos poetas se nutrem do sangue e do espírito das gerações. Dom Quixote não pertence unicamente a Cervantes, pertence, por reconhecimento de legitimidade, também a Unamuno”.

Falarei, portanto, de Unamuno, e, ao invocar seu nome, estarei invocando o próprio Dom Quixote no ninho sempre incandescente da Filosofia. Pois sua Vida de Don Quijote y Sancho é das suas obras talvez a que melhor espelhe o sentido grego de luta (Agon) identificado etimologicamente ao equivalente castelhano Agonía, como ele nos faz chamar a atenção no prólogo à edição espanhola de sua obra “La Agonía del Cristianismo”. O primeiro traço curioso, a ser ressaltado na Vida de Don Quijote y Sancho, é o fato de comparar o personagem e as ações de Dom Quixote, cavaleiro andante da Mancha, (que ele considera independentemente de Cervantes e até anterior a ele), durante todo o tempo e todo texto do livro, à personalidade e às ações do seu conterrâneo basco, o Cavaleiro da Fé, Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. As ações de um ele compagina sempre com as ações do outro. A começar pela compleição física de ambos. Dom Quixote era pobre como consta no original de Cervantes e também no livro de Unamuno, “de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amante da caça”. De onde se depreende, segundo o filósofo basco, que era de temperamento colérico, em que predominavam o ardor e a secura ao mesmo tempo. De Santo Inácio, de quem convoca o testemunho do Padre Rivadeneira, seu biógrafo, nos faz constar, segundo o capítulo V da biografia do Santo, que era muito ardente de temperamento e muito colérico, ainda que, ao se santificar, conseguisse por fim dominar a cólera, ficando apenas com “o vigor e o brio que ela costuma dar, e que eram necessários para a execução das coisas que tratava”.

Dom Quixote, por ver-se mergulhado na leitura dos livros de Cavalaria, fez-se Cavaleiro Andante; Santo Inácio, depois de ferido no cerco de Pamplona, e depois de, no leito de convalescente, ter esgotado todo o acervo de livros de cavalaria, ao começar a perlustrar algumas vidas de santos, não antes de uma irritada resistência, passa a visualizar, militar que era, o canário daquelas vidas à luz da Cavalaria: se imagina então um Cavaleiro Andante da Fé e já principia a conceber uma milícia celestial na terra: a Companhia de Jesus.

 

Ambos secos de carne mas entusiastas de espírito e afirmativos em suas decisões, resolveram mudar, inteiramente conversos, o rumo de suas vidas. Dom Quixote, sem “dar parte a ninguém de sua intenção, e sem que ninguém o visse, uma manhã, antes de romper o dia, se armou de todas as suas armas, subiu sobre Rocinante... e pela porta falsa de um curral, saiu ao campo com grande contentamento e alvoroço de ver com quanta felicidade havia dado princípio ao seu bom desejo”. Santo Inácio de Loyola, que segundo o Padre Rivadeneira, havia procurado em sua fase juvenil “avantajar-se sobre todos os seus iguais e alcançar fama de homem valoroso, e honra e glória militar”, depois de ler a vida de Jesus e dos santos, começou “a mudar o coração e querer imitar e fazer o que lia”. E assim uma manhã, sem fazer caso dos conselhos dos irmãos, “pôs-se a caminho acompanhado de seus criados” e empreendeu sua aventura em Cristo, pondo, “todo o seu cuidado e inclinação em fazer coisas grandes e muito difíceis... e isto não por outra razão senão porque os Santos que ele havia tomado como modelos e exemplos haviam seguido por este caminho”. Resolvido Dom Quixote a fazer-se armar cavaleiro do que primeiro que topasse”, se aquietou e prosseguiu o seu caminho, sem levar outro senão aquele que seu cavalo queria, crendo que naquilo consistia a força de suas aventuras”. Também Santo Inácio, como Dom Quixote cavalgando sobre Rocinante, se deixou levar pela inspiração de sua cavalgadura, como no conhecido episódio do encontro com o herege que ousou blasfemar o nome da Bem-Aventurada Virgem Maria. A mula o livrou de matar o herege, mesmo porque, já convertido, não lhe ficava bem aplicar tal castigo, mesmo que parecesse justo...

 

Dom Quixote, como sabemos, sagrou-se cavaleiro por um vendeiro burlão que, brandindo uma caderneta de venda, fingia salmodiar um manual ritualístico de cavalaria. Logo a seguir à sagração velou armas, durante uma certa parte da noite, num grande curral junto à venda, sob a luz da lua, lançando louvores à nunca assaz louvada Dona Dulcinéia de Toboso. Também Santo Inácio, na véspera de Natal de 1522, velou suas armas junto ao altar de Nossa Senhora de Monte Serrat, como nos diz o relato de sua vida.

 

Mas até agora não falamos em Sancho, o escudeiro de Dom Quixote. Quanto a Santo Inácio, a sua Ordem cresceu em toda a terra; não teve apenas um Sancho, como Dom Quixote, entretanto essa mesma Ordem que ele criou contou sempre com um número, bem ou mal proporcionado, tanto de Quixotes como de Sanchos ao longo de sua história. Comemora, justamente neste ano de 1990 do nascimento do Salvador, 450 anos.

 

Mas quem é Sancho? Sancho é a razão vitalizada, assim como Dom Quixote é a vida em luta, ou em agonia, com a razão. Para entendermos a relação entre Dom Quixote e Sancho é necessário partir do pressuposto fundamental da filosofia de Unamuno, que é a guerra entre a razão e vida, guerra de que, entretanto, se alimenta o nosso verdadeiro eu em sua aspiração à imortalidade, como deixa claro nesta passagem do seu Sentimento trágico da vida: “a paz entre estas duas potências torna-se impossível, e é preciso viver da guerra mútua entre elas, e fazer desta guerra a condição de nossa vida espiritual”. O ser, nesta perspectiva agonística ou agônica, é o ser-em-luta. Indicativo dessa luta, ao nosso ver, é a convocação e a posterior conversão de Sancho por Dom Quixote: o elemento racional (o escudeiro) posto a serviço do elemento vital (o cavaleiro) para em demanda da glória humana e da imortalidade pessoal fazerem de suas vidas instrumentos, sob uma bandeira de combate: a cavalaria andante. O campo de batalha desta cavalaria é o próprio ser, e este se dá na história, enquanto criação de indivíduos. Não é por acaso que o Quixotismo filosófico de Unamuno tivesse em mira precisamente reverter o sanchopancismo, também filosófico, de Hegel, do “todo racional é real e todo real é racional” para: “todo vital é anti-racional e todo racional anti-vital”. E esta é a base do sentimento trágico da vida, conclui Unamuno.

 

Essa idéia de luta, de que se alimentou toda a dialética, desde Heráclito, que proclamou num de seus fragmentos, que “a guerra (Pólemos) é o pai de todas as coisas”, não se encontra só em Hegel: também se acha em Empédocles de Agrigento, em cuja filosofia a vida se nutre da luta entre o amor e o ódio, por meio da alternância da criação e da destruição; também em Platão, na contraposição entre os dois mundos, e no movimento perpétuo do sensível para o inteligível, de que o exemplo clássico é o mito da caverna, no livro VII da República, e o mito da parelha alada, constante no diálogo platônico do Fedro, como, ainda, no Livro IV da República, onde a alma humana é apresentada como um estado de tensão devido à atração da razão pelo desejo, na rica sugestão de Mário Valdés, para quem “a alma em seu estado perfeito está em tensão entre os dois opostos e é valor, ânimo ou coragem”. Segundo o mesmo autor “esta idéia de alma é o antecedente direto da dialética aberta de Unamuno”. Por ser uma dialética aberta ela não conhece nenhuma síntese conclusiva, de natureza lógica, mesmo porque, para Unamuno, “é bom tudo que satisfaz ao nosso desejo vital, mal tudo o que não satisfaz. A filosofia é, pois, ciência da tragédia da vida, reflexão sobre o sentimento trágico da vida”. O mesmo testemunho vemos em sua obra, Vida de Don Quijote y Sancho: “Toda crença que leve a obras de vida é crença de verdade, e o é de mentira a que leve a obras de morte. A vida é o critério da verdade, e não a concordância lógica, que é só da razão”.

 

Por isso acreditamos, seguindo esse raciocínio, que nenhuma dialética pode prever o que seja vital ou não seja vital para nós, dado que essa luta entre razão e vida é um elemento constitutivo da própria natureza humana. Hegel, por exemplo, apostou no Estado, “no reino deste mundo”. Porque o vital para ele era o racional. Nós, com Unamuno, em direção diversa, apostamos na imortalidade, no “reino doutro mundo”, que por certo não há de cessar, embora sem esquecer que ele começa no aqui e no agora, e isto porque acreditamos que o vital é anti-racional.

 

Pressentimos, apesar de tudo, que a luta não terá termo nem mesmo no seio da comunhão dos santos, quando sequer haverá memória das cavalarias gloriosas deste mundo. E agora voltemos ao Quixote e ao Sancho, que são mais filosóficos, porque mais vitais, que os dialéticos puros, por mais sábios que estes sejam, e nós sabemos como o são...

 

Façamos, portanto, em lugar de uma reflexão, - que é algo puramente racional, - uma meditação - que cheira a algo mais religioso e, conseqüentemente, mais transcendental - sobre o problema principal da filosofia, que é o problema do Ser. O mundo é criação ou representação? Fale-nos o meditador de Dom Quixote em sua visão demiúrgica do Ser: “Verás que o mundo é tua criação, não tua representação, como dizia o Tudesco. À força desse supremo trabalho de angústia conquistarás a verdade, que não é o reflexo do Universo na mente, senão seu assento no coração. A angústia do espírito é a porta da verdade substancial (...) Ainda que tua cabeça diga que se te há de derreter a consciência um dia, teu coração, desperto e iluminado, te ensinará que há um mundo em que a razão não é guia. A verdade é o que faz viver, não o que fez pensar”. Por isso Dom Quixote, como criador de valores, vivendo-os na transcendência estética, ética e religiosa de sua vida, “se lançou à santa resignação da ação, que nunca volta, como a mulher de Lot, a face ao passado, senão que sempre se orienta ao porvir, único reino do ideal”. O quixotismo filosófico, por agir no tempo, carrega consigo uma estética que transcende a existência, imprimindo eternidade às ações do homem, por fazê-lo alimentar-se da vida eterna. Enraizado em sua pátria, como em seu corpo, sua vida possui um caráter de permanência que imortaliza as paisagens, as pessoas e as coisas que atravessaram a retina de sua visão da existência. A visão do “homem de carne e osso” de Unamuno não despreza o transitório, supervalorizando um imortalismo desencarnado, por nutrir-se de vida, mais do que das idéias sobre a vida: “Nada há menos universal que o chamado cosmopolita, o internacionalista, como agora costumam falar: Nada menos eterno que o que pretendemos colocar fora do tempo. Nas entranhas das coisas, e não fora delas, estão o eterno e o infinito. A eternidade é a substância do momento que passa, e não o receptáculo do passado, do presente e do futuro de todas as durações; a infinitude é a substância do ponto em que me fixo, e não o envoltório da largura, comprimento e altura de todas as extensões. A eternidade e a infinitude são as substâncias do tempo e do espaço respectivamente”.

 

Veremos, também, que na perspectiva de Unamuno crer é criar. Como Dom Quixote foi o criador de suas ações, os artistas e os santos e os filósofos criam os seus próprios modelos, porque o ponto de partida de todos eles foi a fé na perpetuação das suas idéias. E criar é, sobretudo, por-se à frente do racional: “são os mártires os que fazem a fé, mais do que ser a fé que faz os mártires. E a fé faz a verdade”. E criar, assim como crer, é abrir-se para o mundo dos valores éticos, estéticos, religiosos, políticos, etc.: “Deixa-te, pois, de lógicas. O que faz com que os homens criem as coisas e as tornem plenas do seu propósito, se não é mantendo-as com valor?”

 

No capítulo XXV da segunda parte de Dom Quixote, ao ver Sancho sem compreender o porquê de tanta loucura de Dom Quixote, já que não poderia se queixar de nenhuma desonra de Dona Dulcinéia de Toboso, (sobretudo, acrescentamos nós, porque ela é uma criação heróica do nosso cavaleiro andante), assim responde à estranheza de Sancho: “Eis aí o aspecto sutil do meu caso, pois não vejo valor nem favor no cavaleiro andante que fique louco com justa causa; a vantagem está em cometer desatinos sem motivo, dando a entender à minha dama que, se em seco faço tanto, que não faria eu no molhado?”. Acrescenta, então, Unamuno: “Sim, Dom Quixote meu, o ponto essencial está em cometer desatinos sem ocasião, em generosa rebelião contra a lógica, duríssima tirana do espírito (...) A loucura, a verdadeira loucura, nos está fazendo muita falta, para ver se nos cura desta peste do senso comum que faz com que cada um afogue o sentido da própria vida”. A lógica da diferença, para não dizer da contradição, encarnada em Dom Quixote, necessariamente haverá de opor-se à lógica da identidade (para não dizer do senso comum) esposada por Sancho. Por isso, a lógica vital (Quixote) está sempre em oposição à lógica racional (a de Sancho), mas uma se alimenta da outra, pois que é dos desafios que se robustece a consciência humana: “Nisso, em jogo de palavras, cai toda a lógica que não se baseia na fé e não busca na vontade seu último sustento. A lógica de Sancho é uma lógica como a escolástica, puramente verbal; partia do pressuposto de que todos queremos dizer o mesmo quando expressamos as mesmas palavras, e Dom Quixote sabia que com as mesmas palavras solenes costumamos dizer coisas opostas, e com opostas palavras a mesma coisa. Graças a isso podemos conversar e entender-nos. Se o meu próximo entendesse pelo que disse o mesmo que entendo eu, nem suas palavras enriqueceriam o meu espírito, nem as minhas enriqueceriam o seu. Se o meu próximo é outro eu mesmo, para que eu o quero? Para mim eu me bastaria, e ainda me sobraria”.

 

Daí, em decorrência de uma visão de linguagem não estereotipada e, conseqüentemente, de uma concepção de história descondicionada de preconceitos e aberta escatologicamente para a ação excepcional dos indivíduos, e não das suas circunstâncias, a diatribe de Unamuno ao Senhor Licenciado e Douto Cura, que acha desvairada a fé de Dom Quixote nos seus modelos de cavalaria, entre os quais o Amadis de Gaula: “Logo que um homem morreu e passou à memória de outros homens, em que é mais que uma dessas ficções que abominais? Vossa Mercê deve saber por seus estudos a sentença operari sequitur esse, o agir se segue ao ser, e eu lhe acrescento que só existe o que age, e se esse Dom Quixote age, em quantos lhe conhece, ações de vida, é Dom Quixote mais histórico e real que tantos homens, puros nomes que vagam por essas crônicas que vós, Senhor Licenciado, tendes por verdadeiras. Só existe o que age. Esse investigar se um sujeito existiu ou não existiu, provém de que nos empenhamos em cerrar os olhos ao mistério do tempo. O que foi e já não é, não é mais que o que não é, mas será algum dia; o passado não existe mais que o porvir nem age mais que ele sobre o presente. Que diríamos de um caminhante empenhado em negar o caminho que lhe resta por percorrer, não tendo por verdadeiro e certo senão o já percorrido? E quem vos diz que esses sujeitos, cuja existência real negais, não hão de existir algum dia e, portanto, existem já na eternidade, e até que não há nada concebido que na eternidade não seja real e efetivo?”

 

A afirmação de Dom Quixote de que a bacia do barbeiro é o elmo de Mambrino, pode receber ataques da razão, mas não atinge a fé: “Que isso é absurdo, dizeis? E quem sabe o que é o absurdo? E ainda que o fosse! Só o que ensaia o absurdo é capaz de conquistar o impossível. Não há mais que um modo de dar uma vez no cravo, e é dar na ferradura. E, sobretudo, não há mais que um modo de triunfar de verdade: é arrostar o ridículo. E por não ter valor de arrostá-lo tem essa gente sua lavra na prostração em que jaz”. Pior é afirmar com Sancho que o elmo de Mambrino não é bacia, nem elmo, mas uma solução convencional e, portanto, falsa: bacielmo. Ora, a bacia exclui o elmo, e o elmo exclui a bacia. Não existe nenhum bacielmo, Sancho. A razão te seduz, apesar de conseguires ver que ela, às vezes, é mais complicada que a vida.

 

Um dos estudiosos de Unamuno, Germán Gullón, assim se coloca face à postura de Sancho perante o elmo de Mambrino: “Há uma prova neste texto cervantino que decide se alguém é aproximado ao sanchopancismo ou ao quixotismo; quando Dom Quixote escolhe fazer a bacia do barbeiro de capacete, e a ajusta com a firme convicção de que é um elmo, não uma bacia nem um bacielmo. E a fé nesta crença reside na raiz do quixotismo, o ter fé em nossas paixões, na palavra, por um ato de vontade. Afirmar com Sancho que é um bacielmo supõe evitar um risco; ou se crê que é uma bacia ou que é um elmo. Os fortes dirão um elmo, os descrentes bacia; os tíbios ou medrosos, bacielmo”. Da mesma forma essa afirmação vital ; que é o valor - pois o valor cria visões - contrapõe os visionários, os descobridores de valores em todas as épocas, em todos os campos da atividade humana, ainda quando pareçam derrotados, aos covardes que se apoiam no embuste e na mentira ante o temor da derrota: “E assim como valor é o pai das visões, assim a covardia é a mãe dos embustes. O que assume uma empresa cheio de bravura, confiado no triunfo ou sem se importar com a derrota, chega a ser visionário, mas não trama mentiras, e o que teme um resultado adverso, o que não sabe afrontar sereno o fracasso, o que empenha no seu intento essa mesquinha paixão do amor próprio, que se atemoriza ante a possibilidade de não sair vitorioso, este trama mentiras para se precaver da derrota e não sabe ver visões”.

 

E o episódio da luta de Dom Quixote contra as figurinhas de massa dos retábulos dos titereiros, ou criador de títeres? Há loucura maior do que lutar contra figurinhas de massa, como se fossem pessoas vivas? Ora, nós que vivemos cercados pelas falsas figurações geradas pela máquina monstruosa do consumo, acaso não conhecemos as mesmas figurinhas de massa contra as quais lutou Dom Quixote: ídolos, por exemplo, chamados de astros e de estrelas do firmamento colorido do cinema e da tela da televisão? E porque não destruí-los, como Dom Quixote, principalmente em nossa consciência? Será que estamos esquecidos dos ídolos da caverna de Platão? Dos ídolos que Bacon, o grande empirista inglês, não se esqueceu de lembrar, batizando-os de ídolos da tribo, ídolos do espelho, ídolos do mercado e ídolos do teatro?

 

Quanto à luta de Dom Quixote contra as figurinhas de massa dos titereiros, Unamuno, evidentemente, não nega a razão a Dom Quixote: “Porque são figurinhas de massa e estamos todos envolvidos num espetáculo - respondo - é que há que descabeçá-las e destroçá-las, pois nada mais pernicioso que a mentira de todos consentida (...) Há que limpar o mundo de comédias e retábulos”. E se é ridículo lutar contra os ídolos da fantasmagoria contemporânea, entre os quais apodrecemos todos, sejamos ridículos, se necessário, mas lutemos para destruí-los, como fez Dom Quixote: “Morra a farândola! Há que acabar com os retábulos todos, com as ficções sancionadas. Dom Quixote, tomando a sério a comédia, pode parecer ridículo aos que tomam comicamente a seriedade e fazem da vida teatro”.

 

A luta preside o ser e a história humana do ser, porque há um fundo de permanência, como a profundidade do mar sob sua superfície, para utilizarmos e desenvolvermos a metáfora arcaica do mar, tão comum a Unamuno, expressão simbólica do eterno fluxo das coisas. Quem se confina apenas na atualidade, ou na modernidade, não pode vislumbrar a tradição eterna do ser sob suas diversas formas de manifestação, através das épocas e dos povos. O valor de Dom Quixote está justamente em ter retomado a cavalaria andante, quando ela estava, ao ver de todos, em decadência: mas a sua loucura revela toda a luz ao se projetar sobre as sombras do passado que persegue, não para restaurar as representações das épocas já mortas, com suas linhas históricas específicas, mas para, por meio da cavalaria, enquanto ideal dos homens eternamente vivo, retornar às nascentes do tempo e do ser renovando e não apenas inovando a história.

 

Não seria tradicionalista, nem muito menos um reacionário, mas também não seria um progressista, porque o mito do progresso não subsiste em si mesmo sem a noção paralela de regresso, como a natureza, a vida e o cosmos nos mostram a cada instante. Não se trata, nesse necessário retorno, de um retrocesso. Por isso nos adverte Unamuno: “Sei que é loucura a pretensão de fazer retroceder as águas à nascente, e que é o vulgo que procura a cura dos seus males no passado; mas sei, outrossim, que todo homem que combate por um ideal qualquer, ainda que pareça do passado, impele o mundo para o futuro, e sei ainda que os únicos reacionários são aqueles que se encontram bem no presente”.

 

“Os descobridores de valores novos”, para usarmos uma expressão de Nietzsche, sejam santos, artistas, guerreiros, filósofos, estadistas, religiosos, nunca estiveram satisfeitos com seu próprio presente, porque a força vital que os animava os impedia permanentemente de transformar-se em peixes de aquário, ou em rebanho rotineiro atrás de qualquer guia. Tais homens não conhecem redomas, ainda quando pareçam - grande escândalo e loucura - ter fé na possibilidade crística de ser “sal da terra e luz do mundo”. Não vêm, muitas vezes, “trazer paz à terra, mas a espada”, como proclamou Jesus. E acreditam, como o profeta do Islã, conforme está expresso num dos seus hadits, que “o paraíso está à sombra das espadas”. O problema está em reconhecer que os homens, de maneira habitual, interpretam literalmente a simbólica da realidade, sem perceber a plurivalência de todo grande símbolo - como o da espada - que aponta principalmente para uma luta que deve ser travada, não apenas externamente, e sim no interior de cada homem. Essa luta, que faz parte da exigência de todas as grandes religiões, do Zoroastrismo ao Islamismo, não nos fala de outra coisa. Também não nos falam de outra coisa todos os pré-socráticos, se bem que noutro nível - no plano da criação - com sua velha doutrina da luta dos opostos. O mundo como campo de batalha, quer em termos de complementariedade, - entre duas forças antagônicas, - quer em termos axiológicos - entre as boas e as más ações - pressupõe necessariamente que o ser está em luta. O ser é ser-em-luta. Por isso é sempre atual a sentença do livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta”. E a luta entre as hostes angélicas, entre os partidários de Miguel e os de Lúcifer? O próprio Miguel de Unamuno representa em seu nome, Miguel, a luta contra as forças luciferinas do conhecimento.

 

Sempre a luta e, portanto, sempre a agonia: “Agonia do amor e do conhecimento, do conhecimento que é amor, e do amor que é conhecimento”, como deixou consignado Unamuno. A função de Sancho, a razão, é exatamente seguir a palavra de Dom Quixote, que é sentimento e fé: “A fé, amigo Sancho, é adesão, não a uma teoria, não a uma idéia, senão a algo vivo, a um homem real ou ideal, é faculdade de admirar e de confiar”. Sabia bem o Quixote que “a perfeição se chega imitando a homens, e não tratando de por em prática teorias”.

 

A importância do sentimento sobre a razão explica, igualmente, a estética de Dom Quixote e a estética de Unamuno: ambas partem da ação do homem e, paralelamente, do movimento do universo. Tão universal quanto o sentimento, a razão constitui um obstáculo sempre a ser suplantado; e nem a lógica formal do sábio Aristóteles escapa à conclusão de que duas proposições tornadas contrárias, quando tomada universalmente, não podem ser igualmente falsas e igualmente verdadeiras. Se afirmarmos a imortalidade da vida devemos logicamente proclamar a mortalidade da razão. E como se trata, acima de tudo, de uma postura existencial: a de defendermos a nossa imortalidade, ou a de afirmarmos a nossa razão, mesmo mortal, como um único princípio de realidade, não devemos estranhar que estas duas proposições - a afirmação da vida ou a afirmação da razão - possam ser ambas, tragicamente, do ponto de vista lógico, com o mesmo direito falsas. Também não escapou à lógica de Aristóteles que o termo médio desaparece para dar lugar ao termo maior e menor que se unem na conclusão. É curioso que na proposição: todo homem é racional seja o homem curiosamente o termo médio, e o termo maior seja justamente racional. E se queira, dessa forma, enjaular o homem (como os leões de Dom Quixote) nas grades da racionalidade, transformando o homem (e, no caso, o valor maior, a vitalidade) em um mísero termo médio... Daí entendermos perfeitamente Dom Quixote ao desafiar tais leões, para provar a si mesmo que ele estava vivo. Aristóteles sabia perfeitamente que o termo médio não é o recurso da imaginação, porém do raciocínio, para aprisionar a realidade num conceito fixo. Só que nada é fixo no universo: salvo a agonia do Ser. A estética de Unamuno, tanto quanto sua filosofia dos valores, em sua base antropológica que repousa sobre a instabilidade do homem, como um ser em luta, nos mostram perfeitamente que tudo está sempre no começo, porque nada se acaba; e, em conseqüência, diferentes perspectivas, na arte como na vida, podem sempre inaugurar-se e se voltarem ao início do ser, que perpetuamente se renova. O Élan Vital de Bergson, segundo Mário Valdés, se prenuncia nele, sob alguns aspectos, como se prenunciam, em sua novelística, as linhas posteriormente seguidas no campo da arte, pela novelística de um Faulkner, de um Joyce e de um Jorge Luís Borges, segundo Germán Gullon.

 

Por uma razão muito simples, não existem irmãos do passado e sim irmãos do presente: antes, como depois, os homens podem sempre inaugurar o ser. Há movimento porque há permanência: o sol das almas nasce todos os dias, como o amor e o conhecimento. Daí o Sancho e o Quixote serem inseparáveis. A razão necessita da vida, e a vida necessita da razão: a razão para esclarecer a noite de sua busca, com seus olhos de coruja, e a vida para não adormecer, na ausência de um combate heróico com a razão, em pleno meio-dia, os seus olhos de serpente. Todavia nem todos compreendem a visão de Dom Quixote na cova encantada de Montesinos, porque vivem, ora no tradicionalismo, ora no progressismo. A cova encantada de Montesinos nos desafia tanto como a caverna de Platão. Então é necessário ouvir Unamuno: “Se te empenhas em fundir-te na cova da tradição do teu povo para esquadrinhá-la e penetrar em suas entranhas, escarvando-a até dar com sua profundidade, se hão de lançar ao teu rosto os grandes corvos que fazem ninho em sua boca e buscam abrigo entre suas brenhas. Terás primeiro que derribar e cortar as moitas que encobrem a cova encantada, ou mais bem terás que descobrir a sua entrada, obstruída por escombros. O que os tradicionalistas chamam tradição não são senão restolhos dela. Os grandes corvos e gralhas que guardam a boca dessa cova encantada, e que forjaram seus esconderijos, jamais se fundirão nas entranhas da cova, e se atrevem não obstante a grasnar dizendo-se moradores de seu interior. A tradição por eles invocada não é de verdade; se dizem representantes do povo, e não são nada do que dizem. Com a grande maçada dos seus grasnidos querem convencer ao povo que ele crê no que não crê, e é mister fundir-se nas entranhas da cova para extrair dali a alma viva das crenças do povo”. Cada episódio do Dom Quixote explica o outro como em todas as grandes escrituras. Compreenderão finalmente porque Dom Quixote lutou contra os moinhos de vento. A função do homem, como ser teomórfico, é lutar sempre contra moinhos de vento (a própria expressão diz tudo sobre a sua verdade), mesmo que saia moído e contundido da experiência. Não importa: o importante é não perdê-la. Porque o pior de tudo é que os moinhos são mesmo gigantes. E todos os gigantes querem ser enfrentados. Assim como Golias no íntimo queria ser enfrentado por David. Não dizia o velho Heráclito que “a realidade ama ocultar-se”? Provavelmente porque quer ser violada. Fiquemos com a interpretação do evangelista Unamuno sobre o seu senhor Dom Quixote: “Aqueles moinhos moíam pão, e desse pão comiam homens endurecidos em sua cegueira. Hoje não se nos apresentam mais como moinhos, senão como locomotivas, dínamos, turbinas, máquinas a vapor, automóveis, telégrafos com ou sem fio, metralhadoras ou ferramentas de ovariotomia, mas conspiram para o mesmo dano. O medo e só o medo sanchopancesco nos inspira o culto e a veneração ao vapor e à eletricidade: o medo e só o medo sanchopancesco nos faz cair de joelhos ante os desaforados gigantes da mecânica e da química, implorando deles misericórdia. E ao fim renderá o gênero humano seu espírito esgotado de cansaço e de tédio ao pé de uma colossal fábrica de elixir de longa vida. E o moído Dom Quixote viverá, porque buscou a saúde dentro de si e se atreveu a arremeter contra os moinhos”.

 

Há muitos moinhos contra que lutar. O primeiro deles é o da discórdia entre os pretensos eus que nos habitam ou nos assediam: o da auto-imagem narcísica e o da falsa imagem social em que miseravelmente nos conformamos. Não conhecemos nosso verdadeiro eu, aquele que verdadeiramente nos pertence. Temos o medo sanchopancesco de nos conhecer, forcejando por desconhecer a velha lição socrática herdada do oráculo de Delfos. Lição que seria seguida pelo Dom Quixote da Fé, o Cavaleiro Ignácio de Loyola, que a traduziu para: “Vence-te a ti mesmo”.

 

Mas já que falamos do Cavaleiro Dom Quixote, e do seu escudeiro Sancho Pança, mostraremos, em primeiro lugar, o porque desta aventura para o debate filosófico do presente. O próprio Unamuno se encarregará de responder sobre a importância do legado quixotesco para a filosofia: “E que legou Dom Quixote? Perguntareis. Responder-vos-ei que se legou a si mesmo, e que um homem vivo e eterno vale por todas as teorias e por todas as filosofias. Outros povos nos deixaram principalmente instituições e livros; nós deixamos almas. Santa Teresa vale por qualquer Instituto, por qualquer Crítica da Razão Pura”. E como a ação é inseparável da palavra - o mesmo que dizermos que a teoria (em grego Theorein, visualização) é incompreensível sem a prática - lembremo-nos mais destas palavras de Unamuno: “As mãos, pois, abonam a língua (...) Línguas sem mãos, como ousais falar?” E, em segundo lugar, procuremos extrair a lição fundamental da filosofia unamuniana. Da imortalidade pessoal devemos deduzir a existência de Deus, e não ao contrário. Deus existe, porque a imortalidade de tudo o que ele criou, proclama a sua existência. Ou melhor, o seu Ser. Porque a existência é uma queda. Nessa queda fomos compelidos, pela própria necessidade do ser em luta, a amar e conhecer: porque conhecemos para amar e amamos para conhecer. O conhecimento é primeiramente uma tentativa da vida para se conservar a si mesma, e só depois vem a se tornar a curiosidade pelo próprio conhecer. E o amor é uma tentativa de sobrevivência sobre a morte, rumo à imortalidade. E nós sabemos, como uma tal doutrina, diferente de quaisquer materialismos, constitui uma alavanca mestra para uma cultura transcendentalizada, capaz de gerar homens e obras à altura da medida humana.

 

Como aqui chegamos, a nossa função é exercer a cavalaria do nosso próprio ofício de existir para chegar a ser, descobrindo novos escudeiros para crer nesta grande aventura. Cada Sancho deve procurar o seu Quixote. E cada Quixote deve procurar o seu Sancho. Razão e vida não podem se entender nunca, e é por isso que existe a Cavalaria Andante, (lembrem-se de que não só Aristóteles foi peripatético), porque ambas se saberão, razão e vida, instrumentos de Algo Maior.

 

Esse Algo maior proclama o eternamente novo, que uma vez nascido (e tudo nasce) não morrerá. O conceito, veículo da filosofia, e o verso, veículo da poesia, se encontrarão. Como se encontrarão existência e ser, além dos existencialismos e dos realismos. E razão e vida, apesar de todos os racionalismos e vitalismos, continuarão em perpétua agonia neste mundo.

 

Como o sentimento é o órgão unificador do conhecimento, (e ele é essencialmente trágico, por irromper da ânsia irreprimível e insaciável contra os limites em que nos debatemos), terminamos a nossa meditação com as mesmas palavras com que concluiu Miguel de Unamuno um dos seus livros geniais, o Sentimento trágico da vida: “que Deus nos dê não a paz, mas a glória”.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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