Hegel e o Primado da Arte sobre a Natureza

Se em Kant o juízo de gosto recebeu o estatuto ambíguo de um universal sem conceito, prestando-se às mais diversas radicalizações, quer contra, quer a favor do seu pensamento estético - e levando, inclusive, muitos aos caminhos de um relativismo absoluto que ele estaria longe de sancionar, - Hegel pretendeu reduzir tudo, inclusive a Arte, ao conceito e à Idéia, em sua ambição incalculável de explicar até os mistérios do Incognoscível, num desejo de logificação de todas as estruturas do universo. Pois nem Deus escapa de ser racionalizado em seu sistema.

O racionalismo, constituindo a base de sua estética nos traz, conseqüentemente, surpresas agradáveis e desagradáveis. Em oposição a Kant, por exemplo, transforma a estética numa ciência, a ciência da arte - o que pode para muita gente significar um grande feito filosófico, e deveras o foi - e isso tudo pela impossibilidade de compreender a arte a não ser pela via racional; pela necessidade intrínseca de seu sistema de tudo explicar, dissecar e anular por meio de sucessivas e enfadonhas mediações dialéticas.

Comecemos, entretanto, pelas suas surpresas agradáveis, como a de estabelecer a superioridade da arte face à natureza: "Julgamos nós poder afirmar que o belo artístico é superior ao belo natural por ser um produto do espírito que, superior à natureza, comunica esta superioridade a seus produtos e, por conseguinte, à arte. Tudo quanto provém do espírito é superior ao que existe na natureza". E esta consideração sobre a arte vem seguida de outra mais titânica ainda: "A pior das idéias que perpasse pelo espírito de um homem é melhor e mais elevada do que a mais grandiosa produção da natureza, - justamente porque essa idéia participa do espírito, porque o espiritual é superior ao natural". Ou seja, mesmo um absurdo, ou um disparate, teria mais dignidade, como produto do espírito humano, que qualquer objeto da natureza. Hegel, ao dizer que o belo da arte é superior ao da natureza, poderia provocar a objeção de que a natureza é uma criação divina, o que ele sabe rebater com firmeza: "mas Deus é Espírito, e melhor se reconhece no Espírito que na Natureza".

Contrariando os que colocam a arte sob o domínio da natureza, - e fazem da reprodução das suas formas o princípio estético por excelência, - assim se coloca Hegel: "De um modo geral pode dizer-se que a veleidade de rivalizar com a natureza pela imitação, para sempre condena a arte a permanecer inferior à natureza, como um verme que se esforça por igualar um elefante". Mais adiante o filósofo alemão demonstra que considerar a imitação como finalidade da arte, seria o mesmo que colocar a lembrança como base da criação artística. Negação, portanto, do naturalismo em arte - já que a arte como princípio espiritual é superior à natureza, como vimos - e da lembrança compreendida, não como a memória originária das coisas, na concepção platônica, e sim como atividade similar à reprodução de um original pela cópia. Para Hegel, ao contrário, se na imitação consistisse a essência da arte, desapareceria qualquer representação do belo objetivo. Mas como o valor de um produto depende do seu conteúdo, o valor de uma obra de arte depende do seu conteúdo espiritual, em contraposição ao seu conteúdo natural, que passa a ser o da pseudo-arte que o faz derivar da imitação da natureza. Para ele o natural não deve ser a regra, a lei suprema da representação artística. O único conteúdo básico que a natureza pode oferecer é a exteriorização da arte numa forma concreta. Em suma: a arte recebe as formas da natureza e o conteúdo do espírito. As formas constituiriam apenas um invólucro da obra de arte, e não o seu fundamento. "Ao realizar uma obra artística - afirma Hegel - o homem obedece a um interesse particular, é impelido pelo anseio de exteriorizar um conteúdo particular".

Hegel acha ainda que a natureza e a realidade são fontes indispensáveis para a arte, tanto quanto o ideal, - que ele não vê como algo meramente geral e abstrato - mas que, acima da imitação, deve visar a expressão da totalidade da vida. O fim último da arte seria assim o de cultivar o humano no homem, despertar sentimentos adormecidos, por-nos em presença dos verdadeiros interesses do espírito. E a arte também pode, além de completar a natureza, ou a experiência que possuímos das coisas, favorecer as nossas inclinações mais grosseiras. Pode elevar-nos e pode rebaixar-nos. Porém deve exercer uma ação suavizante e libertadora.

Hegel, dessa forma, aproxima-se de Platão, ao fazer da arte um instrumento de satisfação das paixões humanas, mas, simultaneamente, aceita o ponto de vista aristotélico, ao vislumbrar um caráter purificador na representação dessas emoções. Hegel chega a batizar essa purificação ou catarse de moralização. Como também acha, considerando-a inclusive como o fim da arte, que as paixões por ela exercitadas, perdem sua força ao se transformarem em objetos de representação, em simples objetos. Porque quando alguém compõe uma obra sobre as paixões que o obsessionam, torna-as menos perigosas, pois ao objetivá-las, afasta-as de si numa espécie de exorcismo estético. Por outro lado, o caráter moralizador da concepção estética hegeliana, definindo a ação da arte como mais formal que material, aparenta-se com a perspectiva platônica, ao advogar que ela não deve despertar todas as paixões possíveis, mas preferir sobretudo aquelas mais compatíveis com o destino verdadeiro do homem.

Outra consideração significativa da estética hegeliana - como desenvolvimento de sua concepção de superioridade da arte em relação à natureza, - é a demonstração de que a arte não possui, como os produtos da natureza, a vida das coisas exteriores, mas retém, como produto humano, apenas as aparências da natureza, e mesmo as suas aparências de vida. Porém não é como coisa, ou objeto, que a obra de arte é uma obra de arte, mas enquanto produto do espírito: "Pois a obra de arte provém do espírito e existe para o espírito, senhora de uma superioridade que consiste em ser uma obra perene, enquanto o produto natural, dotado de vida, é perecível. A perenidade lhe dá um interesse superior. Vêm os acontecimentos e, como vêm, desaparecem; é a obra de arte que lhes confere perenidade, que na imperecível verdade os apresenta".

Mas os argumentos de Hegel podem trazer implícitos dois aspectos antagônicos, quando não contraditórios. Ora o reconhecimento da capacidade de o homem projetar-se, por meio das suas representações, para além da efemeridade das demais coisas; ora o caráter insidioso da valoração desse produto humano, que é a Arte, - face a outros produtos mais racionais do mesmo espírito, - apresentar-se já determinado a ter um limitado tempo e festa e de glória, pelo fato da própria racionalidade da concepção estética hegeliana conter, sorrateiramente, um germe destruidor para a arte.

As conseqüências dos seus argumentos, tantas vezes favoráveis à Arte, nós vamos extrair das próprias premissas que servem de base à sua estética, no quadro geral do sistema. Em uma Filosofia que se engendra a partir da Idéia, como princípio de realidade, sua estética se esboça naturalmente como um dos reflexos dessa Idéia, na medida em que esta se enquadra no contexto existente, e enquanto represente seu aspecto finito e, portanto, provisório - e jamais seu conteúdo absoluto.

Por visar a Arte a existência individual do objeto, sem procurar transformá-lo em idéia universal, Hegel transforma-a, entretanto, em conhecimento: mas um conhecimento que se contentando apenas com a superfície do sensível (abstraído de sua materialidade), assim como do individual (abstraído de sua concretude) "eleva o sensível ao estado de aparência e ocupa o meio termo entre o sensível puro e o pensamento puro".

Antes víamos o reconhecimento hegeliano da efemeridade das coisas face à capacidade do homem, mediante a sua consciência, de desdobrar-se por meio da representação: "As coisas da natureza contentam-se em ser, pois são simples e só uma vez são, ao passo que o homem, enquanto consciência, desdobra-se: é uma vez só, mas é para si. Projeta-se na sua frente o que é, contempla-se, representa-se a si próprio".

Agora, para estranheza nossa, Hegel distingue a Verdade da Beleza (que em Platão e Plotino eram inseparáveis) para ver na Beleza apenas uma certa forma de exteriorização da Verdade, enquanto a Verdade seria a Idéia considerada em si mesma. A Beleza, nesse caso, apresenta-se diante de nós como uma exteriorização da Verdade em sua forma sensível. A união da Idéia, que é a Verdade, com uma forma exterior, em uma consciência, constituiria para Hegel a Beleza.

A Idéia em si mesma é a Verdade, e a Beleza seria uma forma de mediação - ou conciliação - entre o sensível e o espiritual; ou o Ideal em contraposição à Idéia e à realidade exterior. A Beleza consistiria, em síntese, numa das formas de manifestação da Verdade: a sua exteriorização no concreto; e a Idéia (enquanto realidade moldada a um conceito) o Ideal ou Beleza.

Do choque entre o Espírito - que deseja exteriorizar-se, para não permanecer subjetivo, - e a realidade - em sua objetividade limitada às injunções naturais, surge a necessidade de conciliação do infinito (liberdade) e do finito (necessidade). Desse choque necessário (além de originário) se deriva o combate trágico do homem entre a liberdade - em sua autonomia e universalidade - e as inclinações e paixões do homem, tomado em sua individualidade; surgindo daí a exigência irreprimível do homem de entrar em comunhão com o Espírito Absoluto.

A primeira forma de apreensão da Idéia é a Arte: é uma apreensão direta e sensível, que considera as coisas do ponto de vista sensível e objetivo e, onde, segundo Hegel, o Absoluto é surpreendido pela intuição, e apreendido pela sensibilidade. A arte é, então, uma manifestação sensível da Idéia. E, também, o resultado da insatisfação humana em não se resignar, num auto-confinamento, à simples subjetividade, ao pensamento puro, às leis, à universalidade, e por necessitar, ademais, de uma existência sensível e de dar evasão às suas emoções, representando-as.

A segunda forma de apreensão da Idéia é a Religião. Enquanto a arte é uma manifestação adequada do Absoluto, a Religião acrescenta-lhe a piedade que, em sua essência, é estranha à arte, para nos mostrar o sujeito interiorizado, em comunhão mais pura com o Absoluto, em que a objetividade é, por assim dizer, despojada do seu conteúdo para ser só espírito.

A terceira forma de apreensão da Idéia ou do Espírito Absoluto é a Filosofia. Pois na Religião, Deus primeiro aparece à consciência como um objeto exterior, que se dá a partir da Revelação. Mas a Religião, apesar da sua interioridade, maior do que a da arte, ainda não é, entretanto, a forma suprema de interioridade. Enquanto a Filosofia, como fenômeno livre, é a forma mais pura de conhecimento: seu conhecimento, sendo mais espiritual, apreende tudo pelo pensamento, indo além da representação (a Arte) e do sentimento (a Religião).

Vemos, finalmente, que o mesmo Hegel que nos fala de uma beleza artística superior à natural, reduz essa mesma beleza ao primeiro estágio do Espírito Absoluto; a um episódio, oportunamente superável, do mesmo Espírito.

Os três reinos do Espírito, segundo Hegel, apesar de terem o mesmo conteúdo, se distinguem, pela forma em que se apresenta, em cada um deles, o Absoluto: "O espírito, enquanto espírito verdadeiro, existe em si e para si; não é, portanto, uma essência abstrata, exterior ao mundo dos objetos, mas reside no íntimo deste mundo e conserva no espírito finito a lembrança da essência de todas as coisas, lembrança que permite ao finito a apreensão do finito, ou seja, de si próprio, de um modo essencial e absoluto".

Numa doutrina, que parece um platonismo circular, cerrado de abstrações que não escapam da órbita do sensível - a não ser através dos esquematismos lógicos - a beleza e a arte teriam fatalmente de se transformar em pretextos para as longas evoluções de um pensamento inquieto e insatisfeito com o mundo, embora não conseguisse sair dos estreitos limites do seu giro racional.

Sciacca teve a compreensão exata do sistema de Hegel que, não por acaso, serviu de ponto de partida para os vários extremismos políticos e ideológicos de direita ou de esquerda, que nele se inspiraram:

 

"O hegeliano é o sistema da Razão absoluta: panlogismo. Deste ponto de vista Hegel continua o Iluminismo (inclusive se a sua é chamada razão concreta e não abstrata) e é anti-romântico. Esse o motivo de ser ele o filósofo do conceito (Begriff) e o crítico das filosofias "edificantes" do sentimento, da fé, etc. Mas a sua Razão, como a Unidade indiferenciada de Schelling, é também ela a "noite negra onde todos os gatos são pardos". Tudo nela nega a razão: não há lugar para quanto se rebela à mediação racional: ou se deixa mediar (e por isso mesmo absorvido pela razão) ou é o não-verdadeiro. O indivíduo, por exemplo, como diz Hegel, "não é verdadeiro", precisamente porque ele é imediável na sua singularidade; a arte, como momento autônomo, é abstrata; assim também a religião: tornam-se concretas na filosofia (razão), isto é, quando se negam como arte e como religião. Tudo se conserva e tudo se perde na Razão, se perdem a singularidade, o sentimento, a concreção. Disso resulta ainda que se é verdadeiro o conceito ou a mediação, o imediato não é verdadeiro; e Hegel diz claramente que precisa dissolver o "imediato". Mas a mediação é sempre um sair fora, um exteriorizar-se, um estranhar-se, um perder-se da inter-ioridade no extra". A arte, como fenômeno individual, evidentemente não mereceria um tratamento diferente para um pensador que tomasse apenas como estágios superáveis as diversas manifestações do espírito humano. Sobretudo quando esse espírito humano, obnubilado pelas névoas do seu panteísmo lógico, pouco tinha a diferençar-se do Espírito Absoluto. Dá para entender a relutância de Hegel de aceitar o caráter anti-conceitual, atribuído por Kant ao juízo de gosto - e por extensão à Beleza e à Arte - apesar de não ter deixado de concordar com Kant, no reconhecimento de que "o agradável não participa do Belo mas liga-se à sensibilidade tal como existe para o espírito"; e na distinção da "satisfação desinteressada que, segundo Kant, é a da arte, do interesse prático do desejo". Pois são também de Hegel estas palavras: "O interesse da arte distingue-se do interesse prático do desejo, por salvaguardar a liberdade do objeto, ao passo que o desejo a utiliza e destrói". Mas não esqueçamos o porquê da diatribe de Hegel contra Kant, por conta da transgressão deste da sacralidade do conceito: "Conviria lembrar rapidamente que numerosos são aqueles que pensam que o Belo em geral, precisamente por ser o Belo, se não deixe encerrar em conceitos e constitui, por esse motivo, um objeto que o pensamento é incapaz de apreender".

É bastante evidente que a concepção de uma Beleza sem conceito não haveria nunca de interessar a alguém para quem o conceito era, acima de tudo, a alma do seu negócio de alta especulação, se bem que filosófica: "A Idéia é a unidade do conceito e da realidade. O conceito é a alma, a realidade invólucro corporal. O conceito realizado constitui a Idéia".

Mas depois de percorrer esses três reinos de Hegel - a Arte, a Religião e a Filosofia, um dando o lugar ao outro, em verdadeira renúncia dialética, - só nos resta concluir com as palavras de um texto publicado no ano de 1977 - há, portanto, 15 anos - com o título não muito diferente da desta aula: Hegel e a superioridade do artístico sobre o natural:

"Hegel escreveu o maior tratado de estética do mundo. Conseguiu, com uma vantagem extraordinária, ser aristotélico e platônico ao mesmo tempo, continuar Plotino com tal perfeição que chegou a fazer dele seu irmão gêmeo, embeber-se de influências kantianas, contrapor uns aos outros, para finalmente atingir uma estética própria e, depois, num verdadeiro passe de mágica, negar-se como esteta e, com raro humor, desmoronar a própria existência da estética, ou da filosofia da arte. Pois foi assim mesmo que ele a batizou.

Jamais houve esteta mais promissor. No próprio aspecto do filósofo, de testa sobranceira e olhos de avô entre gélido e deslumbrado, contemplando o mundo e os homens, como se tivesse consciência da irredutível infância de ambos, e de cabelos penugentos embora eriçados, como antenas ligadas em todas as direções, Hegel ainda continua sendo o consolo supremo não só dos estetas mas dos artistas. Kant sempre agradou muito menos. Hegel, inclusive, parece entender mais de arte do que o filósofo transcendental. Mas Hegel, em seu amor pelo Espírito Absoluto, terminou por enterrar a arte e empulhar os artistas, ao reduzir a primeira a mero episódio na história do Espírito Absoluto. Hoje todo mundo acredita no conceito de sistema no sentido hegeliano, e poucos percebem o caráter episódico que Hegel emprestou, não somente à arte e à religião, mas à própria filosofia. A sua concepção de História reduziu-se, a despeito do inestimável gênio do filósofo, a um aspecto meramente cronológico. Como se o Espírito Absoluto ao se exteriorizar, primeiro na arte, depois na religião e, finalmente, na filosofia, atuasse por parcelas, numa ordem quantitativa que não passasse de três, ao cabo da qual o mundo findasse e Hegel concluísse o seu sistema filosófico.

E, entretanto, Hegel é maravilhoso. Seu prodígio de fábula jamais cansará os espíritos superiores. Ninguém como ele esquecerá a supremacia do "produto humano", que é a Arte, sobre quaisquer produtos naturais. Ele nos faz convencer de que o espírito, ainda ao produzir o maior dos absurdos, e a maior das incongruências, é superior à natureza que é cega, e representa a necessidade diante dele, que se impõe como a liberdade. Hegel teve o privilégio de compreender tudo isso. Opôs-se, mesmo sendo platônico, a Platão, ao não pretender circunscrever a arte ao domínio de uma memória, ainda que arquetípica, das coisas. Por outro lado, rebateu, mesmo sendo aristotélico, ao conceito de que a imitação devesse ser o fim da arte, ainda quando soubesse muito bem aonde Aristóteles queria chegar com a idéia da mímesis. Driblou, em seguida, contra toda expectativa, tanto Platão como Aristóteles ao colocar a arte, na qualidade de criação do espírito, acima das criações da natureza, coisa que o Estagirita estava longe de pressentir e que o próprio Platão estaria ainda mais longe de suspeitar. Hegel foi ainda mais além, ao defender que da natureza o artista extraía apenas as aparências, e que uma obra de arte não é enquanto objeto que ela é tal, mas enquanto produto do espírito. Mas talvez Plotino viesse posteriormente acirrar nele, não somente o moralismo, que Platão já herdara de Sócrates, porém até mesmo o caráter meramente gnóstico que Platão atribuía à própria religião. Não sei o que ocorreu. Sei apenas que mesmo Hegel considerando a obra de arte uma obra perene, em contraposição ao caráter perecível das coisas naturais, a arte ainda com essa eternidade duramente conquistada, não passaria de momento, não de um tempo irreversível e, sim, de um tempo específico: o do calendário hegeliano. Entendeu, tanto quanto Kant, a satisfação desinteressada da arte, demonstrando melhor do que o primeiro que o interesse prático de um desejo pelo objeto, utiliza este objeto ao mesmo tempo que o destrói. Não obstante uma compreensão tão vasta, como a hegeliana, faltou sabermos se a superação dos dois primeiros estágios do Espírito Absoluto - a arte e a religião - garante por si mesma a imutabilidade da filosofia enquanto tal. Teria Hegel, ao pretender que a filosofia morresse com ele, lançado uma advertência, não de uma superação, mas da própria extinção do seu exercício? Ou teria reservado, com o impasse criado por ele, um honroso suicídio para o próprio filósofo?

Não. Hegel me ensinou, inclusive, mesmo sem me lembrar de Oscar Wilde, que não era a Arte que imita a Vida, como o queriam por igual Platão e Aristóteles, mas é a Vida que pode e deve imitar a Arte. Quero morrer nesta convicção hegeliana. Hegel me fascina a tal ponto, que sou capaz de admitir que, mesmo com a morte da Arte, a Filosofia pode supri-la perfeitamente. Não será a filosofia, segundo um mascarado pressuposto hegeliano, uma nova forma de fazer arte?"

Autor: 
Ângelo Monteiro

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