O Teatro de Ariano Suassuna

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Dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, cronista, desenhista, conferencista, professor universitário, Ariano Suassuna, a par de complexa organização intelectual, é dotado de magnética personalidade em que o mistagogo se conjuga com o defensor de uma filosofia cultural mais próxima de nossa identidade como nação portadora de seus próprios arquétipos e valores. Conhecido por suas posições paradoxais em política e em literatura, por uma feliz incapacidade de se adaptar ao padrão do gosto médio, Ariano é talvez dos nossos contemporâneos aquele que vai deixar, após si, a influência mais decisiva e duradoura por sua radical originalidade de ser.

Renovador do nosso teatro, através da retomada dos autos e das farsas medievais, na trilha do português Gil Vicente e do teatro espanhol do século XVII, notadamente de Calderón de la Barca - para quem a vida é sonho e, portanto, ficção - Ariano Suassuna retira a argumentação de suas peças do riquíssimo romanceiro popular codificado nos folhetos e propagado pela voz dos cantadores. Seu teatro se distingue de qualquer outro, entre nós, não só pela feição popular dos entrechos e das situações, em que as interferências freqüentes contribuem para ressaltar o elemento cômico irresistível, mas também por sua preocupação moralizante: é um espetáculo que, para além dos recursos engenhosos de imaginação, da vivacidade dos diálogos, do sabor de um texto que vale tanto representado quanto lido, pretende despertar e aguçar as consciências para um sentido transcendental da vida e do homem.

Ariano, a partir do Auto da Compadecida, sua primeira peça publicada, já era anti-ilusionista em seu teatro muito antes do anti-ilusionismo virar moda intelectual. Culto como é, percebeu, estudando a dramaturgia de várias épocas, - inclusive a commedia dell'arte, além do espírito de farsa que anima as peças de Plauto, o romano, e de Molière, o francês, - que esse recurso, entre outros, antes de ser teoria, era já uma prática de séculos.

Em Ariano o anti-ilusionismo busca, sobretudo, salientar o papel primordial da moralidade (pois moral vem de mores, costumes), como elemento teleológico de perfeição humana, como fonte de valores, como algo sem o qual nenhuma cultura pode pensar a si mesma e, dessa forma, transcender-se. Sob esse aspecto, o espetáculo é encarado como o meio mais adequado de por em cena as mazelas e os vícios dos homens para fazê-los ver, através da irredutível fraqueza que os constitui, que a consciência dos próprios limites também oferece a medida para que se consiga ultrapassá-los. E essa medida é dada pela religião.

A importância de Ariano Suassuna reside, principalmente, no fato de ele ter renovado a comédia, retomando, sob ângulos novos para a cultura brasileira, a velha comédia de Aristófanes a Plauto, e de Plauto a Molière. Como a sua capacidade dramatúrgica para a intriga, na urdidura de suas peças, é muito aguda, estaríamos tentados a ver nele, em primeiro lugar, um grande autor de comédias de intrigas, já que ele forja situações tão constrangedoras e hilariantes para os seus personagens, que dificilmente - apesar do forte sentimento religioso que impregna o seu teatro - poderíamos concebê-lo como um dramaturgo que fizesse os seus personagens debaterem, de maneira maquinal, o seu pensamento mais explícito; porque nele o elemento dramático, sem anulá-lo, suplanta o puramente racional. Daí seu teatro não ser, de nenhum modo, ideológico, ainda quando se possa dizer que se trate de um teatro de idéias.

Ariano, por outro lado, não deve ser reduzido apenas a um autor de comédias de costumes, já que os costumes tendem a se alterar mais rapidamente do que as intrigas da vida e do teatro. Devemos considerá-lo mais como um grande autor de comédias de intrigas que apresentem, simultaneamente, a grandeza de comédias de caráter. Pois ele vê a vida, assim como nos autos medievais, e em Calderón de la Barca, como um grande teatro; assim, os seus personagens agem no palco como marionetes, ou bonecos de mamulengo, da mesma forma que na vida são homens frágeis porém movidos pelos ventos do Absoluto. O que não impede que eles se esclareçam, num certo momento, de seu verdadeiro caráter, e reajam diante das situações mais complicadas e tomem reais decisões. A ênfase colocada - a despeito da existência de um caráter que assuma escolhas - na fragilidade humana, obedece antes a uma inspiração teológica, que a uma idéia de fatalidade tão comum à paidéia informadora da cultura tanto grega como romana da antigüidade. Tratando-se de um autor fundamentalmente cristão, torna-se óbvio que a sua visão de mundo esteja permeada desse mesmo cristianismo.

O teatro de Ariano Suassuna, dessa maneira, vem a ser um teatro-exortação, que sublima a mera revolta contra as situações, por parte dos seus personagens, para se ver transcendido, ora através de um Cristo negro como um homem do povo, fazendo com que os homens-fantoches que representam no palco, assim como na vida, convertam-se, pelo exemplo, em homens que ultrapassem a ótica vesga de suas próprias ilusões. Mestre de transcendência, Ariano consegue que, mediante o divertimento saudável de seu teatro, os seus personagens no palco, assim como os espectadores na platéia, passem por um verdadeiro processo de conversão, de certo modo corrigindo Aristóteles para quem a comédia deve representar os homens, em oposição à tragédia, piores do que são no seu pedestre cotidiano. Por meio da representação dos vícios e ridículos dos homens, Ariano pretende, ao contrário, pintá-los, à luz de uma reviravolta religiosa, bem melhores do que costumam ser.

Tomemos como exemplo esclarecedor do que estamos dizendo, até agora, cinco de suas peças. Em o Auto da Compadecida, a crítica se dirige basicamente à hipocrisia religiosa, ligada à ambição de lucro e ao medo de ferir os interesses dos mais poderosos, mesmo quando estes venham comprometer princípios religiosos mais respeitáveis - como no enterro do cachorro em latim em que se envolvem por igual o padre e o sacristão e até o próprio bispo. Mas em vez de, perifericamente, constituir-se numa acusação dos abusos humanos, chama-nos a atenção para a encarnação de Cristo através da figura do negro Manuel, mostrando-nos com isso que o Cristo se manifesta por meio de todas as raças, como protótipo final de todo homem, e que Nossa Senhora, sob o título de A Compadecida, representa, em sua misericórdia, o próprio juízo que o homem deve ter de si mesmo após superar-se, pela correção de sua vida, segundo os princípios religiosos, em sua debilidade fundamental.

O Casamento Suspeitoso versa sobre o adultério como elemento minador do próprio relacionamento entre os homens: na peça, a personalidade esperta de Cancão, espécie de versão de João Grilo, do Auto da Compadecida, contribui para o demascaramento dos personagens envolvidos na trama de um casamento de conveniência, e onde frei Roque, em sua rudeza de cura de aldeia, encarna o peso da lei religiosa que exige a remissão e a reintegração de todos, através da penitência de suas culpas, ao caminho real da pureza e do amor.

Em O Santo e a Porca temos o drama da avareza em seu duplo caráter pecaminoso: o de contribuir para a privação dos bens materiais por parte daquele que entesoura, ao mesmo tempo que faz deles a sua salvação, e o de agravar a pobreza moral de quem vê na posse das coisas a única realização possível. Euricão, o árabe, é a súmula perfeita da avareza, que termina por encontrar seu castigo quando depara sua fortuna em cédulas e moedas convertida em letra morta e sem valor. O Santo - que é Santo Antônio, representante na peça do sagrado e do religioso - readquire, finalmente, seu prestígio sobre a porca que guardava esse dinheiro sem préstimo para a vida de Euricão. Após o castigo do desvalor, imposto pelas circunstâncias, sobre uma fortuna tão afincadamente preservada, temos o castigo final de uma solidão que se abre para a bênção de uma única certeza: a de que nós, homens, valemos mais do que os bens que pretendemos ilusoriamente reter para sempre.

Já A Pena e a Lei é uma verdadeira reflexão teatral sobre a condição humana, em que o homem julga Deus e Deus julga o homem. Nesse mútuo julgamento podemos captar o espírito mais profundo da peça, pois dependendo da benevolência com que o homem julgue a Deus, assim também por Deus será julgado. A nossa vida não passando de uma inquisição permanente, em que da forma que inquirimos seremos igualmente inquiridos. A todo momento estamos testando valores e contravalores, e estamos sendo por eles testados. As leis e os castigos, como nos faz ver o próprio Cheiroso - que representa jocosamente Deus, na qualidade de dono dos bonecos de mamulengo, - não significam mais que recursos disciplinares para o próprio aperfeiçoamento humano. O mundo é visto como uma verdadeira cavalhada, em que uns montam sobre os outros, como esclarece Benedito: "O mundo que conheci foi uma cavalhada: os grandes comerciantes de fora montados nos de dentro, os de dentro nos fazendeiros, os fazendeiros nos vaqueiros, os vaqueiros nos cavalos". Apesar da vida se assemelhar a um duro fardo, eis que quando Cheiroso, assumindo o papel de Deus, estabelece um pequeno juízo final, ninguém a recusa, mesmo diante de todas as torturas e contratempos por que passou. A vida é compreendida e aceita como um dom e, como tal, em nenhum momento, é recusada. As penas e as leis para aqueles que transgrediram o amor, a verdade e a justiça, servem , inclusive, de estímulos para o crescimento da esperança no homem, tanto na vida como além dela.

Em A Farsa da Boa Preguiça, ao nosso ver sua maior peça teatral, Ariano Suassuna ao traçar uma comédia de costumes, a enriquece de uma verdadeira interpretação cultural e antropológica do homem brasileiro, contrapondo a boa à má preguiça, e revelando naquela antes um traço de autonomia de nossa identidade como brasileiros, do que um defeito ou uma perversão de nossa raça, e com isso levando ao ridículo mais atroz certos preconceitos europeus e norte-americanos assimilados por alguns falsos intérpretes da nossa cultura como verdades absolutas, numa completa capitulação das nossas especificidades enquanto povo. Ao contrapor Simão, o poeta, e Nevinha, sua mulher, ao ricaço Aderaldo e à pedantesca Clarabela, mulher desfrutável, Ariano levanta o mais perfeito libelo da autenticidade contra a falsidade, ou dos valores que promovem o humano contra os pseudos-valores que vêm apenas degradá-lo.

Do mesmo modo que no Auto da Compadecida, e em A Pedra e a Lei, assim também a Farsa da Boa Preguiça culmina com um juízo particular em que Cristo é assumido pela persona de Manuel Carpinteiro, e o apóstolo Pedro e o arcanjo São Miguel tomam parte no julgamento do casal pobre e do casal rico, em que o último é remetido ao purgatório por excesso de misericórdia da Virgem Maria e também graças às orações in extremis do primeiro, que aliás continua sua jornada na terra, para mostrar a todos que há dois caminhos: o que conduz à vida - o da pobreza exterior, evangelicamente aceita - e o que conduz à morte - o que assenta suas raízes apenas na abundância de bens materiais.

Muitas outras peças escreveu Ariano Suassuna, mas nos cingimos a cinco delas, por considerá-las as mais significativas de sua dramaturgia. Porque é justamente nelas onde descobrimos os aspectos mais importantes de sua contribuição para o teatro brasileiro, e não só aqueles que já foram por nós salientados mais acima, porém dois outros que consideramos definitivos, por implicarem uma dupla visão de transcendência: a valorização do lado mais espiritual da nossa cultura, e o apelo religioso numa época de tantos humanismos que antes amesquinham do que engrandecem o humano radicado no homem.

Recife, setembro/1984

Autor: 
Ângelo Monteiro

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