Anti-decálogo ou A Abominação da Filosofia

I

Negar o Ser sob todas as formas e erigir, em seu lugar, o método como o Alfa e o Ômega de toda Filosofia.

II

Divinizar o discurso como ídolo supremo, independentemente de seu conteúdo ou do seu valor de Verdade.

III

Eleger técnicas e modas filosóficas em detrimento dos princípios, para que se cumpra a dissolução da sabedoria.

IV

Reduzir a linguagem filosófica a registros sociológicos ou políticos de um determinado tempo.

V

Lutar pelo primado do unanimismo no discurso, evitando-se o perigo de qualquer antagonismo que venha comprometer o dirigismo das consciências e por em dúvida as doutrinas dos mestres e doutores da hora presente.

VI

Substituir a consciência individual pelo reflexo condicionado da consciência coletiva, combatendo-se como heresia a busca solitária da verdade.

VII

Pautar-se sempre pelo politicamente correto, ainda que filosoficamente falso, mesmo que isso contrarie o mais elementar bom senso de todos nós.

VIII

Fugir sempre das ciladas de qualquer aventura filosófica que ameace colocar em questão as delícias do status quo com seus títulos, cargos e consultorias.

IX

Transformar a dialética, não em meio para atingir uma síntese superior, mas em fim de toda investigação filosófica, ou vê-la como um novo nome para a velha sofística.

X

Evitar qualquer espécie de drama filosófico, sobretudo os dramas que envolvam exigências de ordem religiosa e metafísica, e que façam perigar os alicerces da cidadela do pseudo-conhecimento dominante.

 

 

Autor: 
Ângelo Monteiro

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.