A Significação do Natal

De magos e pastores foi a corte - de homens pobres e de homens de mistério - que cercou Jesus em seu surgimento ao mundo. De magos e pastores foi a corte, orientada pela Estrela, que dos altos céus iluminava a coroa mor de um Rei por nosso amor tornado terrestre. Abençoada Estrela que, depois de se cumprir, se abismou nos céus, a ponto de não haver dela a não ser memória em alguns poucos homens, que ainda hoje perseguem seu brilho remoto, no qual vê a fonte de sua determinação e de seu amor. Estrela que se perdeu e, mesmo perdida, empresta vida aos que não vêem vida no realismo chão que apodreceu todos os faustos do Sonho e, por isso, preferem vê-la, Vida-Estrela, encimando a Terra, como timbre de um brasão celestial.

Eterno Natal da Vida através do surgir desse Rei despojado de pompas exteriores, nu e vivente nas ondas de ouro e de púrpura do seu próprio ser, nu e vivente na claridade solar de sua Beleza e de sua Verdade: Genitor que se faz Primogênito, Ação que se transmuda em Passividade, Riqueza que se desnuda em Pobreza, Vida que transborda para, sobre o poder da Morte, ressuscitar. Ao Natal do Ungido, corresponde o nascimento do homem novo, de que falava Paulo, o apóstolo; e, consequentemente, de um novo reino para esse homem. Pois o Mestre do verdadeiro Nascimento, o arquétipo do Natal, permanece pelo tempo, a nos dizer: "É necessário nascer de novo".

Mas quantos aspirarão nascer de novo? Que relação terá esse Natal sórdido, que se repete todos os anos, dentro da caprichosa rotina dos clichês apodrecidos pelo uso, e dos reflexos dos cães de Pavlov, em que a maioria dos perdidos raciocina, com a soberania de uma festa que deveria ser universal para o coração do homem? Que terá a ver o reino da infância, trazido por Jesus Cristo em seu Natal, com o atual império do marketing - que exilou da terra para sempre os magos e os pastores para somente abrigar sob os seus cartazes mercenários, em vez das faixas luminosas dos antigos coros angélicos nas alturas, a grei dos mercadores, dos especuladores e dos usurários, amesquinhadores de todos os bens da terra?

Há dois natais: de um lado, o Natal do Doador de riquezas; de outro lado, o Natal dos empobrecedores do mundo. O Natal do Triunfador da morte; e o outro Natal dos resignados ao jogo da oferta e da procura, única dialética erigida por esse novo Mercúrio, o do mercado, que, entre os antigos, foi o mensageiro entre os deuses e os homens. Os modernos transformaram, portanto, a astúcia de um deus, ágil no vôo e no comunicar do mistério, em símbolo da rapinagem do seu comércio.

Querem uma significação para o Natal ? É não Ter significação nenhuma. E essa nenhuma significação do Natal só poderá ser percebida, em suma, por eles, por esses deuses mercantis, por esses Mercúrios multiplicados: para eles, que têm em Papai Noel o mais auspicioso e eficiente dos mediadores, se lhes revelará, entre as nuvens do consumo - o que não se revela a nós outros - o universal domínio do seu fulgor. Traficantes de Deus e embromadores do Diabo - Prometeus às avessas, que não somente roubam mas ainda adulteram o fogo dos deuses - a eles, e apenas a eles, caberá a transmissão dos valores para uma civilização cada vez mais agonizante.

Feliz Natal, sim, para todos quantos silenciaram a Estrela dentro de suas almas. Para os que perderam a perspectiva do renascimento, depois do conflito liberador e da morte de mesquinhas ilusões. Para esses o Natal continuou e continuará sendo o mesmo: um Feliz Natal. Tanto faz para esses Cristo como Papai Noel. Tanto faz a Estrela que conduziu magos e pastores, como a forjada do brilho falso dos slogans comerciais, ou aquela feita do arame farpado de todas as cercas do mundo. Ah! Estrela brilhante, faiscante e cristalina brotada das cercas de fome, desespero, solidão e sacrifício de todas as formas de liberdade. Se por uma suprema sutileza, observarem que tal Estrela é por demais pobre, não haverá problema: tripudiarão e dançarão diante dela com o apelo de todas as farsas até hoje merecedoras de fé. Numa era de farsa, tudo que brilhe, se não for moeda, é estrela. Nem por isso faltará fé aos homens. Nem muito menos um Feliz Natal.

Para aqueles, ao contrário, que trazem o santo, a criança ou o poeta, dentro de si, o Natal estará sempre para ser criado. Porque sendo ele o Alfa - por habitar sempre na origem - será, por conseqüência, também o Ômega de todos aqueles que desprezam o mercado, porém permanecem acreditando na Vida.

Publicado no Jornal do Commercio em 25 de dezembro de 1977

Autor: 
Ângelo Monteiro

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