A Poesia como recriação do homem

 

"Somente durante breve período foram esses deuses realidade. Os gregos atingiram seu apogeu enquanto homens: igualavam-se aos deuses. Enfrentavam-nos abertamente e faziam-nos manifestarem-se não através de teólogos e sacerdotes, mas através de poetas e filósofos. Viam-se no espelho dos deuses". 
Karl Jaspers

Se a Poesia contar com alguma missão pedagógica essa não poderá ser outra senão a de neutralizar sempre todas as ameaças e todos os perigos que visam comprometer, de maneira definitiva, a imagem que o homem quer fazer de si mesmo: que diminuída até o ridículo ou à infâmia, como na comédia ou na farsa, ou ampliada até à grandeza, como na épica e na tragédia, jamais se deixará reduzir à medida banal em que uma concepção pedestre da vida pretende encerrá-la. Buscando suprir a ausência dos objetos - pois a Poesia, diferentemente das demais artes, lida com a forma (e esta imaginada) e não com a matéria das coisas, - faz do mito sua substância necessária e da palavra, depurada dos seus diversos usos e trocas de moeda corrente, o veículo dessa substância.

Compreendendo o mito em seu sentido originário, como espaço configurador da existência humana, em sua ligação com aquilo que a transcende, é que poderemos captar o caráter paradigmático não só dos personagens mas da própria trama dos relatos em que eles se inscreveram; e, mais ainda, tratando-se da poesia lírica, dos valores afins de certas atmosferas espirituais em tempos históricos os mais diversos. Na poesia lírica, com efeito, o Poeta, livre de qualquer contexto espacial ou temporal que o delimite, sempre estaria dionisiacamente pulsionado por inquietações de natureza mais filosófica do que na épica, por exemplo. De modo absoluto o Poeta nunca faz da narrativa o fulcro principal de sua criação. Romeu e Julieta, Hamlet, Iago e Macbeth tornaram-se criações de Shakespeare independentemente de serem personagens cantados muito antes dele em relatos que precederam a sua existência de grande poeta e dramaturgo. O sopro dramático que o poeta insuflou em tais personagens é o que os tornou shakespereanos. Qualquer imbecil pode contar uma história sem carecer de concurso de um poeta; porque a um poeta,. se de fato o é, só podem interessar situações paradigmáticas que reflitam a condição humana. Ao poeta caberá, apenas, expressar artisticamente, na grandeza ou na baixeza, em ponto exagerado, a mímesis dessa condição.

A palavra, que vive da ausência dos seus objetos, ao contrário do vampiro que vive do sangue de suas vítimas, empresta seu próprio sangue à ausência das coisas, criando outra presença com poder de concorrer com as outras presenças da realidade. É nesse sentido que Oscar Wilde teve razão ao dizer que a natureza é que imita a arte, e não a arte que imita a natureza. E a presença da arte, e notadamente da poesia, se faz sentir de tal maneira na vida da cultura que muitas vezes confundimos os papéis da vida com o papel paralelo desempenhado pela arte. Os grandes feitos - encarnados nos grandes amores bem como nos grandes ódios, - são por isso todos artísticos: vida nenhuma, história nenhuma é povoada ou saturada de tal poesia.

A natureza - e Baudelaire o reconheceu muito bem em um dos seus magníficos ensaios - nada sabe do amor e da beleza: na cultura é que se criam o amor e a beleza. Pois que são o amor e a beleza - perguntamos - senão criações da Poesia? O amor não era conhecido nas cavernas: que o diga o mito da caverna de Platão. E beleza nenhuma jamais se refletiu nas paredes de uma caverna; dela quando muito houve o reflexo incidindo em suas sombras. A beleza é uma simetria criada pelo artista. E o amor não é criação do homem comum: mas criação, num alto estágio da cultura, da ética amancebada com a estética.

O objeto da Poesia é edificar - valha o sentido moral ou religioso - o homem comum; e isto é o mesmo que dizer: criar outra imagem do homem. Os homens comuns necessitam, portanto, do Poeta para serem transformados, sob pena de não conseguirem sobreviver sem a colaboração recíproca do amor e da beleza. A função específica da Poesia é a recriação permanente da imagem do homem. Foi talvez por ausência da Poesia que Narciso se afogou na própria imagem, segundo o mito grego, como foi pela presença da Poesia que o Patinho Feio se reencontrou, segundo o extraordinário mito de Andersen. Nenhum homem aceita sua própria imagem: pela simples razão de que se o caminho de todas as coisas é o devir - como tão bem nos mostrou Heráclito - o caminho do homem será sempre o do dever-ser, como nos patenteou Sócrates em sua pregação do "conhece-te a ti mesmo". Quem quer que procure conhecer a sim mesmo - ainda que seja a coisa mais difícil nos conhecermos - jamais se contentará com a sua própria imagem: mas há de descobrir necessariamente uma via de aperfeiçoá-la. E a perfeição do homem não consiste noutra coisa senão em se superar, como anunciou Nietzsche, o poeta-filósofo da superação humana.

Quando dizemos que toda Poesia é arquetípica - mesmo naquelas formas que se recusam ao arquétipo por temor do estereótipo, como se ambos tivessem o mesmo significado - levamos em conta, principalmente, o caráter mimético nela reconhecido tanto por Platão como por Aristóteles. O caráter mimético da arte, sobretudo na Poesia, é inseparável do seu conteúdo arquetipal, tão ressaltado por Platão, que expressamente exigia da mímesis um resultado pedagógico para a formação humana. Aristóteles, por sua vez, ao proclamar a catarse como forma de reconstituição de equilíbrio do homem - após a experiência do pathos da tragédia e a identificação necessária com o herói trágico - enfatizava um dos aspectos mais fundamentais da mímesis: o seu poder de recriação da imagem do homem.

Como existe uma diferença básica entre o domínio da verdade e o da verossimilhança - como de resto não se podem confundir o plano da arte e o da realidade - nunca será demais lembrar a sentença definitiva de Aristóteles: "A poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal, e a história estuda apenas o particular". O fato da poesia ser mais filosófica nos chama a atenção para uma de suas qualidades mais peculiares; a de ser o estuário em que vão desaguar todas as interrogações que permeiam o horizonte humano. É justamente sua qualidade filosófica que a distingue de qualquer relato considerado em si mesmo, e por isso tomamos como paradigma o relato histórico. A Poesia não poderia nunca se circunscrever ao anedótico, ao circunstancial, ao factual, já que sua essência reside não no particular mas no universal; naquilo que no homem é permanente, misterioso e enigmático como realidade fundante das demais realidades que o rodeiam.

Há hoje uma tendência muito em voga que consiste em colocar a psicologia da arte a reboque da psicologia do artista, e em reduzir aquela a um mero apêndice desta; a preocupação com os aspectos pessoais, mesmo os mais mundanos e desnecessários do artista, principalmente se falso artista, quase não reserva nenhum lugar para a obra de arte enquanto tal. Esse tipo de leitura da arte, a partir das idiossincrasias, debilidades ou neuroses do artista, obscurece o papel primacial da arte, que é a recriação do homem, por se conformar apenas com o que de móvel, instável e quebradiço, há no homem comum destituído de paradigmas. E é sobre esse homem sem paradigmas que se pretende construir a poesia de nosso tempo e, mais gravemente, a partir de tal poesia, tal história

Jung, ao distinguir a personalidade do artista do processo criador tomado em si mesmo, presta um enorme serviço à cultura e, conseqüentemente, ao homem como um todo, ao asseverar: "Todo criador é uma dualidade ou uma sínteses de qualidades paradoxais. Por um lado, ele é uma personalidade humana, e por outro um processo criador, impessoal. Enquanto homem, pode ser saudável ou doentio; sua psicologia pessoal pode e deve ser explicada de um modo pessoal. Mas enquanto artista, ele não poderá ser compreendido a não ser a partir de seu gosto criador (...) Isto, porque a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento. Em última instância, o que dele quer não é ele mesmo enquanto homem pessoal, mas a obra de arte. Enquanto pessoa tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, "homem", e homem coletivo, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade. É esse o seu ofício, cuja exigência às vezes predomina a ponto de pedir-lhe o sacrifício da felicidade humana e de tudo aquilo que torna valiosa a vida do homem comum".

Como o mito está radicado na essência de toda verdadeira arte - tal o preceituavam, desde a antigüidade, Platão e Aristóteles, - Jung insiste na idéia do artista enquanto instrumento das imagens primordiais: "Por este motivo, é perfeitamente válido e legítimo que o poeta se apodere novamente de figuras mitológicas para criar as expressões de sua experiência íntima. Nada seria mais fácil do que supor que se recorra, nesse caso, a um tema tradicional. Ele cria a partir da vivência originária, cuja natureza obscura necessita das figuras mitológicas e por isso o artista busca avidamente as que lhe são afins para exprimir-se através delas. A vivência originária é carente de palavra e imagem, tal como uma visão num "espelho que não reflete". A vivência originária é um pressentimento poderoso que quer expressar-se, um turbilhão que se apodera de tudo o que se lhe oferece, imprimindo-lhe sua forma visível".

Assim como os conflitos pessoais do artista não explicam a sua arte, da mesma maneira a ciranda dos acontecimentos do cotidiano não constitui o conteúdo vital da arte: o cotidiano não passa de pano de fundo de uma experiência mais originária. É esta experiência originária que pode justificar a força que se apodera do artista, transformando-o em seu dócil instrumento, independentemente de sua vontade pessoal.

Por isso nenhuma poesia se contentará apenas com os narrados e sucedidos, mas com o fundamento das vicissitudes humanas; com a sede e a fome meta-biológicas que são insaciáveis no homem forçado a se alimentar do sensível apenas para sobreviver: quando ele o que quer é ressuscitar. Foi mais ou menos nesse sentido que Nietzsche escreveu: "Só me agrada aquilo que alguém escreveu com seu próprio sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que o sangue é espírito".

A Poesia que vive do pedestre como seu último fim se nega como poesia. Reduzir a vida a depoimentos do cotidiano, ou fazer da poesia o veículo de tais depoimentos, é contribuir para que ambas se anulem sem possibilidade de recuperação, é concorrer para que o sangue se negue enquanto sangue para servir de alimento apenas a vampiros do instante e a negadores do ser.

A vantagem da Poesia em relação às demais artes é que ela não é apenas arte; mas inspiradora das demais artes aponta um caminho de retorno à vida pois, ao conjugar palavra e ser, proclama o nascimento das coisas e o retorno das coisas à origem comum: o Logos, que é Fogo, Luz, Liberdade. Heidegger teve a felicidade de descobrir que "a linguagem é a casa do ser; nela morando, o homem existe enquanto pertence à verdade do ser..." A palavra, portanto, não é apenas meio de comunicação mas morada do ser. E o homem é a testemunha da Palavra. Tanto isso é verdade que, pelo menos, dois ignorantes geniais, Homero e Shakespeare, - que existiam bem antes dos nossos atuais Cursos de Letras - assim o testemunham, como "pastores do ser" e, conseqüentemente, da palavra, para usar mais uma expressão heideggeriana.

Quando Heidegger fala da tagarelice, como uma dominante na atmosfera avessamente cultural do nosso tempo, se refere, naturalmente, à morte institucional da palavra; não à palavra mesma. Refere-se à morte jornalística, publicitária da palavra, não à palavra fundadora que fez Hölderlin dizer: "O que existe, os poetas o fundam".

Desconfiemos, como medida de preservação de nossa saúde psíquica, dos poetas afeitos ao culto do ramerrão cotidiano, em cujo horizonte só cabem as ordens do dia, e os editais e proclamas da mediocridade dominante: eles falam do tempo, mas não serão jamais transpassados pela espada do tempo, e por isso não sofrem, e por isso não conhecem nenhuma eternidade.

Mas desconfiemos, também, dos que se esforçam denodadamente para não perder o celebérrimo trem da história (que já possui uma duração pré-diluviana) atrás de atingir sempre uma modernidade a qualquer custo: eles não acreditam na História por temerem a própria história que não souberam preservar. E por isso escrevem livros que se desmentem uns aos outros, assumem todas as posturas, perfis, partidos e correntes, nos quais se encurralam, como reses agoniadas de um enorme e mesmo rebanho, e se atrelam, como cães domesticados, a qualquer confraria, para se convencerem, de uma vez por todas, de que estão vivos.

Desconfiemos, finalmente, dos que nem sequer visualizam a Palavra por não pressentirem que, através dela, se celebra a liturgia do ser e, por conseqüência, jamais conseguirão perceber o Ser como enamorado da Palavra que o revelou, e que é a Poesia.

Por isso não estranhemos a sem-cerimônia com que aparecem, sempre juntos, em nossa mirada, poetas e filósofos; porque sendo o mito a origem comum da nossa busca da Verdade, de Beleza e do Bem, como poderíamos jamais fugir da tentativa de reconciliação entre a razão filosófica e a razão poética? E como afastar a proximidade, sempre recapitulada, entre o Mito e o Logos?

E, se ao falar de Poesia, também falamos de Filosofia, é porque pensamos com Georges Gusdorf para quem a última é, "ao mesmo tempo, caminho da má consciência e da nostalgia". A má consciência reflete a angústia do ser e, dessa forma, exige o retorno ao que perdemos; e a nostalgia é a Porta do ser e, portanto, da palavra que a ele nos devolve.

Autor: 
Ângelo Monteiro

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.